[CINEMA] Divertida Mente (crítica)

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Neste novo longa de animação da Pixar, acompanhamos o amadurecimento de Reily, de seu nascimento até sua pré-adolescência, com um porém: testemunhamos tudo sob o ponto de vista das cinco emoções que comandam o funcionamento de sua mente numa fase turbulenta e cheia de mudanças em sua vida, que ajudará a definir sua personalidade dali pra frente.

Deixa eu tirar isto logo do peito e do caminho pra começar pra valer essa crítica: eu chorei em diversos momentos de Divertida Mente, e não tenho vergonha de admitir. Na verdade considero essa confissão um dever e uma comprovação de quão bem o filme cumpre seus propósitos. Os culpados por isto são o trio formado por Pete Docter, Meg LeFauve e Josh Cooley, roteiristas da animação, que foi dirigida brilhantemente por Docter.

Mas antes de falar das qualidades que já garantiram a Divertida Mente o lugar de melhor filme comercial de 2015 até então, deixa eu contar uma rápida história pessoal:

(imaginem uma atmosfera enevoada aqui)

Depois que voltei fascinado e extasiado do cinema ontem à noite, fiquei horas pensando no porquê de o filme ter me tocado tão fundo e me emocionado tanto. Minha conclusão foi que enxerguei nele metafóricas visuais e dramatizadas de processos mentais que eu vivenciei entre minha infância e minha adolescência.

Assim como a Riley, eu também tive que enfrentar o drama de mudar de cidade por conta das mudanças de emprego do meu pai, deixando para trás amigos, ruas e casas que eu adorava. A maior diferença é que não passei por isto apenas uma vez – como ela – mas 3 vezes entre os 10 e os 12 anos.

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Resultado (bem resumido): tornei-me um (pré-)adolescente mais introspectivo e tímido. Minha alegria foi aos poucos deixando de exteriorizar-se em brincadeiras e bobeiras típicas de garotos com pouco verniz social, e tomou uma rota de expressão mais interior. Por tais motivos, este foi um dos períodos mais férteis da minha imaginação. Criei mundos e sagas inteiras naquela época, tudo na cabeça. Infelizmente tenho poucos registros artísticos deste período, pois guardei a maioria daquelas criações pra mim, sem compartilhá-las com o mundo exterior, o que fez com que elas caíssem no esquecimento (literalmente, se formos usar uma das brilhantes metáforas visuais do filme). Sim, eu era bem mais egoísta.

Minha tristeza e medo também se interiorizaram, e se converteram em problemas gástricos psicossomáticos que marcaram o início da minha adolescência.

Fim. (por enquanto)

O relato autobiográfico acima foi pra explicar que Divertida Mente levou-me a enxergar um período formativo de minha personalidade sob a forma do drama de Riley e seu quinteto de emoções. O que atesta quão inspirado e eficaz foi o trabalho dos artistas responsáveis pela animação em sua tarefa de gerar no espectador identificação e empatia por personagens tão coloridos quanto cativantes. E eu não poderia esperar menos que isto de um filme protagonizado por emoções personificadas e produzido pela Pixar.

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Sei que muitos críticos estão falando de sua introdução, tanto quanto comentaram sobre os inesquecíveis e tocantes minutos inicias de Up, mas é quase uma obrigação falar sobre ela, pois trata-se de uma verdadeira aula de narrativa cinematográfica: nela acompanhamos o nascimento e vários trechos da infância de Riley e, paralelo a eles, a primeira manifestação de cada uma das cinco emoções que “filtram” suas memórias, definem suas ações e reações, e orientam a estruturação de sua mente e a formação de sua personalidade. É um trabalho de direção e montagem tão primoroso, econômico e refinado, que a constatação da genialidade desses primeiros minutos foi um dos motivos de eu me emocionar com eles. O outro foi resultado da combinação entre esta arquitetura conceitual e as emoções despertas pelos episódios da vida de Riley, retratados durante essa breve aula sobre o funcionamento interno de sua mente.

A sofisticação da interface mental imaginada pelo design de produção e a direção de arte não apenas equipara-se, mas supera – e muito! – Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, outro filme que também explorou a paisagem mental de um personagem num amálgama de drama, comédia, ficção científica e fantasia. O primor encontrado neste aspecto da animação é tamanho, que eu não duvido (e até recomendo) que, nos próximos anos, professores de cursos de design promovam sessões de Divertida Mente para demonstrarem exemplos de interfaces gráficas representativas de conceitos abstratos demais para a mente humana compreender de outro modo.

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Ainda falando sobre a estrutura – o que é inevitável aqui – devo elogiar ainda a forma como foi abordada a dinâmica das emoções mais básicas do ser humano. Toda a interação entre Alegria, Tristeza, Medo, Nojo e Raiva, e entre eles e outros construtos conceituais propostos pela psicologia e a psicanálise, foi muito bem planejada, mas de forma que soasse igualmente lógica e fluida, sem passar a impressão de artificialidade. Assim, apesar de vermos personificações e metáforas visuais de aspectos da personalidade (retratados como ilhas), a dinâmica da produção e armazenamento de memórias (elegante e criativa), a construção de sonhos (hilária!), a imaginação (encantadora!), o subconsciente e o inconsciente (outras duas ideias simples mas muito bem definidas), o conjunto formado por tantos cenários foi bem arquitetado, e seu funcionamento concebido com esmero. Assim tudo é muito intuitivo, dispensando explicações expositivas para compreendê-los e apreciá-los. E a execução é tão brilhante que os realizadores puderam se dar ao luxo de brincar com processos mentais, como o sonhar e o imaginar, o rememorar e o esquecer, as memórias fixas, as de curta duração, as descartadas e as reprimidas. Numa palavra: genial!

Mas nada disto funcionaria tão bem se não houvesse identificação, compaixão e empatia entre o espectador, Riley e suas emoções. Peço perdão pelo chavão que usarei agora, mas não dá pra evitá-lo: Divertida Mente é SIM uma montanha russa de emoções, e é muito apropriado que tenham conseguido isto neste filme. O quinteto de emoções lembra – em menor escala, é claro – os Perpétuos da série Sandman de Neil Gaiman (pra quem não sabe, personificações de aspectos fundamentais da vida no universo); e os temas abordados através delas são tão amplos, profundos e universais nas reflexões que despertam quanto O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry.

Apesar de todas as emoções desempenharem papéis importantes no filme, Alegria e Tristeza são as que mais se destacam, pois é delas o arco principal da história. Outro detalhe que achei muito adequado, pois, se pararmos pra pensar, tanto a alegria quanto a tristeza são as emoções mais presentes na vida humana. Tanto uma como a outra são mais duradouras em suas expressões, que podem influenciar um dia ou uma semana inteiros. E delas derivam outros sentimentos, como felicidade e depressão, por exemplo, que são capazes de afetar um longo período de nossas vidas. Por outro lado, medo, nojo e raiva são mais momentâneas. Enquanto a alegria é uma emoção expansiva e hiperativa, a tristeza é contrativa e hipoativa. Raiva, medo e nojo são emoções repelentes. A raiva afasta sua fonte com uma explosão de agressividade; o medo faz o indivíduo recuar para afastar-se do que o amedrontou; e o nojo é um meio termo que não afasta nem repele, mas expressa-se como má vontade, vaidade e frescura. Tudo isto foi levado em conta em Divertida Mente, e traduzido de forma inteligente na dinâmica do quinteto. 

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Além das cinco emoções, outro personagem que se destaca em Divertida Mente é Bing Bong, que representa a criatividade infantil irrestrita. Prefiro não falar muito sobre ele, pois é uma das melhores surpresas do filme, e um dos que mais me emocionaram pelo papel desempenhado na grande aventura de Alegria e Tristeza pelos diversos territórios da mente de Riley.

E ainda que seja um feito conceitual e estrutural poucas vezes vislumbrado num filme comercial – sem dúvidas o mais ambicioso já produzido pela Pixar – Divertida Mente emociona tanto quanto Toy Story 3 e Up (que particularmente considero os filmes mais emocionantes do estúdio). Com ele a Pixar resgatou aquele frescor de sua “era de ouro”, relembrando-nos que foi de suas mãos que saíram preciosidades como Wall-E, Ratatouille e Os Incríveis (outros três dos meus preferidos).

Devo ainda elogiar a excelente seleção de dubladores brasileiros, todos muito bem entrosados e empenhados em entregar interpretações autênticas e apaixonantes, e a competente direção de dublagem, que preservou a imensa qualidade da obra original.

Se Mad Max: Estrada da Fúria foi o grande blockbuster de ação de 2015 até aqui, Divertida Mente é o maior feito de animação do ano, e um dos mais notáveis dessa década. Desde já é minha maior aposta no Oscar de sua categoria em 2016.

nota-5

Esta crítica foi um oferecimento do Cine 14 Bis.

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