[CINEMA] A Árvore da vida – “Onde estavas tu, quando eu fundava a terra?”

Não é difícil que, ao assistir a um filme de Terrence Malick, tenhamos a impressão de estar, de alguma forma, experimentando o mundo.
Sim… claramente é isso que a arte faz. Mas Terrence o faz de forma ainda mais profunda e muito diversa.

Ao produzir o filme A árvore da vida, Terrence não apenas nos deu as experiências sensoriais por meio de muito menos narrativa e muito mais imagens e atos, como nos deu a oportunidade de sentir ou reinterpretar o mito de criação do mundo sob a ótica judaico cristã de uma forma que poucas pessoas realmente compreendem.

As alegorias são complexas nesse filme que muito mais parece uma viagem intimista que não se pretende objeto de compreensão de qualquer pessoa. Mas há os significados, ainda que não em todas as coisas.

Ou talvez tudo tenha seus devidos significados e os críticos (incluindo essa crítica amadora que aqui escreve) não consigam realmente enxergar.
A história das religiões Judaico-cristãs, e denominações menos proeminentes, mas igualmente fortes em seus caminhos de fé, são convergentes em pontos básicos. Deus criou o mundo, fez todas as coisas, e querendo completar sua obra, criou do barro o homem. E da costela do homem fez a mulher para que não fosse solitário ser algum.
Os dois primeiros filhos de Deus (ou D’us) eram chamados Adão e Eva, e por muito tempo viveram sob a proteção do Pai no Jardim do Éden. Tudo lhes era permitido, e coisa alguma era pecado, pois nada poderia ser imputado àqueles que eram inocentes.

Contudo, para todo inocente há a tentação que leva ao pecado. No Jardim havia a árvore do conhecimento, a que gerava o fruto proibido. Aquele que do fruto comesse passaria a ter ciência de todas as coisas. Inclusive de suas mazelas e vergonhas. A inocência acabaria.

Tentada pelo demônio travestido de serpente, Eva oferece ao seu companheiro o fruto proibido. O casal come o fruto e cai em desgraça, perdendo seu lugar no paraíso e ganhando a condenação de viver do suor de seu trabalho.

A partir da queda do homem, a sucessão de pelejas e desgraças que cercaram a história humana levou e leva até muitas pessoas ao questionamento sobre a bondade de D’us.
E é justamente sobre essa querela que envolve a ideia de bondade, maldade ou justiça de que queremos tratar quando pensamos em A Árvore da Vida.

Enquanto Jack – agora um homem adulto, formado arquiteto e muito bem-sucedido pelo que podemos depreender – relembra sua infância de tons doces e amargos, de uma forma bastante silenciosa, vemos os grandes contrastes e questionamentos surgidos na mente do menino, que vê o mundo sob o ponto de vista que talvez seja mais comum ao ser humano do que paramos para pensar.
Jack é filho de uma família suburbana dos EUA, e sua infância se passa na década de 1950. Já no início do filme temos conhecimento da razão que permeia os momentos de dor da família: seu irmão mais velho, com 19 anos, morreu.

Nessa cena, vemos Jack conversando com seu pai, o Senhor O’Brien, por telefone. Eles falam do rapaz falecido já há muitos anos.
O filme corta para uma dramatização da formação do universo. Enquanto as galáxias se expandem e os planetas se formam, a voz de Jack pode ser ouvida perguntando várias questões existenciais. Em outros pontos do filme, tais questões e observações são expressas por outros membros da família, como também por seu eu mais jovem. Na recém formada Terra, vulcões entram em erupção e micróbios se formam. Eventualmente, a câmera se estabelece em uma praia, onde um elasmossauro jaz com um ferimento fatal na lateral do corpo. Em uma floresta, um jovem parassaurolofo está cauteloso com predadores. Mais tarde, na margem de um rio, o parassaurolofo jaz ferido. Um troodonte aparece e o examina. O troodonte coloca sua pata no pescoço do parassaurolofo, preparando-se para matá-lo, porém reconsidera depois de ver sua luta. O predador vai embora.
Mais um corte no filme… Nesse momento o Espectador talvez se sinta perdido. Faz parte dos mistérios da criação. Ou talvez seja só a consequência natural de assistir a um filme pensado demais e executado da forma exata que o pensamento lhe deu tamanho.

No Texas, a família O’Brien é apresentada, vivendo em uma casa muito diferente e antiga. A iluminação é um detalhe curioso durante todo o filme. Mesmo na escuridão há sempre fachos de luz, como se houvesse a constante mensagem de que algo divino estaria por ali, em toda a atmosfera e rodeando cada personagem.

A ideia da criação do homem parece muito forte quando vemos a cena que dá imagem ao filme: O jovem casal está fascinado pelo bebê Jack, e seus dois outros irmãos rapidamente o seguem, enquanto a família cresce.

Nesse momento temos a criação, e talvez a alegoria de Deus maravilhado com sua obra mais amada: o Ser humano.

O questionamento sobre o Bem e o Mal fica muito patente quando analisamos o relacionamento de Jack, um adolescente, com seus irmãos e seus pais. Jack é o homem; nossa imagem e semelhança. O que ele vê, ele nos passa e invariavelmente acabamos vendo como ele (o narrador é em primeira pessoa). O Sr. O’Brien, pai dos meninos, é a figura do contraste já anteriormente apontado.

É o criador e provedor de todas as coisas. Sob sua lei vivem os meninos e a esposa. É um homem justo e bom, mas muito duro e severo. O’Brien luta para equilibrar seu sentimento de dever paternal com o grande amor que ele tem pelos filhos. Ele é autoritário, ao mesmo tempo profundamente afetuoso e carinhoso. Essas duas facetas fazem com que Jack, nosso guia por essa viagem luminosa e de cores muito gentis aos olhos, tome uma certa aversão pelo próprio pai.

É curioso como somos levados a achar as atitudes de O’brien severas demais para com seus filhos tão jovens, mas ao mesmo tempo acabemos por criar um sentimento de piedade para com o pai afetuoso e atencioso, que apenas parece ter atitudes duras demais para não permitir que seus filhos errem. Talvez para não permitir que errem como errou o mais velho, que acabou morto.
A Sra. O’Brien, por outro lado – sempre vestida de branco ou azul, para quem não reparou – nos aparece como uma figura angelical. Quase casta. Os meninos a vêem como um alento, um refúgio, uma espécie de intercessora ou mediadora entre o duro Marido e os filhos assustados.
É interessante, ou até assustador, notar o ciúme de Jack e até a forma como ele se revolta com o relacionamento de seu pai e de sua mãe. Quase como se quisesse que a mãe fosse intocada. Talvez a figura angelical lhe parecesse mais clara que nos pareceu à primeira vista.

E o que mais dizer disto senão lembrar, talvez não tão inocentemente, que muitos de nós somos tementes a Deus, mas nenhum de nós tememos aos anjos. Pelo contrário. Pedimos sua ajuda.

Quantas vezes não somos blasfemos ou apóstatas, e culpamos Deus por males diversos? Mas quem culparia os anjos? – Claro, estou me referindo aos que creem.

As figuras do Senhor e da Senhora O’Brien passam a fazer um pouco mais de sentido quando pensamos dessa forma.
TALVEZ.

É difícil concluir, na verdade, o que se passou na cabeça de Terrence Malick para escrever e produzir A Árvore da vida, se pensarmos na quantidade de mensagens deixadas a todo instante em quase todas as cenas. As alegorias que costuram o filme, as cenas em momentos e lugares etéreos, as personagens que se questionam o tempo inteiro…

Tudo isso faz desse filme lindo uma verdadeira Boneca Russa. Mas, ao menos com relação ao aspecto principal: Jack e seus pais, podemos arriscar, sim, um chute interessante sobre o mito da criação do homem, e a ideia da falta de fé e da incompreensão da personalidade divina por parte da humanidade encarnada em um casal contrastante e um filho adolescente com sentimentos mexidos.

Deus lutando em seus meios (talvez severos demais para o entendimento humano?) para que o homem não torne a cair, os anjos…. e a humanidade.

E sua história de Dor e Caos que, talvez, um dia terminará num paraíso.