[CINEMA] Boyhood: Da Infância à Juventude (resenha)

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Uma ótima ideia, um diretor e um elenco dedicados, e um projeto de filmagem com 12 anos de duração. Resumidamente estes foram os ingredientes necessários para criar o filme Boyhood, que impressionou a crítica e o público por seu feito inédito nas telonas: acompanhar o mesmo elenco ao longo de mais de uma década, e contar uma só história com ele.

boyhood-patricia-arquetteAntes de prosseguir falando da produção, devo logo adiantar uma coisa: Boyhood não é uma grande experiência cinematográfica. Pelo menos não para o público. Foi, sim, um experimento e tanto para os atores e o diretor, Richard Linklater, que teve uma baita sacada ao arquitetar todo o esquema de filmagens do longa. A coisa toda consistiu em se encontrarem uma vez por ano, desde 2002 até 2014, e filmarem por uma semana, que corresponderia aos eventos ocorridos naquele ano da vida de Mason (Ellan Coltrane) e sua família, e a partir disto montar filmetes de 10 a 15 minutos de duração, que no final seriam reunidos para formar um só longa metragem. Uma sacada e tanto realmente.

Mas a pergunta aqui é: funcionou? É do que falarei abaixo.

Richard Linklater é um diretor que gosta de desafiar-se, algo que concluímos apenas assistindo a “trilogia” composta por Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia-Noite, que acompanha um mesmo casal, interpretado por Ethan Hawke e Julie Delfy – ao longo de 18 anos, sempre com 9 anos de diferença entre um filme e outro. Depois teve sua experiência com rotoscopia nos filmes Waking Life e O Homem Duplo. E paralelo a quase todos eles, a produção de Boyhood. Não o considero um gênio do cinema, mas certamente é um diretor cuja obra vale uma conferida.

boyhood-entertainment-weeklyBoyhood poderia perfeitamente tornar-se uma obra-prima recente se apenas sua execução fosse o suficiente para sustentá-la como tal. Mas já chegarei nisto…

Os grandes méritos do filme são o elenco bem entrosado, o que rende atuações bem naturais, que em nenhum momento fazem o espectador desacreditar de que está vendo uma família de verdade, e testemunhando seus dramas ao longo de mais de uma década. Eu não destacaria a atuação de nenhum deles, pois todos me pareceram perfeitamente sintonizados uns com os outros, o que é esperado que aconteça quando você trabalha e convive com as mesmas pessoas anualmente.

A verdade é que a trama do filme em si não apresenta grandes desafios. Há alguns picos dramáticos, em sua maioria relacionados às péssimas escolhas de homens com quem a mãe vivida por Patricia Arquette se envolve, ambos alcoólatras, que rendem os principais conflitos do filme. Fora estes, há a progressão natural da vida, com o protagonista crescendo, fazendo amizades, namorando, enfim, o usual… Com a vantagem de ser tudo atuado pelo mesmo ator.

O longa me fez lembrar outras duas produções. A primeira foi a série Anos Incríveis, que durou 6 temporadas, e acompanhou o crescimento de Kevin Arnold (Fred Savage), seus irmãos e amigos, e marcou época justamente por pegar um período de grandes mudanças físicas e comportamentais de um menino em seu processo de transformação num rapaz. A segunda foi o filme O Melhor da Juventude, que acompanha a trajetória de uma família italiana no decorrer de 40 anos, cujo diretor, Marco Tullio Giordana, conseguiu passar admiravelmente bem a passagem do tempo com um elenco de primeira, e maquiagens muito econômicas. Um verdadeiro feito do cinema italiano.

boyhood-poster2Citei estas duas obras pois são os que mais se assemelham a Boyhood tematicamente. O filme parece uma versão compilada de Anos Incríveis, com a longa duração de O Melhor da Juventude (que tem mais de 6 horas de duração). Ok, Boyhood não chega a 3 horas (são 2:45), mas consegue superar o desafio de não cansar seu espectador apesar disto. Não dá pra sentir o tempo passar, ao contrário do que vemos na tela. Os personagens crescem, envelhecem, se alegram e sofrem, mas nada disto torna-se enfadonho para quem assiste, o que é o melhor indício de que a montagem de Sandra Adair é digna de receber prêmios. Impecável, realmente.

Certo, então, se o elenco é competente, assim como a montagem, por que parece que há um enorme “porém” implícito neste texto? Ao que eu respondo: dava pra ser melhor.

Sim, eu entendo o desafio aqui, assim como compreendo que o feito em si merece o meu respeito como espectador. É agradável acompanhar a história, mas eu diria que ela carece de um pouco mais de apelo. Como eu disse anteriormente, conflitos existem ao longo da trama, mas na maior parte dela tudo transcorre sem grandes problemas. Não há grandes obstáculos para os personagens superarem, não ocorre algo que nos faça realmente torcer por eles. O filme passa, e você o termina com uma sensação de que assistiu algo muito bom, mas que passou longe de ser uma verdadeira experiência cinematográfica. Sabe aquele tipo de filme que você TEM que assistir no cinema, porque ele vale pela experiência que proporciona, a qual certamente se perderá quando for assistido na TV? Pois é, Boyhood não é este tipo de filme.

boyhood-ellar-coltraneNão estou dizendo que é um filme ruim, nem mediano. É mesmo um filme muito bom, que tem algumas boas sacadas para mostrar a passagem do tempo, e ajudar o espectador a situar-se, como quando mostra a mãe do casal de irmãos lendo pra eles um trecho de um dos primeiros livros de Harry Potter, para mais adiante eles aparecerem num evento de lançamento do penúltimo livro da série (cujo maior apelo também foi oferecer a seus leitores a chance de acompanhar o crescimento do protagonista e seus amigos ao longo de 7 anos); ou ainda a decisão de não criar uma trilha sonora original, mas usar apenas músicas dos respectivos anos em que foram feitas as filmagens, a fim de passar ao espectador uma noção de em qual ano os personagens estão. E também devo elogiar a escolha de não usar legendas informando a passagem de tempo, ou em qual ano transcorre cada trecho, mostrando que Linklater confiou na competência de sua montadora, dos figurinos, cortes de cabelo, e aparelhos usados pelos personagens para cumprir esta função de maneira discreta. Muito bom mesmo.

Portanto, Boyhood é um filme que merece ser assistido, não pela experiência que proporciona, mas por ser um drama familiar bem contado; uma trama sobre crescimento e amadurecimento, que consegue até mesmo abordar um pouco da crise de meia-idade pela qual passam os personagens de Patricia Arquette e Ethan Hawke. Faltou ao filme conflitos mais envolventes, que aumentassem nossa empatia pelos personagens. Eu queria ter me importado mais com eles, no lugar de contentar-me em ser mero espetador de seus dramas.

nota-4

2 thoughts on “[CINEMA] Boyhood: Da Infância à Juventude (resenha)

  1. Cara… eu gostei do filme, não tanto quanto voce, mas gostei da experiencia e entendi mais ou menos o recado do Linklater, a verdade é que a vida real não é como um filme, coisas espetaculares acontecem, mas a verdade é que voce não discursa na frente de milhares de pessoas a cada evento de sua vida, a maioria das vitórias que temos nós celebramos sozinhos, ou com amigos e a unidade familiar, assim como as dificuldades e lutas que enfretamos… o ator principal também carece de empatia, pra ser sincero eu torço mais pela mãe e pelo pai do que pelo garoto que parece passar pela vida como se ela não valesse a pena com uma atitude meio “whatever” pra tudo… no geral o filme é muito bom, só discordo de voce ao elogiar a edição, creio que o terço final do filme poderia ser mais curto, 2h45 é muito tempo, o filme poderia durar 2h15 fácil… achei a idéia do filme genial, o elenco no geral é muito bom, gostei do roteiro, é uma pena que o Birdman tenha ficado com os premios principais ontem, assisti ele e não achei tão sensacional assim, é um filme muito bom, como Boyhood, a diferença é que Boyhood tem uma história mais original e apresenta um conceito muito interessante…

  2. Esse é o grande problema que cinema/literatura/teatro trazem pra gente: na vida não é assim. você deve se importar com alguém mesmo se a pessoa não sofra tanto. não se acostume com isso. se importar com alguem apenas se a pessoa sofre o desejado. é um dos granes erros da humanidade!

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