[CINEMA] – Círculo de Fogo (Pacific Rim, 2013)

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Eu me lembro exatamente do dia em que eu comecei a assistir Pacific Rim. Tá, ok, não exatamente porque eu tinha o que? Uns 6, 7 anos no máximo. Mas eu lembro de todo dia acordar religiosamente para assistir esse filme em um dos canais que pior pegava na TV lá de casa, a falecida Manchete.

Na época, claro, Pacific Rim não tinha esse nome. Era apresentado com o nome de “O Fantástico Jaspion” (“fantástico” soa bem pra caralho, não se fazem mais subtitulos assim hoje em dia), que era sobre sobre um cara com uma armadura prateada que enfrentava vilões maniqueistamente maus e monstros com seu robo gigante.

Eu sempre gostei do Jaspion, até hoje acho a sua armadura visualmente bem bolada, mas o que eu era apaixonado mesmo era pelo robo gigante. O “Gigante Guerreiro Daileon” (“gigante guerreiro” também foi uma improvisação da dublagem e ficou bom pacaraio) que era uma nave que se transformava em robo gigante e que esmurrava monstros igualmente gigantes com golpes inspirados claramente na luta livre.

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Houveram outros robos gigantes depois, mas o meu favorito sempre foi o Daileon por várias razões. Talvez pelas lutas dele serem mais viscerais (como eu disse era mais inspirado no show da luta livre) e os outros robos dos outros heróis serem mais durões, sei lá. Sei que uma vez ele enfrentou um monstro piranha gigante, sabe o que ele fez? Ele deu um murro dentro da boca da piranha, arremessou o monstro pra fora da agua e caiu matando de porrada. Cara, precisa explicar o quão legal é isso?

Eu lembro que sempre que eu conhecia uma locadora nova (naquela época existia isso, pergunte aos seus pais o que é uma videolocadora) eu ia direto ver os VHS do Jaspion que eu não tinha alugado ainda.

O tempo passou, tanta coisa mudou mas não o fato que robos gigantes socando monstros apocalipticos do mal era legal pacas. Eventualmente eu conheci alguns monstros legais também, é impossível não simpatizar com a Mothra colocando o Godzilla para dormir e assumindo o lugar da irmã como cordeiro do sacrificio para nos salvar.

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E então, Pacific Rim.

Os trailers já prometiam que o filme seria muito legal. Porra, quantas vezes você vê um robo arrastando um petroleiro no meio de uma avenida pra arrebentar a cabeça de um monstro gigante? O quão legal é isso, não?

Ou seja, o Del Toro estava pregando aos convertidos, era só empurrar pro gol e fazer um filme de ação redondinho como ele tinha feito com Hellboy 2. Isso era o que eu esperava. E o que eu tive foi muito mais do que isso.

Em primeiro lugar é louvavel a escolha do Del Toro de fazer um filme-catastrofe não-realista. Nós queremos ver prédios ser destruidos, não pensar nas pessoas que estavam dentro deles. Em nenhum momento é mostrado nenhuma vitima da destruição, o filme é completamente limpo em contraponto a coisa de “realismo mundo cão” que tomou conta do cinema nos anos 00’s (que começou com X-men e morreu com Vingadores).

A história é perfeitamente amarrada para que nós saibamos o que precisa ser sabido: os heróis estão perdendo a guerra, a chance de vitória é improvavel, os recursos são escassos e etc. Ou seja, tudo para que possamos torcer para os mocinhos (e não a Marysuisse dos heróis perfeitos e invenciveis que faz com que voce acabe torcendo para os vilões).

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PROTIP: não pesquise “rimjob” em imagens do google

Os atores humanos são muito mais do que eu poderia esperar: mais do que ninguém Del Toro aprendeu a lição Sessão da Tarde de como fazer personagens secundários. Lhe dê uma caracteristica simples (genio matematico alemão, biologo fanboy dos aliens, etc) e se agarre a ela.

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E se nós instalassemos o  Windows Vista no PC dos aliens?
Que foi? Já funcionou antes.

E adicione o Ron Pearlman ao filme. Tudo fica melhor com Ron Pearlman (dizem as lendas que ao saber do papel que lhe foi oferecido ele afirmou que aceitaria só com a condição de que ele acabasse sendo devorado por um monstro, tem como não amar esse cara?)

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A
lias ele parece o Drebin do MGS4, how cool is that?

E então tem a GLaDOS. Eu não sei quem foi a alma iluminada que teve o insight de chamar a Ellen McLain para fazer a voz da CPU dos Jaegers, mas esse cara merece um beijo da Scarlett Johanson e da Mila Kunis. Cada vez que ela fala o fanboy de Portal em mim derretia na cadeira e quando ela anuncia que o sistema esta com malfuncionamento só faltou ela terminar com “you monster”

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Discursos de esperança no momento quando não há nenhuma, personagens fodões todos clicherizados (o que é um elogio, se virou cliche é porque funciona) como por exemplo o coronel fuzileiro negão fodão. Sabe que uma das minhas falas favoritas de todo nerdverso é do Sargento negão fodão Johnson em Halo 2

“Homens, usualmente o bom Senhor trabalha de formas misteriosas, mas não hoje! Pois hoje o bom Senhor nos deu esse tanque de 66 toneladas de pura intervenção divina. Se Deus é amor, então podem me chamar de cupido!”

O heroi (americano genérico) e a heroina (japinha generica) formam claramente um casal mas não há um unico beijo durante o filme. Isso tem um que de elegancia que não se ve nos blockbusters de hoje em dia.

Dito isso, então acontece que logo no começo Del Toro estabelece regras para o seu cenário nos primeiros minutos do filme e só depois disso é que o filme realmente começa. “Os Jaeger funcionam assim”, “os Kaiju são isso” e etc.

E aí que entra a genialidade do Del Toro: quando é dramaticamente conveniente ele sabe ignorar as regras que ele mesmo criou para efeito dramatico.

Por exemplo: se mente dos dois pilotos são interligadas é realmente necessário que o cara diga pra guria o que fazer? Dar ordens e tal? Não, mas é importante para o publico que ele diga, é uma ferramenta de narraçao e assim mesmo que segundo as regras daquele universo seja absolutamente ele dizer “agora vamos fazer  tal coisa”, encaixa redondinho para o publico que ele diga.

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Duuude, dorgas manolo larilalia

E assim vai. É realmente necessário que tivesse um botão que os dois tem que apertar ao mesmo tempo para acionar a espada? Não, não é. Mas é uma cena foda pra caralho que o tenha!

ESSE tipo de bom senso que o Del Toro mostrou na hora de conduzir a narrativa, nos fazer torcer contra os aliens e quase imitar gestualmente mesmo cada porrada que os Jaegers arrancavam dos aliens de trocentas toneladas.

Na hora em que a Gypsy Danger enfrenta dois Kaiju sozinha, eu já estava completamente vendido ao filme. Não deu para não lembrar que justamente no primeiro episódio do Jaspion ele enfrenta dois monstros gigantes (porque Satan Goss tem o poder de emputecer as feras) sozinho. Eu me senti como eu senti quando eu tinha 7 anos e assistia pela primeira vez aquele episódio.

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E se você acha que um robo russo de infinitas toneladas esmagando o cranio de um alien apocaliptico do mal não é uma coisa infinitamente foda pra caralho, por favor  me avise para que eu nunca mais considere qualquer coisa que você diga porque voce fala de uma maneira burra, eu não consigo nem compreender direito o que você diz porque voce fala muita burrice.

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Eu tolero muita coisa, mas é impossível entender gente que não ama ROBÔS GIGANTES lutando contra MONSTROS SUBMARINOS IMENSOS DESTRUIDORES DE MUNDOS!

Sério, como pode?

Com Pacific RimGuillermo del Toro trouxe o filme mais divertido do ano. Se você é capaz de afogar seu lado cinéfilo pedante e deixar aflorar sua criança interior, você certamente se DIVERTIU DEMAIS! – Sicko, do Lol He He He

PS: PRECISO dessa camiseta!

E então nós temos o ato final do filme. Friamente colocando todo mundo sabia o que ia acontecer. Sacrificio heroico, os aliens tomam no toba e o bem vence o mal e espanta o temporal. Mas ao invés de saber disso com o cinismo chato de quem assiste os filmes da Julia Roberts (spoiler: ela vai ficar com o Richard Gere, sempre), você torce para que isso aconteça!

É mais ou menos a sensação nos segundos entre o atacante do seu time driblar o goleiro e empurrar pro gol, voce sabe o que vai acontecer mas mesmo assim torce desesperadamente para que aconteça. Quando alguém pergunta qual é a classe do último Kaiju que aparece você já sabe a resposta que até responde pelo personagem: classe 5 (se vc ver o filme vai entender o que são as classes). É claro que é classe 5, TINHA QUE SER classe 5 e o Del Toro não nos desaponta em nenhum momento para acariciar o proprio ego e mostrar que é ele que manda nessa porra (né ELFOS NO ABISMO DE HELM! SE O PETER JACKSON TIVESSE DIRIGIDO 300 IA COLOCAR TAMBÉM UM EXERCITO DE 9000 ELFOS PRA AJUDAR OS ESPARTANOS SÓ PRO FILME FICAR MENOS FODA E ELE MOSTRA QUE É ELE QUE MANDA, DESGRAÇADO DO CRAMULHÃO REMELENTO!!!!1121!@#3)…

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Queime no marmore polido do inferno, Peter Jackson!

Bom, onde eu estava? Ah foda-se onde eu estava, o que importa é que você sabe como o filme vai terminar: os farrapos do que sobrou da Gypsy Danger salvam o mundo e você vibra quando os aliens dizem “ai merda fudeu…” (bem tecnicamente eles naõ falam mas a cena é visualmente clara nesse sentido).

E quando o filme termina você leva alguns minutos para dessincronizar da coisa, voltar a 2013 onde voce tem quase 30 anos, tem aluguel e IPVA pra pagar e pega fila no caixa do supermercado que nunca anda.

Mas por 131 minutos, por magicos 131 minutos é como se você tivesse 7 anos denovo e o bem vence o mal sentando a porrada nele. E isso é fantástico.

Obrigado Del Toro, sinceramente, obrigado.

Imagem“Optimus Prime é foda, mas nunca usou um navio pra bater em ninguém”