[CINEMA] Cidade dos Anjos: Ele amou como se fosse imortal

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Lembro-me de haver assistido ao filme Cidade dos Anjos quando ainda era uma criança, pela primeira vez. Talvez eu tivesse uns dez anos de idade…

Na época, muito inocente e desconhecedora dos sentimentos verdadeiramente intensos, capazes de fazer a experiência de ser humano mais do que uma passagem rápida pela Terra, pouco compreendi do longa metragem. Achei-o bonito, interessante. Apenas isso.

Mas qualquer coisa deixou uma marca em minha mente, de forma que há pouco tempo resgatei de minha memória empoeirada a vontade de rever o filme.

Nenhuma nostalgia me invadiu, pois não revi coisa algum: Contemplei obra nova, um filme que não vai ser um clássico, não é cult, não merece prêmios, e sequer entrará para listas de grandes nomes de cineastas intelectuais bem cotados. Mas que, sem contar com nenhum desses atributos, mexe mais com o coração humano (ou a alma, ou a psique, chame como preferir) do que a maior parte dos grandes nomes da sétima arte que você poderá assistir.

Como Hemingway, vou tentar descrever…

O que é a Cidade dos Anjos?

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Cidade dos Anjos foi um longa metragem norte americano gravado no ano de 1998 sob a direção de Brad Silberling. A produção conta, em seu elenco, com Nicolas Cage (no papel mais ponderado e menos overactor de sua carreira) e Meg Ryan.

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O enredo é, sem dúvida, um que acaba enveredando para o drama, embora não seja um filme triste ou trágico. Sua história é baseada em um outro longa metragem de 1987 chamado Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin), uma versão bastante mais carregada de conceitos filosóficos e referências religiosas/místicas dirigida pelo premiado e cultuado Wim Wenders.

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O nome do filme não foi dado ao acaso, e nem apenas pelos anjos que habitam o lugar (todos os lugares). A história se passa em Los Angeles. Literalmente, a Cidade dos Anjos.

Enredo

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Seth (Nicolas Cage) é um anjo que vaga pela Terra, consolando aqueles que estão com problemas, assim como seus colegas. Maggie (Meg Ryan) é uma cirurgiã prática e racional, que se abala ao perder um paciente, aparentemente, sem motivo algum. No fundo de seu coração, ela sente a presença de algo divino, mas se recusa a acreditar em qualquer coisa que não pode explicar logicamente. Até que a força do destino une Maggie e Seth em um amor poderoso e irresistível. Um amor tão forte que faz com que Seth abra mão da sua imortalidade, enquanto Maggie abre seu coração aos mistérios da vida.

Anjos sem asas

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A ideia de existência dos seres angelicais precede a mitologia judaico cristã. Por óbvio, aqueles que se assemelhavam ao que hoje temos por anjos possuíam outros nomes, mas havia semelhanças gritantes, e mesmo sincronicidades inexplicáveis, entre religiões e seitas antigas que acreditavam em seres alados, muito parecidos em funções ou aparência, e que jamais entraram em contato umas com as outras.

Um pequeno exemplo dessa existência tão antiga da figura do ser alado, que auxilia ou aconselha, na história da humanidade, é a semelhança jamais muito bem explicada entre os Devas (da cultura Indiana), os Cupidos (da cultura Grega) e o Lamassus (da cultura da Babilônia). Obviamente, conforme já dito, estes seres diferem do nosso ideal de anjo em vários aspectos, mas são prova de que sempre houve no imaginário humano o conceito de uma entidade maior, dotada de poderes capazes de modificar destinos, mudar rumos e auxiliar em situações difíceis (nota do editor: para mais detalhes sobre isto, recomendo assistir o documentário O Poder do Mito).

Em Cidade dos Anjos, os seres angelicais tem um aspecto curioso, que foge ao senso comum. Ao contrário dos seres alados aos quais estamos habituados, o que vemos são homens com aparência bastante comum, todos trajando um sobretudo preto.

Achei curiosa essa caracterização, não apenas por arrancar o espectador do lugar comum (sim, tirar o espectador da mesmice), mas também por dar aos mensageiros de Deus algo de mais secular. Cada um dos anjos tem uma aparência tão humana quanto qualquer um de nós. Basta ter um olhar tranquilo e um bonito sobretudo negro.

Os limites do Sentir

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Um aspecto interessante acerca dos anjos é a forma de se reunirem sempre na praia. É claro que, no filme, esta particularidade tem relação com a cidade de Los Angeles.

Provavelmente, se o filme levasse em conta a aparição de anjos em outras regiões, estes acabariam por serem mostrados em outros locais, sempre em contato com a natureza, uma vez que parte da mitologia que envolve as figuras celestiais está ligada aos poderes de mobilização de forças da natureza (como Ishins, que lidam com forças como fogo ou água).

A natureza inserida nesse caso também envolve toda uma questão de imersão sensorial: estar em contato com o que a Terra tem de mais puro é como estar envolto em uma experiência física completa de sensibilização.

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Interessante também levar em conta que o mar representa a fonte da Vida na Terra, foi nele onde os primeiros seres vivos surgiram no planeta. Assim, o mar é onde os anjos sentem-se mais próximos da origem da própria Vida no universo. É como se as águas do mar fossem uma personificação de Deus. Além disto, o mar reflete a luz que vem do alto, o que pode ser interpretada como uma das formas usadas para retransmitir para a Terra os cânticos das esferas celestes.

Mas seja como for, o mar tem algo de diferente… é inegável que acrescenta uma magia diferente às cenas de entardecer e amanhecer, quando do aparecimento da imensa legião de celestes trajados de negro em assembleia, prontos a ouvir o canto de seus companheiros.

Isso gera uma questão antitética: ao mesmo tempo que estar de frente para o mar traz tantas sensações (a areia entre os dedos dos pés, a brisa úmida do mar, o gosto salgado do vento, o cheiro de maresia…) os anjos nada podem sentir. Mas podem ouvir o coro, o cantar de seus companheiros celestiais, e vê-los num espetáculo místico de tirar o fôlego.

E qual seria o maior privilégio?

Sentir na carne os detalhes simples ou contemplar a língua dos anjos? Essa questão é o microcosmo da questão muito maior que o filme levanta: O que é mais importante? Amar e ser amado por um breve período, vivendo uma vida ordinária ou contemplar a eternidade, sem, porém, provar da intensidade do sentimento mais profundo?

Não raro os encontramos em bibliotecas. Aliás, é nesses lugares abarrotados de livors que eles passam a maior parte do tempo.

Por quê? Simples… Se você não tem meios de sentir coisa alguma, apenas as descrições literárias podem te ajudar a entender o mundo.

Não por acaso Seth pede que Rice descreva as coisa como o escritor Hemingway descreveria… É a forma que ele tem de sentir.

Os olhos de Seth

çngel Garc’a Seoane

Já no início do filme temos a cena de uma linda garotinha que sofre com o processo de desencarne. Vestida em um pijaminha de flanela amarelo, a pequenina está rodeada de médicos neurastênicos, uma mãe em desespero e… é acalentada por um homem alto, dono de um olhar doce. É curioso vê-lo ali, no meio de uma sala de emergência do hospital, em contraste com os outros indivíduos. Ele, tão cândido e tranquilo quando todos estão desesperados; ele, dono de um olhar encantador e gentil, vestindo negro, enquanto todos vestem branco.

O homem de negro, que ao fim da cena leva a menininha pela mão para um lugar de luz, é Seth. Por todo o filme, são seus olhos azuis que perseguimos em busca da doçura que não vemos sequer na humanidade.

Quem tem interesse por angeologia, ou mesmo quem tem contato com a cultura popular, que não raramente traz à tona essas figuras mitológicas sob as mais diversas formas, está mais do que habituado a ver no anjo uma figura imponente.

O ser mítico anjo, como o conhecemos de forma geral, tem por princípio a defesa das palavras de Yahveh (sob a visão judaico cristã). Assim sendo, os anjos não são bons, tampouco maus. São, como sua natureza designa, justos. Fazem aquilo que lhes é ordenado e o que deve ser feito. Por essa razão, os celestes nos são apresentados como indivíduos frios, metódicos e objetivos. Não à toa são divididos em castas de caráter militar: a ideia de cumprimento de ordens é rígida, e não deve ser questionada. Assim, os anjos acabam por se tornar seres “endurecidos pela causa”, como uma amiga minha uma vez definiu.

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Em Cidade dos Anjos temos um fator que torna especial a personalidade de nosso protagonista, estrelado por Nicolas Cage, o Anjo Seth: ao contrário do arquétipo comum, o celestial parece tão envolvido em sentimentos humanos, que a empatia transborda em suas ações.

Uninvited

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Uma das ligações que o filme faz de forma sutil (ou talvez nem tanto) é o fato de relacionar uma médica – responsável por salvar vidas – com um anjo.

As semelhanças parecem ficar nas funções, que ainda assim são discrepantes, até certo ponto. Afinal, Seth, sob ordens divinas, deve levar para o reino celestial as almas que já cumpriram seu tempo aqui na terra.

E é justamente quando “falha” em sua função de salvar uma vida que a doutora Rice entra em contato com Seth pela primeira vez. Nunca fica claro se ela o vê realmente, mas, novamente, é no olhar dele que ela, em algum momento, se fixa. Sempre aquele olhar.

A partir desse momento, Seth começa a seguir Rice por toda a parte, indeciso sobre mostrar-se a ela ou não. E quando decide aparecer para ela, já apaixonado, mas perdido e desconhecedor dos sentimentos que o invadiram, ela também se encanta pelo jeito inocente do rapaz, que parece ter vindo de lugar algum e que vive na biblioteca.

Antes de prosseguir, dê play no vídeo abaixo, e deixe a música tocando de fundo, baixinha. 😉

Uma das músicas da brilhante trilha sonora do filme é “Uninvited” de Alanis Morissette. Uninvited é aquele que, literalmente, não foi convidado, não estava nos planos, não era para estar lá…

Penso, no caso de Seth e de Rice, quem teria entrado indevidamente na existência do outro, ao contrário do que o filme tenta apontar o tempo inteiro não é o Anjo. Não foi Seth que invadiu a vida de Rice, fazendo de seu percurso sob as leis da existência humana uma bagunça, uma desordem de desafio às leis da metafísica e da razão. Rice viveu um amor incomum, mas completamente dentro dos padrões no que diz respeito a sacrifícios e doações. Ela não foi invadida. Ela invadiu… E invadiu de tal forma que tirou do Anjo o “Ser anjo”.

I’d give up forever to touch you

cidade dos anjos 06Ao assistir às desventuras da doutora Rice, Seth não escapa incólume de sua condição divina: apaixona-se perdidamente pela médica de semblante aflito. Seth, contudo, pela sua natureza imortal e celeste, é incapaz de sequer tocar Rice.

Eis que neste ponto temos o questionamento mais filosófico que pode haver dentro de uma discussão existencial: a consumação de um amor valerá mais do que uma existência que atravessa a eternidade?

A imortalidade, em termos céticos, não existe senão como uma entidade intelectualmente criada; algo que não nos pertence como seres humanos e jamais saberemos se a alguém pertence, posto que infinita é a nossa ignorância.

Mas o ato de dar a vida, ou o que quer que valha como tal, em nome de um ideal maior, não seria de alguma forma, tocar a imortalidade?

Esse pensamento talvez se torne mais claro quando imaginarmos um homem que morre por amor a uma ideologia, a uma paixão ou a uma crença, e em nome desse sacrifício (morte), destaca-se do tempo – que devora todas as coisas – ficando marcado na história e, de um jeito muito particular, ganha o prêmio da imortalidade humana. A imortalidade daqueles que se desfazem do status de seres comuns, e ganham destaque na existência por se destacarem na história, tamanho o amor que os levou a autoimolação.

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Quando de sua Queda, Seth abraça a morte, mas ganha esta imortalidade. Perde a vida eterna de que gozam Cassiel e seus outros amigos celestiais… Mas ganha a vida que queima e passa-se numa fração de segundo, como um fugidio suspiro. Mas que vale a pena.

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Ele trocou a eternidade para tocá-la.

Conclusão

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O filme, de certa forma, passa a ideia da atuação dos mentores espirituais, junto aos encarnados, para protegê-los e ampará-los. Mas, mais que isso, passa a ideia da possível transposição deste papel padronizado, indo além, transformando dever em sentimento intenso, em ardor…

Assim, a tarefa dos anjos não é abordada com a devida dimensão, posto que esse não é o viés filosófico que o filme pretende abordar e seguir.

O filme, independentemente das críticas dos grandes nomes do cinema, marcou uma geração, e fez nascer novos pensamentos, mexeu com sentimentos e marcou vidas…

Quem nunca cantou “Iris” em loops, que atire a primeira pedra!

Fica a ideia de que pode, sim, haver um amor verdadeiro… Tudo que é imaginado pode ser feito…

E se anjos existem… Talvez você precise se apaixonar por um pra saber.