[CINEMA] Filmes Traumatizantes a que Todos Deveriam Assistir

Existe um momento na vida de todo cinéfilo, ou aspirante a cinéfilo, em que o joio e o trigo são separados. O momento em que se separam os homens dos meninos. O grande divisor de águas. O grande… Tá… vocês já entenderam o que eu quero dizer.

Fato é que cinema é arte, e arte pode ser admirada conforme o desejo do espectador. Mas para quem quer uma formação cultural exemplar, e um currículo de cinéfilo decente, alguns filmes são necessários.

Entre os muitos títulos que você “precisa ver antes de morrer”, estão os filmes seguramente perturbadores.

Sim, eles fazem parte do pacote e vêm com efeitos colaterais.

É claro que, dentre todos os redatores do site, seria eu a trazer essa lista desgraçada para vocês.

Vamos à lista que te levará ao psicólogo mais próximo de você!

Mother! (Darren Aronofsky)

Se você nunca assistiu a nenhum filme de Darren Aronofsky, vale dizer que ele produziu Réquiem para um Sonho, Cisne Negro, O Lutador, Noé e O número PI. Claro, se você já assistiu a qualquer um desses filmes (com exceção de Noé), sabe o quão perturbadora e mentalmente desastrosa pode ser uma película de Aronofsky. Vale dar uma conferida em um podcast que fizemos dele anos atrás.

A coisa sobre Mother! é que talvez Darren tenha se superado. O filme não traz analogias, pois é a própria analogia. E cada cena do filme é pensada em macrocosmo, transportada para um microcosmo. Ou seja, tudo o que você vê é um véu de Maia para algo que você precisará experimentar para compreender por completo.

Além de complexo, Mother! traz discussões sobre culpa, fé, humanidade, violência, maldade, justiça e sobre as muitas visões do ser humano sobre nossa DAE MATER, ou deusa mãe. Será?

Um casal vive em um imenso casarão no campo. Enquanto a jovem esposa (Jennifer Lawrence) passa os dias restaurando o lugar, afetado por um incêndio no passado, o marido mais velho (Javier Bardem) tenta desesperadamente recuperar a inspiração para voltar a escrever os poemas que o tornaram famoso. Os dias pacíficos se transformam com a chegada de uma série de visitantes, que se impõem à rotina do casal e escondem suas verdadeiras intenções.

É interessante como esse filme gera uma total antipatia pela raça humana. É só a partir dele que você consegue, contudo, ter um olhar mais centrado na humanidade. Paradoxal, não é?

O filme é um tapa na cara, e por isso mesmo vale a pena ser visto e revisto com toda atenção.

ESTA É A SUA MORTE (Giancarlo Esposito)

Para quem gostou de Black Mirror, e acha que a humanidade está caminhando a passos velozes para uma espécie de crash mental e ideológico conjunto, esse filme é ideal.

Adam Rogers (Josh Duhamel) é um apresentador de TV que aceita participar de um projeto polêmico: um reality show chamado “Esta é a sua morte”, onde os participantes se inscrevem para cometer suicídio ao vivo, da forma como preferirem, em troca de um prêmio em dinheiro para sua família. A questão é ainda mais perturbadora, pois as vítimas escolhem morrer e até fetichizam o próprio fim, com toda uma cenografia montada no palco. E com direito a palmas e assovios da plateia.

O filme perturba como numa espécie de mix entre “Idiocracy” e Black Mirror (conforme acima citado).

Se você tem tendências suicidas, não assista! É sério.

PERSONA  (Ingmar Bergman)
Assisti a este filme há exatamente 4 anos, um mês e 9 dias atrás. 

Como eu sei disso?

O nó no cérebro foi, digamos, considerável.

Sendo um inegável clássico cinematográfico, Persona trata da enfermeira Alma (Bibi Andersson), que fica incumbida de cuidar de Elisabet (Liv Ullmann), uma atriz de sucesso que, aparentemente, está em perfeita condição física, mas tem qualquer tipo de deterioração mental e se recusa a falar qualquer coisa.

Ambas estão isoladas em uma casa de campo e, conforme as duas passam mais e mais tempo juntas, Alma vai revelando segredos para a paciente, que permanece apática. Aos poucos, Alma percebe que seu ser (ou seu ego, como preferir) começa a submergir no de Elisabet, e as duas vão se tornando uma só pessoa. A sensação do filme é que há realmente uma simbiose e uma troca de experiência entre as duas, como se em dois corpos houvesse um só espírito, ou o contrário.

É um filme que vai te deixar pensando por um bom tempo.

O Labirinto do Fauno (Guillermo Del Toro)

Pouco depois do fim oficial da Guerra Civil espanhola, Ofelia (Ivana Baquero) se muda para Navarra com sua mãe, Carmen (Ariadna Gil). O padrasto de Ofelia é um oficial fascista que luta contra alguns rebeldes da região, onde ainda há resquícios da Guerra. A garota é praticamente a única criança nas redondezas e, por isso, muito solitária. Ofelia se distrai do mundo horrível ao seu redor com histórias fantásticas e passeios pelo jardim de sua casa, onde descobre um labirinto e um mundo mágico.

Porém, esse mundo fantástico acaba acarretando consequências na realidade da família toda. Mesmo com todo o elemento fantasioso e lúdico, o filme ainda é muito desconcertante e intenso. Guillermo Del Toro conseguiu criar uma atmosfera em que o infantil encontra diretamente o cruel.

Esse é um daqueles filmes que faz com que você pense que, talvez, tenha uma propensão a esquizofrenia.

O Homem Duplicado (Denis Villeneuve)

Uma adaptação do livro de mesmo nome de José SaramagoO Homem Duplicado acompanha o protagonista Adam (Jake Gyllenhaal), um professor que leva uma vida maçante e solitária, mesmo tendo um relacionamento com uma garota, Mary.

Adam descobre, assistindo a um filme de quinta categoria, que ele tem um sósia que é ator, Anthony. Ele fica obcecado por Anthony – que, apesar de fisicamente idêntico, inclusive nas cicatrizes, é seu oposto em termos de personalidade. As coisas se complicam quando os rapazes acabam envolvendo seus relacionamentos amorosos na confusão.

Um filme extremamente complicado de entender por si só, e cheio de teorias tentando explicar seu desfecho, não é o tipo de filme que causa traumas, mas à primeira vista você não irá entender nada.

Assim, tentará rever o filme, e finalmente vai notar o que aconteceu.

De alguma forma muito curiosa, esse filme segue A MESMA LINHA DE RACIOCÍNIO DE ARRIVAL, dirigido, aliás, pelo mesmo diretor.

A ILHA DO MEDO (MARTIN SCORSESE)

Particularmente, não ligo para Spoilers, e creio que uma boa parcela dos cinéfilos também não liga. Não dou Spoiler, contudo. Acho anti-ético.

Contudo, mesmo que eu não me importe com Spoilers, alguns filmes e livros necessitam de um Plot encoberto para que tudo faça sentido e cause o impacto necessário. Alguns detalhes da trama transformam os filmes em verdadeiros eventos. Um caso bem claro disso é o filme “O Sexto Sentido“.

O mesmo acontece com A Ilha do Medo. Um spoiler vazado pode colocar toda uma experiência a perder.

Nos anos 50, Teddy Daniels (Leonardo DiCaprio) e seu parceiro Chuck (Mark Ruffalo) são convocados para investigar um desaparecimento em Shutter Island, uma ilha prisional para pacientes psiquiátricos. Os médicos do hospital são resistentes em ajudar os agentes solucionarem o caso, o que deixa o investigador muito suspeito em relação às verdadeiras intenções dos médicos com seus pacientes.

Esse também é o tipo de filme que te faz questionar a própria sanidade.

A PELE QUE HABITO (Pedro Almodóvar)

Sou suspeita para falar de Almodovar, na medida em que todos os filmes do diretor me agradam muito.

A pele que Habito, retirado do livro “Tarântula“, é um caso especial, contudo.

É normal que os filmes do citado diretor causem um certo incômodo, em razão das cenas de violência e sexo muito cruas, mas no caso de A Pele que Habito, o drama vai além do que o corpo sente.

O filme é impactante por tratar da identidade e de sua fragilidade perante fatores externos, que não a loucura.

No filme, a esposa do Dr. Robert Ledgard (Antonio Banderas) se suicidou ao olhar-se no espelho após um grave acidente de carro que queimou quase por completo sua pele. A filha do casal, Norma, fica com sequelas psicológicas (claro, como não?) irreversíveis depois do acontecido.

O médico também se abala muito com a situação e se concentra em criar a “pele perfeita” contra diversos tipos de agressões, misturando pele humana e suína. Um terror sem sustos ou gritos, A Pele que Habito é bem bizarro e consegue despertar a espécie mais primitiva de medo no espectador. O medo de perder o próprio EU.

Gosto de lembrar de uma remissão boba, tola, e talvez imaginada só por mim neste filme, quando tratamos em particular do personagem de Banderas, que seria uma versão pós-moderna de O Médico e o Monstro.

 

Eis mais uma listinha de filmes para causar desconforto.

Em breve voltaremos com mais bizarrices para vocês.

E esse post é um oferecimento do laboratório ROCHE.


Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.

4 thoughts on “[CINEMA] Filmes Traumatizantes a que Todos Deveriam Assistir

  1. Gente, que lista maravilhosa! Nada como indicações pra foder de vez a cabeça da gente. <3

    Eu li e vi A Ilha do Medo e que história sensacional. Lehane é um dos meus autores favoritos. De resto, já tinha ouvido falar do Fauno e do Pele, mas nunca tinha ficado com vontade de assistir assim.

    Vou guardar a lista e, depois que assistir, mando a conta do tratamento psiquiátrico pra vocês. 😉

    • Muito agradecida por causar prazerosas sugestões de traumas.

  2. Listinha TOP, Mother é um filme extremamente viciante. Eu ainda acrescentaria o AntiCristo do Lars von Trier, filminho que causa estranhesas na cabeça da pessoal. hehe.

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