[CINEMA] BABEL – Como Compreender a Língua da Supremacia?

Em um ponto isolado do Marrocos, dois meninos filhos de um simples criador de cabras aprendem a atirar com a nova espingarda do pai, recém-adquirida.

Não muito longe dali, um casal de americanos faz uma excursão talvez não muito desejada, nem muito agradável. Enquanto isso, seus filhinhos pequenos estão sob os cuidados da mexicana Amélia, uma mulher que não pertence aos EUA, mas lá vive há mais de 16 anos uma vida tranquila cuidando de seus pequenos bebês americanos.

Do outro lado do mundo, uma adolescente japonesa tenta equilibrar as emoções da fase mais intensa da vida com o fato de ser ela portadora de uma diferença que a separa, de certa forma, do mundo que a cerca de forma intensa: a jovem é surda-muda.

p161617_p_v8_aaAté aí, é até meio difícil imaginar que tipo de ligações podemos traçar entre as vidas dos personagens. Por outro lado, temos outro aspecto que nos chama a atenção logo de início, e que nos faz pensar de cara no nome escolhido para batizar o filme.

Apesar dos personagens falarem idiomas diferentes, é quase natural que, no início do filme, haja uma fluidez de comunicação entre pessoas falantes de diferentes línguas. Basta ver com que facilidade as crianças americanas se comunicam com sua babá latina e vice-versa. Da mesma maneira, a adolescente nipônica deficiente auditiva consegue se comunicar com determinada eficácia ao início do filme, durante a dinâmica cena da partida de Vôlei, e mesmo quando se encontra com suas colegas.

À medida, porém, que os fatos vão ocorrendo, tudo parece ir se dificultando.

Por Que Babel?

babeltSegundo o Antigo Testamento (Gênesis 11,1-9), Babel foi a torre construída na Babilônia pelos descendentes de Noé, com a intenção de eternizar seus nomes. A decisão era fazê-la tão alta que alcançasse o céu. Esta soberba provocou a ira de Deus que, para castigá-los, confundiu-lhes as línguas e os espalhou por toda a Terra.

De acordo com algumas fontes, a história de Babel teria sido inspirada na torre do templo de Marduk, nome cuja forma em hebraico é Babel ou Bavel e significa “porta de Deus”. Hoje, entende-se esta história como uma tentativa dos povos antigos de explicarem a diversidade de idiomas. No entanto, ainda restam no sul da antiga Mesopotâmia ruínas de torres que se ajustam perfeitamente à torre de Babel descrita pela Bíblia.

Atente para um detalhe: só após a ira de Deus houve a confusão entre as línguas. Antes, todos se entendiam.

Da mesma na forma, no filme, embora as linhas temporais não sejam “coladas”, ou seja, o tempo das ações de cada núcleo ocorram em momentos diferentes, à medida que o desenrolar de cada história vai ganhando nuances mais fortes e caminhos mais trágicos ou complicados, o entendimento que parecia incrivelmente fluido entre pessoas de etnias, países, culturas e línguas diferentes, começa a se deteriorar, como se algum tipo de película começasse a se formar em volta de cada personagem. Algo como uma bolha de individualismo cognitivo e emocional.

Aos poucos, mesmo aqueles que falavam a mesma língua já não podiam entender uns aos outros.

Os Limites de Ser Compreendido e o Peso do Tempo

O tempo é algo que, em toda obra de arte e na ciência, é algo relativo. E sequer precisamos de um laboratório para lidar com a dureza deste fato (é duro notar que o tempo não é linear, como uma progressão). Talvez o Doutor possa Explicar melhor:

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O que realmente importa é que o tempo corre de uma forma diferente daquela que é definida formalmente. E é claro, experimentamos isso o tempo todo.

Mas quando experimentamos isso como uma experiência cinematográfica, toda coisa muda de figura. O tempo como experiência própria é uma vivência. Como um artifício, é um signo.

Se você assistir a Babel com atenção, notará que o tempo flui em diferentes momentos (não é o mesmo ponto de partida para todos) e em velocidades diversas. O tempo de arrasta no México como se cada dia durasse uma semana. Quase tão lento é o tempo no Marrocos. Podemos supor que isso se dá pelo desespero nos dois ambientes, pelo número de acontecimentos, pelas tragédias. Mas ainda, pela sensação que Iñárritu tenta nos passar.

“Se você não estiver num lugar muito civilizado, nem o tempo vai ser legal com você”.

Por outro lado, o tempo parece correr com larga vantagem no Japão. Primeiro porque a história se distancia bastante das outras, os dramas são diferentes. Como diria nosso redator Cilon Mello, problemas de primeiro mundo. Segundo porque, adivinhem, o Japão pode não ser The Wonderful United States of America, mas é um país que não tem uma gente tão “selvagem”, que atira pra cima para comemorar festas, que mata galinhas na frente de crianças, que se masturba ao ar livre, que dorme no chão ou que corre atrás de ônibus de turismo assustando terrivelmente os pobres viajantes indefesos.

A Vida Secreta dos Bárbaros

Barbarismo

s.m.

Estado ou condição de bárbaro.

Ato praticado por bárbaros.

Gramática Vício que consiste em empregar palavras estrangeiras como nacionais ou com sentido que não lhes pertence.

Nota da redatora: Não importa o filme: os personagens do Gael García Bernal SEMPRE fazem besteira.

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Só gostaria de começar esse tópico dizendo que não existem sujeitos mais imbecis no mundo cinematográfico que os personagens encarnados por Gael García Marques. Isto dito, vamos adiante.

Muito pouco vemos do universo Estadunidense, uma vez que o filme não tem mais que duas ou três cenas ambientadas no país. Mas é um fato que os EUA estão em todos os lugares e sua sombra (e o fardo brilhante do American Way of Life) brilha em luzes vermelhas, agredindo os olhos daqueles que podem ser ameaçados por essa influência/ameaça.

O universo daqueles que não são americanos, os bárbaros, não tão bons, não tão civilizados, assusta, parece agressivo, rudimentar, duro, empoeirado e sem graça. Sem cores ou sem sons. Algo falta, ou tudo falta, porque, afinal de contas, quem não está no “melhor país do mundo” só pode estar mesmo em algum lugar muito ruim.

Achei curiosas muitas passagens dos filmes, em que vemos as vidas simples dos marroquinos que trabalham arduamente para ter uma vida decente, e das festividades apimentadas dos mexicanos. Os dois universos são retratados de forma bruta, feia, marginalizada, muito embora o Marrocos seja um ponto turístico no filme, e o México seja o palco de uma festa.

Em Especial temos cenas emblemáticas que parecem atirar contrastes em nossas mentes: é meio chocante ver dois meninos tão novos empunharem uma arma de caça e atirar com ela; pior ainda é que um desses meninos dispare um projétil que atinja em cheio um ônibus de turismo, e uma cidadã americana seja alvejada. Sim, devemos admitir que causa um certo choque.

As outras cenas se passam com Santiago, sobrinho de Amelia, também não ficam tão atrás. Durante a festa de casamento, e seus preparatórios, os filhos do casal americano que vão parar no México indevidamente parece uma pequena dupla de vítimas civilizadas em meio a selvagens. Tudo é poeira, mato, gente gritando, coisas demasiadamente pobres e bagunçadas. É curioso como em nenhum momento o casamento Mexicano pode ser colocado como algo assim:

Claro que não… Nada vindo dos bárbaros latinos seria assim tão bonitinho e romântico.

Em algum momento, antes da cerimônia de casamento, a brincadeira é caçar uma galinha sem cabeça espirrando sangue pelo pescoço decepado. É chocante para nós? Talvez. Depende muito do que você vê como natural, de onde você foi criado, etc. Seria, com certeza, chocante para mim. Mas eu não cresci criando galinhas para fins de alimentação.

O fato é que Alejandro González Iñárritu (diretor do filme) não estava interessado em apenas colocar em evidência as diferenças étnicas e culturais como fatores normais que surgiram naturalmente no mundo, e que acabam se misturando e formando novos pensamentos e neoculturas.

Não!

O filme é claramente uma crítica social ao modo como o povo norte americano é visto de uma forma diferente, assim como é tratado de forma superior. E Iñárritu mostra essa diferença entre os povos e as pessoas de cada nação/cultura/povo/língua/viver, não por meio de dados ou diálogos apenas. Eles nos faz mergulhar na sensação de que tudo o que não está sob a custódia da mágica mão do Tio Sam está errado de muitas formas.

Um Pequeno Detalhe: Ser Americano

Não sei se isso é uma visão unânime, mas o governo Bush foi um desastre. Não posso falar de um ponto de vista interno porque moro no Brasil. Mas todos nós acompanhamos as desculpas esfarrapadas de Bush para invadir o Iraque, matar pessoas inocentes e promover destruições a todo custo. Primeiro, sob as desculpas de haver no lugar um suposto material nuclear que daria motivo a uma invasão. Depois, sob a desculpa dos atentados de 11 de setembro – que, cá para nós, nem os americanos acreditam que tenha sido causado realmente por terroristas.

Bush foi o símbolo da guerra e das vidas de milhares e milhares de dólares queimados e vidas jogadas fora – assim como tememos que Trump seja, caso eleito.

É interessante que Babel tenha sido produzido exatamente durante o mandado de GWB. Claro que não foi por acaso.

Diante das crescentes destruições e mortes no Oriente Médio justificadas por uma Guerra de Ideologia Imaginária (sim, eles tinham um ditador, mas nem Hussein matou tanto), o que poderia representar melhor e de maneira mais sutil a opressão americana no mundo do que um pequeno tiro que vai bagunçar as vidas de tantas pessoas?

Se dois aviões quase tornaram o Oriente Médio um segundo deserto do Saara, talvez vocês tenham entendido a analogia.

E se você acha que esse filme não tem mesmo NADA a ver com o Ex-Presidente Estadunidense, reveja a cena em que Santiago e Amelia são parados na fronteira. Uma foto aparece de relance. E aquela foto Não precisaria estar ali.

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Uma História Tangente Também É O Que Não Entendemos

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O núcleo do extremo oriente, ou seja, o que se passa no Japão, muito pouco tem a ver com os problemas mais profundos tratados na história de Babel. Mas seu papel na ideia da compreensão do outro é fundamental, assim como aquilo que temos como imaginário da relação EUA X JAPÃO.

Em Babel, temos as seguintes línguas: inglês, língua japonesa dos sinais, francês, espanhol, japonês, bérbere, árabe. Conforme já dito, a quebra da compreensão não se dá pelas limitações linguísticas, mas pela desarmonia, já que no início do filme tudo parece correr perfeitamente; as pessoas não têm dificuldades em entender umas às outras. É apenas a partir do momento em que as dificuldades começam a aparecer que os idiomas parecem formar uma cápsula em volta do falante (e, porque não dizer, do ouvinte), tornando cada vez mais abafada e impossível a troca de informações.

O exemplo da adolescente japonesa é muito interessante, pois, embora sua história seja centrada em dramas muito diversos – no passado o suicídio de sua mãe, sua deficiência comunicativa, sua curiosidade em descobrir o sexo sem sucesso algum – existe esse pequeno elo, que faz deste núcleo específico um apoio especial. Sem essa parte, não teríamos – concretamente – um lugar de onde tivesse vindo a arma. Ok, a arma poderia ter vindo de qualquer lugar. Mas, então, quem poderia nos fazer compreender tão mais claramente a questão da não compreensão que se adensa para todos, mas que só fica cada vez mais clara aos olhos da jovem japonesa? Tanto é o ponto de vista dela que controla a comunicação e a linha de pensamento central do filme, que podemos notar que o tempo passa diferente a partir dela. É justamente em Tóquio que tudo acontece mais rápido.

Além disso, EUA e Japão possuem ranços amargos. Não sei se Iñárritu teve essa intenção, mas um diretor de cinema experiente não deixa pontas soltas. No fim das contas, o ataque tão severo a uma cidadã americana ocorreu, indiretamente, pelas mãos de um japonês.

Todos são iguais, Mas Alguns Menos Iguais Que Os Outros – Crítica Social

Em Animal Farm, George Orwell escreve uma máxima ao fim do triunfo bestial dos vilões suínos “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

As barreiras impostas entre cada ser humano em Babel vão muito além das dificuldades de se compreender um idioma diferente. É claro, um idioma nunca será apenas um idioma. O idioma significa uma identidade cultural e um modo de vida. Mas, as barreiras vão além.

Quando Iñárritu quis frisar as desigualdades entre povos tão distantes (mas tão próximos, sobretudo àquela época), ele o fez da melhor forma por um único princípio básico: Nunca mexa com um Norte Americano. Ele faz parte de algo maior, uma casta acima. Toque em um deles, e seu fim é seu destino.

Um tiro foi o suficiente para que um homem fosse procurado no Japão, uma mulher honesta fosse deportada, um rapaz se tornasse fugitivo (também, foi o Bernal…), cidadãos marroquinos apanhassem mais do que um bandido apanharia do Bope aqui no RJ (sou carioca) e um menino fosse assassinado. O peso das vidas não é o mesmo e nunca será. Iñarritu deixa isso muito claro.

Só os iguais são realmente valiosos. Aqueles, mais iguais que os outros.

Os EUA não são o Melhor País do Mundo. 

Encontrei esse artigo há uns dias no Facebook. Acho que nada expressa tão bem os pensamentos acerca dos EUA que poderiam tirar da mente de muitas pessoas esse mito de que Eles são o melhor país. Aproveite.