[CINEMA] As complicações cíclicas de ENEMY

Enemy (O Homem Duplicado, no Brasil) é um filme que poderíamos, pelo menos, grosso modo, considerar um clássico instantâneo.

E lá vou eu, mais uma vez, explicar um filme difícil com o Jake Gyllenhaal (mas eu sei que vocês nunca entenderam Donnie Darko). 

Perturbador e excitante em todos os detalhes, o filme nos leva a conclusões diversas, não necessariamente verdadeiras. Só há uma verdade, embora o romance gerador do livro seja de José Saramago – conhecido por não utilizar pontuação de forma convencional em sua escrita, justamente para dar ao leitor uma interpretação única e subjetiva de seus escritos.

Do enredo

Um professor universitário vive uma rotina cansativa e enfadonha, relaciona-se com uma namorada bonita, mas pouco interessada na relação. Mesmo suas aulas parecem cíclicas, repetitivas: Sempre falam em padrões que se repetem por toda a história. Basta prestar atenção. O mesmo terno, a mesma aula, o mesmo sexo, os mesmos dias e noites…

As coisas parecem ganhar alguma cor (além do amarelo sufocante de seu apartamento) quando ele descobre, assistindo a um filme (Where there is a will, there is a way), um ator idêntico a si mesmo.

A busca pela face misteriosamente igual à sua, em meio a uma rotina enlouquecedoramente igual (“a pattern that repeats itself”)  torna-se uma caçada em busca da verdade.

Quem é esse ator Anthony, tão idêntico a Adam (o professor)?

Os mistérios vão ficando cada vez maiores à medida que Adam busca proximidade com Anthony e sua esposa grávida. Mas isso tem consequências.

O Tempo é o que você enxerga

Um detalhe muito sutil em todo o filme é o passar do tempo, pois, mesmo que se preste atenção a cada cena e cada corte e continuísmo, não se pode determinar exatamente qual ação veio primeiro. É claro que eu não estou considerando algumas cenas que, obviamente, seguem uma ordem cronológica na narrativa, mas o filme como um todo não é linear.

Reveja o filme e você notará que, na verdade, as aulas de Adam não são repetitivas e enfadonhas: Adam dá uma aula apenas sobre os padrões que se repetem, e não usa o terno marrom sem-graça por muito tempo.

Apenas uma vez vimos uma aula tendo continuidade: Aquela na qual ele enuncia que grandes eventos ocorrem duas vezes: Na primeira vez é uma tragédia. Na segunda, é uma farsa.

Mas, então, onde ocorrem as repetições que parecem levar uma vida?

Atente para o Poster do filme.

Mirtilos, mulheres, uma mãe.

Ao conhecermos Anthony, nos deparamos com um ator de segunda, metido a galã, e com uma personalidade completamente diferente da de Adam.

Sua esposa está grávida, mas eles não parecem ter o melhor relacionamento do mundo. O ator recebe ligações e, a todo momento, fica subentendido que há uma relação de desconfiança entre a esposa e ele, como se ele já tivesse sido infiel.

Com o decorrer do filme, somos capazes de ir traçando paralelos (na verdade, antíteses) entre Adam e Anthony. Uma delas é o Mirtilo, fruta favorita de um deles, odiada pelo outro.

Uma das coisas curiosas, e que mais deixa confusos os espectadores, é o fato de a esposa de Anthony conhecer Adam pessoalmente – o que a deixa apavorada, por óbvio.

O que você talvez não tenha percebido nesta cena em particular é que Anthony só atende ao telefone quando Adam desaparece.
Intrigado, Anthony vai em busca de Adam, tanto quanto Adam busca por pistas de Anthony, ambos tentando compreender o que se passa no fim das contas.

Uma das cenas mais curiosas e desconcertantes do filme se passa quando a mãe de Anthony conversa com seu filho. Mas você, espectador, não realmente sabe se é Adam ou Anthony, o homem com quem ela está falando. Eles conversam como mãe e filho. Ao fim do diálogo, contudo, ela diz:

“Ponha a cabeça no lugar: eu só tenho um filho e você só tem uma mãe. Você tem um trabalho respeitável e um bom apartamento. Só me faça um favor e pare de fazer filmes B.”

Ela completa o mindfuck dizendo que há mirtilos para o filho. O rapaz fica confuso… Ele odeia Mirtilos.

Nesse momento, notamos que a velha atriz (nem tão velha) estava falando com Adam. Mas Adam não é professor?

Aranhas

No início do filme, algo aparece em cortes, como se as cenas não devessem mesmo ser reveladas pelo teor sexual.

Por alguma razão, lembrei da cena de Marion sendo prostituída em Requiem for a Dream.

Um grupo de homens de posses, todos num cômodo, com mulheres nuas… e uma aranha.

A aranha não aparece apenas neste momento do filme, mas torna-se um símbolo dele. A aranha é um artrópode, ou seja, possui um esqueleto externo. Por essa razão, para mudar, evoluir, precisa se livrar da velha carapaça e sair de lá com uma nova.

Podemos entender a ideia da Aranha aqui como uma analogia para um distúrbio de personalidade dissociativa, dupla personalidade ou whatever you prefer: Quando a primeira carapaça se torna insuportável, é necessário destruí-la e ter uma nova vida.

A partir de agora, podemos entender que Adam e Anthony são simplesmente a mesma pessoa.

A cicatriz, o acidente e o que aconteceu afinal. 

Ao se encontrarem, levanta-se a hipótese de que os dois possam ser irmãos. Isso poderia ser plausível até certo ponto, desconsiderando certos dados do filme.

Mas a ideia de irmandade se esvai ao notarem, Adam e Anthony, que ambos carregam uma cicatriz idêntica, proveniente de um acidente.

Mas se são a mesma pessoa, como Adam e Anthony poderiam estar se comunicando naquela faixa temporal?

Como os dois têm relacionamentos?

É um fato que os dois só são vistos juntos quando estão isolados, e isso pode muito bem ser um fenômeno explicado por alguma deterioração mental. Não existe nenhuma cena no filme em que Adam e Anthony sejam vistos juntos por uma terceira pessoa.

Há também o fato muito importante deste filme ter sido dirigido por Denis Villeneuve, mesmo diretor de Arrival (A Chegada), e a lógica acerca do tempo ser praticamente a mesma em ambos os filmes. Pelo menos, como já dito, não existe uma linearidade temporal, em que temos tempo passado, presente e futuro nesta ordem ortodoxa.

Ressalte-se, ainda, que se há a cicatriz houve um acidente. No final do filme, um acidente ocorre de fato, porque a namorada de Adam vê em sua mão a marca da aliança.

Uma teoria talvez justa para isso é: Adam/Anthony sempre foi casado e ator. Tinha um apartamento decrépito para encontros amorosos com a amante (o que explica perfeitamente as desconfianças da esposa). Em algum momento, ele e a amante discutem e o acidente acontece. Talvez, do trauma do acidente, tenha ocorrido a morte da jovem e a doença mental que dividiu sua mente em duas personalidades completamente dissociadas.

Tanto que, ao final do filme, Adam está “no apartamento de Anthony”, sentindo-se em casa, agindo naturalmente, como se já não houvesse divisão de personalidades. Ou como se ainda não houvesse essa divisão (o tempo não é linear, lembre-se).

Ao ser culpado pela morte da amante, Anthony torna-se doente e cria a personalidade sobressalente Adam (Adão, o primeiro dos homens, criado por Deus) para justificar traumas passados. O filme passa-se em sua mente.


Nota do editor: uma última observação a respeito do nome Adam: sendo o corresponde em inglês ao primeiro homem criado por Deus, segundo o mito bíblico, e levando em conta que Anthony/Adam tem uma cicatriz em uma das costelas, do lado esquerdo do tórax, podemos extrapolar, e dizer que ela é um indício de que Adam foi criado após o acidente de carro que testemunhamos no final do filme. O ferimento servindo como marca do que foi extraído dele para a criação de sua nova personalidade, como Eva, criada a partir da costela de Adão, no mito bíblico. Em Enemy, o Professor Adam foi criado por um processo inverso, a partir de uma tragédia. E aqui podemos voltar ao enunciado de uma de suas aulas. Grandes eventos ocorrem duas vezes: Na primeira vez é uma tragédia. Na segunda, é uma farsa.