[CINEMA] Bird Box e(m) sua Mente – COM SPOILERS

O que é BIRD BOX?

AVISO 1: ANTES QUE EU SEJA XINGADA ATÉ A 4ª GERAÇÃO, EU GOSTEI DO FILME. ESSA É APENAS UMA VISÃO CRÍTICA. 

AVISO 2: O TEXTO ESTÁ CHEIO DE SPOILERS. QUER MESMO CONTINUAR?

Here we go…

Bird Box é um dos filmes mais comentados dos últimos tempos, graças, entre outras coisas, à internet e aos memes diversos, que parecem um marketing orgânico do longa.
A história é cíclica: não tem bem um início… tem quase um fim. Mas tudo meio que “mais ou menos”.

Malorie é uma artista plástica que, mesmo não tendo a menor vontade de ser mãe, está grávida. A única pessoa que parece apoiá-la em tudo é sua irmã.

Nesse contexto em que as explicações sobre a vida pregressa de Malorie são deixadas de lado, a protagonista interpretada por Sandra Bullock aparece, no início real de sua jornada, enclausurada em casa, perdida em pinturas de cores obscuras.

As notícias sobre uma catástrofe mundial chegam pela televisão, mas não há também muitas explicações sobre o que pode ser o real causador de todo o caos; tudo o que se sabe é que, sem uma causa aparente, pessoas em diversos lugares do mundo (A começar pela Rússia e a Romênia) estão cometendo suicídio em massa.

Mas Malorie, isolada de todas as coisas, e aparentemente abalada por uma depressão, permanece indiferente aos acontecimentos, até que a tragédia a atinge indiretamente.

O que os pássaros não veem

Se você assistiu Bird Box, notou, com nervosismo, que a todo momento, mesmo ao ar livre, os personagens permanecem em um constante confinamento.

Eu não li o livro, o que TALVEZ possa retirar muito da percepção daquilo que o filme quis realmente passar. Mas, falando unicamente da versão cinematográfica, a ideia do claustro em um longa metragem cujo nome é Bird Box (Caixa de Pássaros, ao pé da letra – que é a tradução do título do livro que inspirou o filme no Brasil) faz todo sentido.

Talvez você, como eu, more em uma cidade interiorana, ou conheça cidades em que existe o costume de criar-se passarinhos em gaiolas. Já notou que grande parte desse criadores cobrem as gaiolas com um pano, ou mesmo utilizando uma camisa (no melhor estilo gambiarra)?

Pois é: cobrir a visão dos pássaros é um detalhe sutil, porém necessário ao “bem-estar” do animal, já suficientemente sofredor por estar preso: Pássaros são suscetíveis a um grande estresse quando há aproximação de seres desconhecidos (humanos, cães, etc). Mesmo uma movimentação mais brusca, ou um vento mais agitado, pode deixar um pássaro engaiolado em um nível de estresse tóxico. Por quê?

A resposta é tão óbvia que nos faz pensar: pássaros têm asas. Ou seja: são seres livres, e jamais deveriam ficar fechados em uma cela ornamentada. A defesa do pássaro é voar. Sem sua defesa mais óbvia e primordial, só há a angústia e a sensação de estar sujeito ao acaso.

Por essa razão é que é comum que criadores de aves cubram as gaiolas. Evitar estresse tapando-lhes a visão é mais fácil do que apenas soltá-los.

Mas o que isso tem a ver com o filme?

Ora, tem tudo a ver, se você passa a notar que quem sofre a clausura são os seres humanos, tolidos até mesmo do direito de ver por uma questão de sobrevivência.

Metáfora mais clara, impossível. 

Das Cores

O filme, conforme os espectadores podem notar, tem a predominância de duas cores: Azul quase todo o tempo, e amarelo, ambas as cores variando em tonalidades infinitas dentro de seu próprio escopo.

Em um post muito antigo (de um tempo distante, mas que vale a pena ser visitado), eu comento sobre o fato de a cor azul ser utilizada não apenas no cinema, mas nas artes plásticas e fotografia, como uma cor que remete ao estado onírico das coisas.

Um diretor pode utilizar a coloração azulada por acaso, mas, normalmente, bons filmes são produzidos com signos, e as cores são importantes dentro dessa manobra quase subliminar de direcionamento semiótico.

Bird Box não é um filme fácil, se você tentar compreender todas as camadas. Mas, em uma primeira análise, a cor azul nos faz pensar sobre o que é real ou não, dentro de um universo que não parece realmente ter a pretensão de existir: nada é realmente explicado, as transições de tempo são tão sutis que fica difícil saber em que lugar do tempo realmente estamos (a marca definitiva de tempo é o comprimento dos cabelos de Malorie, e a idade de Boy e Girl).

Não existe um compromisso firme de explicar-se o que realmente tem existência no filme, o que não passa de ilusão, e até mesmo se o filme se pretende real. Falaremos disso mais adiante.

Junto com o azul, tempos toques de amarelo alaranjado, que dentro de um contesto de tensão tão grande, deixa de ser uma cor que remete à animação e à alegria, para causar um sintoma de desconforto e fechamento (no sentido físico).

Curiosamente, o amarelo é a cor preferida do diretor Denis Villeneuve para causar esse mal-estar em Arrival e em Enemy. Ressalte-se que Villeneuve não dirigiu Bird Box, mas seu roteiro foi escrito por Eric Heisserer, roteirista de Arrival. É possível imaginar que sua influência tenha sangrado para a fotografia do filme: As janelas lacradas com jornal ou pintadas, deixam vazar para os ambientes interiores uma cor ocre sufocante. Já vimos isso antes, não?

Bird Box é real?

Conforme anteriormente comentado, o filme tem uma predominância considerável da cor azul. Seja nas vendas, nas roupas de Malorie e Olympia, seja nos lençóis, cortinas, almofadas, e nas jaquetas dos outros personagens.

O único que jamais utiliza azul é Tom, que está sempre de verde. De alguma forma, talvez sua existência seja mais real que a do próprio filme (o cosmo nele construído), e até mesmo mais real do que a da própria Malorie, que chega a usar um hobbie ciano-claro com uma textura na gola que chega a lembrar a penugem de um pássaro de pequeno porte.

Claro que não é isso que me leva à ideia de que o filme não tem uma “existência real”.

Mas, mesmo para explicar essa ideia, preciso dos detalhes. Além de tudo parecer um sonho terrível com um final feliz, o filme parece não ter nenhum compromisso com qualquer tipo de realidade.

Assim como vemos ocorrer em Ensaio Sobre a Cegueira e Speech Sounds, em que o mundo torna-se uma catástrofe sem que haja explicações do porquê, Bird Box inicia-se e termina sem solução.

Não existe uma razão para que as pessoas estejam enlouquecendo, cometendo suicídio, ou mesmo assassinando quem não foi “infectado” pelas visões obscuras. O início do filme não explica nada, tampouco o final o faz.

E nem deve explicar: essa não é uma jornada contra um mal maior, mas sim o resgate da humanidade de Malorie a partir do sentimento de maternidade. E o filme nada mais é do que isso; um amontoado de metáforas sobre os medos humanos, o que uma crise faz com cada pessoa a partir de sua índole e capacidade de enfrentar perigos, superações e, sobretudo, o que faz com que você se mova.

Malorie só sobreviveu pelas crianças a quem ela nem teve coragem de dar nome.

Mais do que isso, o filme quebra a ideia de suspensão de descrença sem agredir o espectador. É mais fácil acreditar que tirar a venda será risco de morte, do que crer que um alienígena roxo e musculoso consegue acabar com metade da vida no universo ao estalar os dedos (com todo respeito, Thanos).

E todas essas informações absurdas só passam bem pela goela do espectador porque, ainda que não tenha sido de forma consciente, você (é, você que está lendo) já aceitou de algum modo que essa história não passa de uma alegoria, dentro de outra alegoria e com alegorias que a circundam.

Você não questiona a passagem de tempo que não dá uma satisfação, ou o fato de que um vento maligno pode ser ameaçador. Você não questiona o que vai ser de todas as pessoas que conseguiram se salvar, nem mesmo pensa no que seria tão terrível a ponto de fazer com que pessoas, mentalmente sãs, se matassem.

As metáforas são jogadas no seu colo, as alegorias são mostradas a todo momento, e você simplesmente aceita que essa é uma jornada pessoal. Tanto quanto Mãe!, do Darren Aronofsky, Bird Box é tão somente algo que não pertence a este ou a qualquer universo paralelo.

O filme está lá. E não precisa te provar que há qualquer coisa factível para te comover e prender sua atenção.

Da Maternidade e Pertencimento

Malorie dá à luz um menino ao mesmo tempo em que Olympia, uma colega medrosa e desajeitada, dá à luz uma menininha. As circunstâncias levam nossa protagonista a criar o pequeno casal (boy and girl) como seus filhos, após 5 anos de sofrimento e fuga constante de um medo sem nome e sem aparência.

Contudo, como a tradição ocidental judaico-cristã nos ensina, o ser humano dá nome a tudo que a ele pertence. Mais do que isso, a linguística nos ensina que a partir do momento que algum ser passa a ter nome, ele passa a ter existência real.

Mas qual é mesmo o nome das crianças?

Garoto e garota, ou boy e girl.

Do mesmo modo que as crianças não têm uma identidade definida, também não há o apego primordial entre genitora e filhos, já que nenhum dos dois chamam Malorie de mãe. De algum modo, ela não quer que eles existam completamente.

Por mais que toda a luta de sobrevivência da protagonista seja em nome do sentimento que ela nutre pelas crianças, a personagem de Sandra Bullock parece temer a aproximação com os pequenos, como se aquilo fizesse dela alguém mais vulnerável.

A quebra desse sentimento de não pertencimento, tanto por parte de Malorie quanto por parte das crianças, só ocorre quando, na floresta, a protagonista grita em alto e bom som: “Deixem MEUS FILHOS em paz!“.

Ao admiti-los como filhos, afinal, Malorie abraça o seu maior medo: perdê-los.

Contudo, é ao admitir seu maior temor (aquele que leva todos à loucura ou ao suicídio) que a personagem ganha força.

E a reiteração do sentimento de posse (no sentido maternal) se dá quando, a salvo, Malorie dá um nome para cada um de seus filhos.

É só nesse momento que o filme está fechado. O ciclo se fecha quando Malorie deixa de ser só para ser mãe de duas crianças.

Do culto Lovecraftiano

No primeiro arco da história, quando a protagonista se vê trancafiada em uma casa com estranhos que, como ela, tentam sobreviver, estamos em contato com os maiores momentos de tensão.

Devo admitir que, por vezes (muitas vezes), me peguei apertando as mãos dolorosamente para conter o nervosismo.

A atmosfera de suspense é tão bem montada que John Malkovich (Douglas) aparece como um personagem ambíguo que causa medo a todo momento que aparece ou se manifesta. Na verdade, ele interpreta um babaca.

No fundo, todos os personagens parecem, de algum modo, trazer em si uma ameaça.

Menos o nerd do grupo (Greg), que começa a falar das milhares de formas como o mundo pode acabar. O desespero dele é semelhante ao nervosismo do espectador incauto. Por fim, não levando em conta a forma como sua trajetória termina, ele acaba sendo um alívio cômico em algumas das poucas cenas em que figura.

Contudo, o personagem-chave vem de fora.

Notem um ser muito parecido com o Cthulhu de Lovecraft entre os desenhos

Gary, o estranho homem de meia idade que chega à casa pedindo abrigo por estar sendo perseguido pelos “loucos” que tiveram as visões e, sem vendas, entregaram-se à loucura mais extenuante e desesperadora.

Gary é o personagem que nos guia ao universo de Lovecraft, e nos prova o quanto o autor de horror psicológico foi uma influência para essa obra.

Gary traz uma pasta cheia de desenhos macabros, curiosamente pintados de negro, como as pinturas de Malorie no início do longa, lembra?

Além de parecer devotar uma certa adoração pelos desenhos, que são claramente resultantes de uma mente perturbada, Gary tenta se livrar dos pássaros e, ao notar um momento de fragilidade grande – duas mulheres parindo ao mesmo tempo -, começa a se comportar como se tivesse a missão de mostrar aos membros da casa o quão libertador seria olhar para fora, tirar as vendas, ver todas as coisas.

A frase que ele diz é a mesma pronunciada por outros enlouquecidos: “Eles irão purificar o mundo” e “Veja como é lindo“.

Se você já leu qualquer coisa de H.P. Lovecraft, sabe, com certeza, que, além do terror em sua literatura ser profundamente psicológico – diretamente causador de loucura – existe na mitologia lovecraftiana um culto a entidades do ocultismo.

Eu sei, Lovecraft precisava de terapia. Mas todos nós precisamos.

A questão é o quanto o filme usou essa “pegada” lovecraftiana para mexer com a parte do horror. Não apenas temos o messianismo daqueles que perderam a razão, e acham que a insanidade é o que faz sentido, como temos esse terror psicológico durante todo o filme.

Mesmo que todos estejam chamando esse gênero de “terror sensorial”, como se fosse algo novo e revolucionário, já parou para pensar que o macabro pai do terror, Lovecraft, já deixava, há muitos anos atrás, o medo por conta unicamente de seus leitores?

Prazer, Chutullu

 

Não é Terror. É sensorial.

Eu sei, eu acabei de dizer ali em cima que não se trata de terror sensorial e, agora, no fim do post, eu estou me desmentindo?

Não é isso.

Apenas precisamos deixar de encarar certos gêneros ou subgêneros como a mídia no-los apresenta.
Bird Box não é um filme de terror, apesar de ser tenso e pesado.

O Exorcista é um filme de terror. A Profecia é um filme de terror. The Shining, claro, é um filme de terror.

Mas Bird Box, mesmo que tenha te dado uns bons sustos, é um drama.

Por quê?

Ora, se o grande ápice do filme é que Malorie se torne mãe de fato, em vez de simplesmente tratar as crianças como um fardo, onde está o terror?

Sim, eis um filme de suspense com pitadas generosas de sugestões lovecraftianas. Mas, insisto, Bird Box não é terror, tanto quanto Star Wars não é um filme de ficção científica.

Star Wars não é ficção científica porque não é uma extrapolação de um problema humano com roupagens científicas, que contribuirão para o entendimento de um pensamento antropológico, ou um problema social, que gerará uma utopia ou distopia.

Do mesmo modo, mesmo que você discorde de mim, Bird Box é um filme de Drama, à medida que gira em torno da humanização de uma mulher que teme admitir que seu pior medo é maternal. Seu pior medo é perder os filhos, e é isso que Malorie abraça e admite.

Filmes de terror, ao contrário, deixam a sensação de que algo irá voltar para aterrorizar você: seja um fantasma, seja um demônio, seja o fim de todas as coisas como você as conhece, seja um monstro das profundezas do oceano. O terror fala daquilo que leva o homem ao extremo da reação lutar ou fugir.

Não é o caso de Bird Box.

Se tiver dúvidas, assista de novo.


Leia Caixa de Pássaros e os outros livros citados aqui:

Sobreviva ao fim do mundo:


Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso, é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.