[CINEMA] A TEORIA DE TUDO (resenha)

teoria de tudo

A dramática história de um homem com uma rara doença degenerativa, que o faz ir perdendo as funções musculares até o ponto de a pessoa não conseguir se comunicar mais, mas deixa a sua mente intocada. E este homem, por acaso, é um dos maiores gênios da história da humanidade.

Parece roteiro de filme, mas todo mundo já ouviu falar de Stephen Hawking:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Aanykl_EEuA]

TODO UNIVERSO ESTAVA EM UM ESTADO QUENTE E DENSO

O trabalho de Hawking é tão impressionante (ele fez, entre outras coisas, a matemática do Big Bang) que por si só já daria um filme (e com efeito existe o ótimo documentário “Um Breve Conto sobre o Tempo“, baseado no livro homônimo de Hawking), mas o filme não é sobre isso.

O filme é baseado no livro “Travelling to Infinity: My Life with Stephen“, escrito por sua ex-esposa Jane, e como tal aborda muito mais a vida pessoal do cientista, do que é um documentário sobre o seu trabalho.

The Theory of Everything

Você sabe que a matemática é LOKA quando não tem sequer 5 números na equação toda

A coisa é, e a grande coisa desse filme é isso realmente, que mesmo sem a coisa da doença, e mesmo sem entrar em detalhes sobre o seu trabalho, Stephen Hawking é um sujeito interessantíssimo. Ele é engraçado, inteligente (jura, Sherlock?), e tem prazer em explicar coisas absurdamente complicadas que fariam asiáticos implodirem em termos leigos (seus dois livros mais populares “O Universo em uma Casca de Noz” e “Uma breve história do tempo” versam sobre isso),

Além disso, ele é nerd, fã de Doctor Who, e ateu – mas não o tipo babaca de ateu, e sim o raro caso de alguém que realmente pensou sobre o assunto. Porra, se ele tivesse peitos eu totalmente casaria com ele, e não por acaso, cada cena dele no filme vale seu peso em shillings escoceses.

“Mas peraí”, você pergunta, “o filme não é sobre ele? Ele precisava aparecer mais?” Calma, já vamos a isso…

A maquiagem, mas sobretudo a interpretação de Eddie Redmayne é fantástica, e foi elogiada pelo próprio Stephen Hawking. Interpretar uma das pessoas mais interessantes e carismáticas da história da humanidade já é difícil pra caralho, ter que fazer isso apenas com o olhar (e nesse caso é literal, dado a doença de Hawking) é o que separa homens dos comedores de quiché.

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Escola britanica que o professor é o Remo Lupin? Você é um bruxo, Stephen!

O filme começa em 1963, enquanto Hawking fazia seu doutorado em Hogwarts e conhece a novinha – e religiosa – Jane. Eventualmente, Stephen descobre que seu “atrapalhamento” não era nerdice fofa, e sim uma doença degenerativa extremamente fodida, que deveria matá-lo em dois anos, o que o deixa chateado, triste, quem sabe até mesmo desmotivado.

Jane, então, entra em cena, manda ele largar de viadagem, e que vai casar com ele, quer ele goste ou não. Tá, não foi bem assim, mas eu acho a minha versão mais legal, enfim.

O grosso do filme mesmo é sobre o casamento de Stephen e Jane, e como ser casada com alguém com sérias limitações físicas cada vez piores – por mais brilhante que ele seja – é exaustivo e devastador. De certa forma, o filme é quase mais sobre o drama de Jane do que Stephen propriamente, e isso funciona bem. A atuação de Felicity Jones é tão competente quanto a do Redmayne, e em nenhum momento Jane vira personagem de dramalhão mexicano ou coitadinha, ou mesmo uma propaganda feminista barata. Ela é uma mulher forte, mas no sentido humano e inspirador da palavra.

E é aí então que entra a parte complicada

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English, motherfucker, do you blink it?

HUMANOS SÃO… INTERESSANTES

A coisa é que tanto Stephen Hawking quanto sua esposa são seres humanos e, como tais, são seres complexos e não se resumem a dois ou três adjetivos. Jane e Stephen tiveram três filhos, e ela foi sobrecarregada em criar três crianças, cuidar do marido, e ainda posteriormente administrar a carreira de celebridade de Hawking, que se tornou uma figura mundialmente conhecida.

O que significa que, em algum ponto, Jane foi humana e se apaixonou por outro homem, e Stephen era inteligente o suficiente (porque, né?) para perceber isso, e aceitava a situação, dada a realidade das coisas, em um triangulo amoroso bastante… peculiar. Adicione a isso que Jane é cristã (do tipo que acredita nessas coisas e vai à missa, não que nem você, que só lembra de Jesus pra falar mal da viadagem), e que Hawking não só é ateu, como o trabalho da sua vida leva à conclusão de que, mesmo na eventualidade de que Deus existiu ou ainda existisse, ele não tem importância nenhuma.

Não é exatamente a receita para a felicidade ou criar as Meninas Super Poderosas.

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Injustiça mesmo é o Microsoft Sam não ter sido indicado a melhor ator coadjuvante

E é aqui que entra o maior problema do filme, porque ele se esforça demais, mas demais mesmo, para não pisar em ovos, e não fazer ninguém parecer mau aos olhos do público. A história real foi complicada e sensível, e faltou culhões ao filme (até porque, é a biografia de uma pessoa viva) para ser tão relevante quanto.

Em 1990, Hawking deixou a esposa para ficar com a sua enfermeira Elaine Madison, mas no filme essa cena é tão sutil, é feita com tanto cuidado, que é quase difícil perceber que aconteceu. Mais do que “um gênio com uma doença terrível” e “uma mulher forte e resoluta”, Stephen e Jane são seres humanos antes de tudo, e fizeram do seu relacionamento muitas coisas normais que qualquer ser humano adulto faria – nem sempre politicamente corretas – e faltou ao filme coragem para retratar isso da forma que as coisas são, e não uma versão com censura 13 anos cheia de dedos para não ofender ninguém.

Se o filme não estivesse tão preocupado em ser politicamente correto, teria sido uma experiencia muito mais marcante.

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Se esperava que ele vivesse apenas mais dois anos, durou mais que Deus. BOOYAH!

O PARADOXO DO HOMEM DE FERRO

Esse é um dos problemas do filme. O outro é que falta mais Stephen Hawking em cena e, embora essa afirmação pareça estranha, vou explicar como isso se dá.

Em 2008, a Marvel realizou talvez o seu mais importante filme de super-heróis: “O Homem de Ferro“. De um herói de segunda linha (dificilmente alguém que não seja fã de quadrinhos já teria ouvido falar nele) a um personagem que pode sair em charges de jornais populares, porque todo mundo conhece o Homem de Ferro, grande parte do sucesso se passa pela atuação carismática de Robert Downey Jr como o bilionário carismático Tony Stark.

Com efeito, uma das coisas que eu gostaria que tivesse mais no filme era mais do Tony Stark e menos do Homem de Ferro, porque o Tony Stark sendo ele mesmo é muito mais engraçado, divertido e interessante do que as cenas de ação de sua contraparte metálica.

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Stephen Hawking, o rei das novinhas, só pegando os filézinho. E qual a SUA desculpa?

A mesma coisa acontece aqui: Stephen Hawking (e a brilhante atuação de Redmayne) é o raro caso (e mais raro ainda no entretenimento de hoje em dia) do gênio que não é um babaca arrogante como o Dr. House, o Sherlock (e, em um sentido diferente, o Alan Turing do mesmo Cumberbatch) ou o Doutor do Peter Capaldi.

Pelo contrário, Hawking é muito carismático, inteligente, divertido, e gostoso de se ver na tela. Com efeito, nós gostaríamos de ver mais esse cara falando sobre o que pensa da vida, qual seu episódio de Doctor Who favorito, explicando seu ponto de vista sobre Einstein, qual seu patinho de borracha favorito, sei lá cara, qualquer coisa, porque ele é realmente muito legal mesmo.

Mas ao invés disso, o filme dosa bastante essas liberdades do Stephen Hawking sendo ele mesmo, e quase em 80% do filme, quando ele aparece, é para tocar a narrativa para frente. Ok, eu sei que um filme tem tempo limitadíssimo, mas dada que a obra é sobre o personagem, eu não acho que teria sido má ideia dar mais tempo para o protagonista apenas ser ele mesmo – sobretudo quando estamos falando de alguém nível Tony Stark de legal. Parece estranho falar isso, mas totalmente falta mais Stephen Hawking no filme do Stephen Hawking.

O filme é competente, mas poderia ter sido brilhante.

nota-3

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