[CINEMA] A Servidão Moderna: A Ilusão do Consumismo (análise crítica)

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A Servidão Moderna é um documentário francês lançado no ano de 2009 sob a direção de Jean François Brient e Victor Leon Fuentes, com o título original de “La Servitude Moderne”. Contendo quase 53 minutos de duração, o documentário tem uma formação singular, tendo sido constituído a partir de fragmentos de diversos outros documentários e filmes.

O vídeo trata de uma forma de servidão a qual se presta o indivíduo contemporâneo, focando, para isso, em diversos aspectos que constituem, invadem e se fazem presentes na vida no indivíduo que vive na e da atualidade e suas tendências.

a-servidao-consume-fear-conformAo longo do filme o narrador fala cruamente acerca do “escravo moderno”, termo do qual ele se utiliza para designar todos os indivíduos adequados à sociedade contemporânea e de seus hábitos, deixando claro, desde o princípio, que esta condição de servo é situação aceita pelos próprios “cativos” do sistema dominante. Dá-se ao homem moderno o status de servo por opção. Ao contrário, por exemplo, dos antigos escravos, que lutavam por sua liberdade, o escravo moderno não só abraça sua situação execrável, como a aceita com uma alienação velada e até desejável, que não o faça sair de sua inércia de dias iguais e sujeições às quais já se habituou.

Entrando em assuntos diversos que abrangem muitos aspectos da vida de um ser humano, como o valor do trabalho e a invenção do desemprego, o consumismo sem freios, e os falsos valores dados à mercadoria – colocado no vídeo como entidade portadora de significado, peso e ideologia -, os enganos da medicina ocidental, em seu perpétuo trabalho de mutilar seus pacientes, física e mentalmente, alimentação do servo moderno como sendo a expressão máxima do sucateamento da vida – posto que, segundo o documentário, teria o homem confundido a alimentação com o simples deglutir apressado de produtos insalubres feitos pela indústria, o extermínio massivo de animais e a destruição do planeta, entre outras coisas.

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Uma coisa curiosa acerca do documentário é que ele foi veiculado gratuitamente. Mas há um sentido nisso – aliás, até nisso um sentido é produzido, ainda que muito discretamente: Se uma das primeiras e mais importante críticas feitas em “A Servidão Moderna” diz respeito à questão do trabalho e o peso (esmagador) ideológico da mercadoria, conforme a constituímos e a caracterizamos, não seria coerente transformar esta mídia crítica em um dos frutos de suas reflexões – mais uma mercadoria, a tentar dar a falsa ideia de completude e felicidade ao homem. E justamente pelo fato de não haver comércio, não há também uma preocupação preponderante com a questão de direitos autorais, uma vez que também – talvez num movimento pensado para mais uma criação de sentido – existe, conforme já dito, uma ampla utilização de cenas, imagens e recortes diversos de breves cenas de produções cinematográficas ou televisivas, não havendo em momento algum a preocupação ou a querela da autoria de cada fragmento usado.

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Outro ponto a ser notado, quando das primeiras análises do filme, é a incrível sincronicidade e a escolha acurada de cenas e imagens que são expostas à medida que o narrador vai tecendo seu discurso. Apresentadas assim, no tempo certo em que as palavras certas são proferidas, o discurso toma força e forma, fazendo com que o impacto sobre os espetadores se torne inegavelmente maior e mais forte.

Assim, por meio de um texto repleto de reflexões, e costurado por imagens que seguem com exatidão as ideias expostas; imagens bem colocadas e também geradoras de sentidos, o espectador é guiado a pensar conceitos pétreos acerca de seu modo de vida, hábitos e prioridades.

Relações visíveis entre “A Servidão Moderna” e “Androides Sonham Com ovelhas Elétricas

Ambas as produções culturais tratam de um mundo indiscutivelmente distópico:

No documentário fala-se da distopia vivida por cada ser humano dia após dia, uma realidade crua e desprovida de benignidades que não sejam as ilusões dadas pelo consumo desenfreado, e a falsa ideia de escolha de modo de vida e fartura.

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androides-sonham-com-ovelhas-eletricas-philip-k-dick-editora-alephNo livro citado (leia uma resenha dele aqui), escrito por Philip K. Dick, por outro lado, fala-se de uma distopia ficcional, que ocorre em um futuro alternativo (no ano de 1992) que retrata o planeta Terra como um depósito de lixo e de sobreviventes que, não tendo meios financeiros de partir para colônias extraterrestres, são obrigados a cumprir sua existência no planeta de nascença. Em “Ovelhas Elétricas” o mundo é apresentado como um lugar inóspito e estéril, onde escassas são as presenças de humanos e quase impossível a existência de animais. E, justamente pela extinção de quase todos os animais do planeta, a ideia de felicidade gira em torno de uma ascensão social, não para a aquisição de conforto e uma boa vida, ou mesmo a fuga para alguma colônia fora da Terra com a promessa de uma vida melhor. A busca incessante de todos os seres humanos é pela aquisição de animais, símbolos de status e de uma boa vida. Mas esta busca é de tal forma destorcida, que aqueles que não conseguem sucesso financeiro para obter um animal verdadeiro, acabam por comprar réplicas eletrônicas das espécies de bichos. Seja qual for o custo, é necessário possuir um animal que, no mínimo, consiga se passar por verdadeiro.

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E no centro dessa loucura por uma mercadoria que não serve para trazer felicidade, mas para gerar um status necessário, uma satisfação para a sociedade, está o protagonista Richard Deckard, um caçador de androides que arrisca sua vida a cada momento, com o fito de conseguir recompensas altíssimas, a fim de que ele posa trocar sua velha Ovelha Elétrica por algum animal de verdade.

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A crítica trazida por Philip K. Dick nesse livro, com relação ao desespero por consumir algo que sequer traz uma satisfação verdadeira, em muito se parece com o que diz “A Servidão Moderna”, tanto na parte do trabalho, quando o narrador nos fala da ilusão de que o trabalho seria uma bênção – mas que poderia ser fatal, no caso de Deckard – e no bloco em que se fala das mercadorias, compostas da ilusão da felicidade, mas que afastam cada vez mais o ser humano de uma esperança de felicidade real. Ao fim do livro de K. Dick, vemos Deckard frustrado por uma luta incansável para conseguir um animal verdadeiro, transformar-se em poeira, como acontece a todo o mundo deteriorado daquele futuro terrível e sem esperanças.

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5 thoughts on “[CINEMA] A Servidão Moderna: A Ilusão do Consumismo (análise crítica)

  1. Esse documentário deturpa completamente o conceito de trabalho. Ninguém é escravo de ninguém na sociedade moderna. Nós trabalhamos pra comer, nos vestir, estudar e adquirir bens que tornam a nossa vida melhor conforme os interesses de cada um. Se fulano é escravo da moda ou se beltrano é bitolado em cultura pop ou jogos eletrônicos, eu não tenho nada com isso. Além do mais esse papo de trabalho maçante não faz sentido nenhum, afinal de contas, cada um faz o que quer da própria vida. Quem não se especializa não se instrui fica com o bagaço mesmo, e é assim que deve que ser, afinal, pra limpar banheiro não precisa diploma.

    Conforme o capitalismo se desenvolve dentro de uma sociedade a distribuição de renda e a igualdade de condições de melhoria de vida aumentam. Os países passam a apresentar taxas de crescimento mais estáveis (crescimento sustentável) e passam a modificar suas vocações econômicas se tornando sociedades focadas na indústria de alta tecnologia, serviços e finanças, menos onerosas ao meio ambiente.

    Não tenho nenhuma reclamação a fazer sobre a medicina moderna, cada vez mais avançada e eficiente menos ainda sobre alimentação. Vou ao supermercado e a fartura é óbvia. Quanto ao modo de produção dos alimentos, existe o Ministério da agricultura, a Anvisa e outros que são responsáveis. Eu não sou engenheiro de alimentos ou nutricionista pra discordar de porra nenhuma. Eu só sei que a expectativa de vida aumenta cada vez mais. Não me importaria em reduzir o meu consumo de carne bovina ou de outras de origem animal desde que todos concordassem em fazer o mesmo. Alguém quer abrir mão do churrasco de fim de semana?

    • Então, Felipe, essa ideia da servidão das sociedades capitalistas modernas se baseia no conceito de que a liberdade de escolha que nos é apresentada é algo ilusório. Na ausência de estruturas sociais que dêem condições mínimas de dignidade ao ser humano, as pessoas que não pertencem às castas privilegiadas são obrigadas a trabalhar cada vez mais para conseguir o mesmo retorno, muitas vezes fazendo jornadas duplas ou até triplas (negando a existência de qualquer vida ou humanidade fora do trabalho) apenas para garantir a subsistência de suas famílias. O consumismo tem um caráter escravizador na medida em que gera um descompasso cada vez maior entre a renda do trabalho e as necessidades de consumo, obrigando o cidadão comum a cada vez mais “viver para trabalhar” ao invés de “trabalhar para viver”. A comparação com a escravidão pode parecer estranha para quem está acostumado com a ideia de que vivemos em uma sociedade com plenos direitos civis; entretanto, se você pensar que os escravos de antigamente estavam tão inseridos em seu contexto que (na sua maioria) consideravam sua situação normal e natural, pois recebiam casa, comida e outras condições de subsistência em troca de seu trabalho, enquanto o trabalhador de hoje troca uma quantidade cada vez maior de trabalho por víveres cada vez mais caros, a comparação não fica tão distante. Aliás, se você for analisar o fenômeno da escravidão literal que existe hoje em dia (no sentido de condições classificadas oficialmente como “trabalho escravo” pelo Ministério do Trabalho e organizações de direitos humanos), o que geralmente ocorre é que o trabalhador é obrigado a contrair alguma dívida (por exemplo, para pagar sua passagem para algum lugar distante para o qual ele se muda em busca de emprego), a qual nunca é saldada devido aos juros abusivos que não cabem no pequeno salário que ele recebe, o que é piorado pelo fato de a casa e comida (geralmente fornecidos pelo patrão) terem preço superfaturado. Isso, claro, é uma situação excepcional, mas se você olhar a vida da maioria das pessoas de classe baixa, fica difícil dizer onde termina esse trabalho escravo e começa o trabalho “comum” do cidadão que luta pra pagar suas contas.

      Quanto ao capitalismo tender à distribuição de renda e melhoria das condições de vida, sinto muito, amigo, mas considero que você não poderia estar mais enganado. Desde o início do mercantilismo na era renascentista, a história do capitalismo tem sido uma sucessão constante de monopólios e ações governamentais regulatórias para quebrar estes monopólios e refrear os grandes empresários. O capitalismo é concentrador por natureza. Qualquer investidor irá lhe dizer que dinheiro atrai dinheiro – e, por isso mesmo, a tendência natural, sem intervenções externas, é que os endinheirados ganhem cada vez mais dinheiro, e mais rápido que os mais pobres. As crises que ocasionalmente aparecem só pioram ainda mais este efeito, pois quem tem capital via de regra tem melhores mecanismos para proteger seu patrimônio, sofrendo menos os efeitos da crise e aumentando ainda mais a disparidade de renda. Em outras palavras, a concentração de renda aumenta nos tempos bons e aumenta mais ainda nos tempos ruins. É só ver o caso dos EUA, que nas últimas décadas tem apresentado índices absurdos de concentração de renda, que só faz crescer, justamente por causa de ações liberalizantes de desregulação do mercado financeiro (que só foram ser revertidas quando a atuação predatória das instituições financeiras levou à crise das hipotecas em 2008). Aliás, isso nos leva a outro corolário – de que a ideia smithiana de que os “vícios privados correspondem a virtudes públicas”, ou que a atuação “egoísta” de operadores individuais do mercado leva ao benefício comum devido à “mão invisível”, está bem longe da realidade. Quando o seu objetivo é o lucro (que, na cultura capitalista moderna, é o único objetivo de qualquer organização), se você tiver oportunidade de prejudicar as condições de vida das pessoas (ou o meio-ambiente, ou a economia, ou qualquer outra coisa) para ganhar mais lucro, você o fará – e, com efeito, é o que acontece. O conceito de direitos trabalhistas surgiu, no início do século XX, justamente para combater a exploração cruel dos trabalhadores que havia durante a Revolução Industrial, quando demandas cada vez mais pesadas levavam os trabalhadores a passar 12, 14, 16 horas por dia trabalhando, inclusive crianças pequenas, muitas vezes morrendo de doença devido às péssimas condições de trabalho – ou seja, até pior do que os escravos dos engenhos de antigamente. E, para os trabalhadores de “colarinho branco”, com a instituição de metas cada vez mais inatingíveis e a proliferação de cargos “de confiança” aos quais não se aplicam limites de carga horária, tem-se verificado algo semelhante na classe média moderna. Pra nem dizer nada dos danos irreparáveis ao meio-ambiente que a indústria tem feito – um breve passeio em Cubatão dissipa quaisquer dúvidas a respeito. Se tem havido ao longo das últimas décadas um movimento de sustentabilidade social, econômica e ambiental, isso tem ocorrido APESAR do capitalismo, não por causa dele, e aliás, APESAR do enorme esforço contrário que a maioria das grandes empresas dispendeu para abafar esse movimento.

      No que diz respeito à medicina moderna e alimentação, o problema também tem a ver com os danos causados pelo capitalismo quando ele está “sem amarras”. Não tem como negar que a medicina moderna eliminou boa parte das principais doenças da humanidade e aumentou muito a expectativa de vida, nem que a oferta de alimento por pessoa hoje é muito maior do que antigamente – o problema é em COMO essas coisas chegam ao cidadão comum. No caso da medicina, a sanha capitalista dos grandes laboratórios levou a um movimento no sentido de depender cada vez mais de fármacos – tanto ao incentivar os médicos a receitar remédios a torto e a direito, mesmo para situações que podem ser tratadas de forma muito mais eficiente, saudável e sem efeitos colaterais com ajustes de dieta, comportamento ou outros métodos não-farmacológicos (e, tendo quase a família inteira de médicos, eu posso dizer que é bem assim mesmo), quanto ao desincentivar pesquisas e trabalhos sobre prevenção de doenças, pois pessoas saudáveis não geram lucro. Em escala menor, o lucro dos hospitais e clínicas também leva a um excesso de exames laboratoriais e intervenções cirúrgicas, muitas vezes desnecessariamente, que às vezes mais prejudica do que ajuda a saúde. Esse, infelizmente, é o tipo de coisa que é muito difícil de apurar, pois toda a indústria colabora para eliminar qualquer tipo de suspeita de que há algo errado ou que a coisa poderia ser feita de outro jeito. A questão dos alimentos é semelhante – é mais lucrativo fazer alimentos pobres em micronutrientes e com excesso de caloria, tanto por uma questão de custo, quanto por serem instintivamente mais atraentes ao consumidor (apesar de piores para a saúde), o que aumenta suas vendas. Novamente, em ambos os casos (medicina e alimentação), o que existe é a necessidade de regulamentação impositiva para refrear os impulsos capitalistas em nome do bem comum. Você mesmo mencionou a Anvisa e o Ministério da Agricultura, em sua função fiscalizatória – ambas as instâncias existem para ir na contramão do livre-mercado, impondo às empresas normas que, se pudessem, elas não seguiriam nem por um segundo, mas que são necessárias para proteger os consumidores. Novamente, se existe um movimento em melhorar a saúde de todos, isso existe APESAR das grandes empresas. E por fim, por que cargas d’água você depende de as outras pessoas reduzirem o consumo de carne antes que você mesmo o faça? Se é pra cuidar da saúde, pra quê depender dos outros?

      E essa é a minha visão 😛

      • Fernando é uma pena vermos tantas pessoas sendo ludibriadas pelo discurso capitalista. O poder ideológico desse discurso é tamanho que as pessoas chegam a naturalizar o processo de exploração do homem pelo próprio homem. Penso que esse processo histórico de dominação da consciência em massa só poderá ser superado quando a educação for realmente entendida como prioridade nas sociedades em geral. A luta contra esse discurso hegemônico precisa se fortalecer pelo saber e para isso precisamos compreender de fato que educar é um ato político. Enquanto isso, veremos comumente discursos alienados e carregados de uma ideologia historicamente perversamente e dominante. Mas não podemos nos calar, muito pelo contrário, precisamos chamar a todos para uma reflexão crítica afim de desvelarmos essa sociedade exploradora que vivemos.

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