[CINEMA] BIRDMAN (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) – RESENHA

birdman poster

por Cilon Mello

Em 1989, Michael Keaton ficou interglobalmente famoso por interpretar um herói não menos interglobalmente famoso nos cinemas: Batman, o cavaleiro das trevas, o cruzado embuçado. Em 1992, ele reprisou o papel em Batman Returns, mas não aceitou fazer uma terceira parte das aventuras do homem-morcego. Desde então, sua relevância cinematográfica desapareceu, e por muito tempo ele foi apenas uma trívia em jogos de perguntas e resposta como “aaaaaah, sim!, aquele cara que foi o Batman nos anos 90… será que ele tá vivo ainda?

birdman1É importante saber isso para entender a grande sacada de Birdman, porque um grande filme começa com uma grande ideia. E essa foi uma grande ideia. Na trama quase biográfica, Michael Keaton interpreta o ator fracassado Riggan Thompson, que no começo dos anos 90 ficou famoso por interpretar o herói dos quadrinhos Birdman, numa época que interpretar heróis de quadrinhos não era modinha. Desde então, a carreira de Thompson desapareceu, e hoje ele tenta provar que é um ator de verdade (para si mesmo e para o mundo) adaptando, dirigindo e protagonizando uma peça de teatro na Broadway, que vai indo aos trancos e barrancos.

Ah sim, tem também a coisa que Riggan não é exatamente uma pessoa mentalmente saudável, e ouve vozes na sua cabeça, além de frequentemente ter alucinações – não surpreendentemente de ter super poderes, e a voz na sua cabeça não é ninguém senão a voz grave do BatBirdman.

Sempre achei que a Gwen Stacey tinha uma cara de junkie. Aparentemente eu não era o único.

Sempre achei que a Gwen Stacey tinha uma cara de junkie. Aparentemente eu não era o único.

A melhor forma de descrever o desenvolvimento do filme é que ele é tipo um Cisne Negro, só que focado nos bastidores do teatro (inclusive com a coisa toda da surtação do protagonista), ao invés dos bastidores do ballet.

Mas uma das coisas que mais funciona em Birdman é que esse é um filme em vários níveis, várias camadas ao mesmo tempo. O filme é uma análise sobre o que significa ser um ator, e tudo que cerca esse mundo (críticos, fãs, a coisa da “verdadeira arte”, etc), e uma das sacadas mais geniais do filme é que cada personagem do elenco representa uma faceta, uma opinião.

_AF_6405.CR2

É de certa forma interessante que o filme seja composto por um elenco que teve sua cota de filmes de super heróis também, como Edward Norton (O Incrível Hulk) e Emma Stone (a Gwen Stacey de O Espetacular Homem-Aranha)

Edward Norton, o principal coadjuvante da peça, representa o ator tr00zão, que acredita que só é arte de verdade se você sangrar em cena fazendo um monólogo sobre um cavalo parindo sozinho em uma noite colorida de luar. Ou alguma merda que o valha, conhece o tipinho?

Por outro lado, Emma Stone, a filha de Riggan e sua assistente, representa a parte do público que acha que tudo isso é exagerado, é só um filme/peça de teatro/jogo, depois disso as pessoas seguem com suas vidas, e que supervalorizar entretenimento é algo de quem não tem mais o que fazer, ou que quer supervalorizar algo fútil, só para dar valor à sua existem cia.

E assim por diante. Eu não vou falar de todos os personagens do filme, mas você entendeu a idéia.

Tudo isso, claro, é feito de uma forma orgânica e natural dentro do filme – devido às grandes atuações dos atores – em nenhum momento o filme é pedante ou didático, e muito menos tem alguém em cena explicando o que está acontecendo. Isso é cinema bem feito.

Essa abordagem, sem tomar lado, dá voz a todas as opiniões, e embora certamente você não concordará com todos os pontos de vista, ao menos algum dos personagens vai dizer algo que soe como “taí, é isso mesmo que eu penso”, mas mesmo que não, ainda assim nos brinda com frases geniais como:

birdman critico

Se em roteiro, propósito, significado e atuações o filme é brilhante, visualmente o filme não deixa a desejar, e é bastante impressionante. Ele foi filmado todo com tomadas longas, algumas de até 20 minutos – o que quer dizer que, se alguém errasse, teria que começar tudo de novo – e editado de forma a parecer uma única cena. Há bem poucos cortes de câmera visíveis.

Mas, ao mesmo tempo, o diretor (Alejandro González Iñárritu, de 21 Gramas e Babel) não tenta ser maior que a história, e as pirotecnias visuais ou de edição de cena são necessárias. O diretor evita cair no erro comum de erguer os braços e dizer “contemplem minha complexidade e intelectualidade, meros mortais!”. Na prática, isso quer dizer que existem cenas que poderiam ser pretensiosamente artísticas e profundas, mas o diretor as amarra com uma solução inteligente e bem humorada.

Esse é outro ponto interessante: o filme é bem engraçado. Não porque tenha bordões ou as porcarias tipicas das Globochanchadas a que nos acostumamos, mas o meu tipo de humor favorito: aquele que te faz rir durante a cena (e não apenas na punchline da piada, que aqui nem existe) devido ao absurdo da situação ou dos dialogos, sendo que esse absurdo foi perfeitamente construído dentro do contexto do filme. É um caso exemplar de humor inteligente.

birdman times square

Um jogging na Times Square só de cueca é extremamente relevante a narrativa… de alguma forma…

Um filme que faz pensar mas diverte ao mesmo tempo, e que permite leituras para todos os tipos de públicos em suas inúmeras camadas. Desde quem só quer ver cenas bizarras e diálogos sarcásticos, até quem quer ver uma critica profunda ao sistema de blockbusters, a crítica especializada (recomendo ver como o Omelete ficou com o bumbum doído por ter sua profissão criticada), ou a forma com que celebridades são tratadas, entre várias outras interpretações possíveis.

Entre metáforas de interpretação e visuais (repare que os curativos no hospital tem justamente a forma de uma máscara, tal qual os super-heróis usam, apenas um exemplo), o filme tem análises para todos os gostos. Em uma safra de filmes acima da média disputando o Oscar, não é sem méritos que esse consegue se destacar.

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Neste caso, um pouco de cada.

nota-4


Compre Birdman aqui.


One thought on “[CINEMA] BIRDMAN (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) – RESENHA

Comments are closed.