[CINEMA] – 47 RONIN: Keanu Reaves nasceu para ser amarelo

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Alguma histórias, sejam elas reais ou mitos, acabam por definir certas épocas e povos. O “Anel do Nibelungo” é uma sintese dos povos escadinavos-germanicos do século XI, a batalha das Termópilas é um essencial do povo espartano do periodo helenico, o escandalo do mensalão é um retrato do Brasil do século 21. E quanto ao Japão? Qual obra é o epiteto que condensa o espirito amarelico que nos deu samurais, ninjas e onis com tentaculos sedentos por colegiais?

Colocando dessa forma, e considerando o que a internet nos trás da terra de Edmundo Honda, a premissa pode parecer aterrorizante. Mas não é. A saga do “Incidente de Ako” conta a história de como 47 ronin (samurais sem mestre a quem servir) resolveram buscar sangue, morte e vingaaaaaaaaaaança depois que o seu mestre foi obrigado a se suicidar-se depois que cometeu a deselegancia de tentar matar um senhor feudal rival enquanto ele era hospede nos seus dominios diante da presença do Imperador. Sabe a expressão “mais constrangedor que vomitar no imperador do Japão”? Bem, esse é o equivalente da época.

O ex-samurai Oishi e seus camaradas de armadura de couro (ui) decidiram buscar sangue, morte e vingança para o seu mestre já que ele havia sido enganado para desonrar-se e ter que cometer seppuku (que é uma maneira niponica de dizer “enfiar uma faca nas tripas e ir rasgando lentamente”, e voce achando que o cartão de “foi mal cara” era uma forma adequada de se desculpar”. O grande lance é que Oishi e sua turminha do barulho sabiam que a região de Ako seria desonrada e humilhada se eles agissem no calor do momento, então esperaram um ano e meio para que sua vingança parecesse um ato de maluquice aleatória e não uma rebelião da provincia. Ao ter sucesso em sua busca, e terem executado honoravel cobrador de energia eletrica, eles então assumiram a unica saída digna e honrada para encerrar a história: encerraram o ciclo de vingaaaaaaaaança se entregando a justiça e sendo condenados a um seppukuzaço coletivo.

Falando um pouquinho sério, a história é muito legal e diz muito sobre paciencia, honra, lealdade, sacrificio, persistencia e honra. Na verdade a história representa tanto para o povo japones que existe um feriado nacional em homenagem a data (14 de dezembro).

E por um tempo foi bom, até que alguém teve a idéia de contar a história no cinema estrelando Keanu Reaves com varias concessões fantasiosas para o filme ficar mais palatavel ao publico que le da esquerda para a direita. Só que para adaptar o filme para os padrões óliudianos o diretor Carl Rinsh muitas outras “liberdades criativas” foram adicionadas ao épico amarelico.

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Keanu está se sentindo com liberdade criativa

E acredite ou não, essas “liberdades criativas” são o aspecto positivo do filme. A execução delas é que não foi.

Pra começar o filme se passa na terra da bandeira mais vagal do mundo mas todo mundo fala inglês. Por que? Apenas pq o publico americano odeia filme legendado (e odiaria dublado se conhecesse o Guilherme Briggs). O resultado? Estranho, mas depois de 10min de filme voce nem esta mais reparando nisso.

Outra liberdade criativa foi ambientar o filme não no periodo histórico mas um Japão fantastico onde existem demonios e criaturas misticas normalmente. Para ficar mais facil de entender, imagine que o filme se passasse na Grécia da fantasia onde existiam Quimeras, ciclopes e gigantes e não na grécia histórica com espartanos auto-encoxadores. Tanto que uma das primeiras cenas do filme é com o grupo do seu Asano caçando um Entei selvagem (pelo menos pra mim pareceu isso) e a vilã do filme é uma bruxa piriguete transmorfa. Isso também não é ruim, na verdade ficou bem bacana e dá um feeling de filme do Miyazaki. O que ficou ruim é que a idéia é abandonada depois de uma cena ou duas. Sim, existem onis, tengus e toda essa tralha mistica folclorica, mas isso não é muito relevante ao filme não e a impressão que dá é que a idéia foi abandonada no meio do andamento.

Discutivelmente a liberdade criativa mais relevante ao filme é meter uma estrela óliudesca no meio apenas por razões bilhetericas. Claro, poderiam ter feito o filme com o Ken Watanabe mas provavelmente ele estava com diarréia no dia e nenhum outro Jaspion é tão popular (nem ele mesmo é tudo isso) pra levar as massas ao cinema. O resultado foi que adicionaram na lenda um mestiço (se ele é meio ocidental ou meio demonio é um tanto confuso, mas acho que dá no mesmo afinal) chamado Revisão (sério, quem acho que isso era uma boa idéia?) e que é o Keanu Reaves.

Revisão é tipo o Harry Potter morando na casa dos tios: apesar de ser mary sue e foda alem do que é aconselhavel, é tratado como o coco do cavalo do bandido vesgo. E sabe o que mais? Ficou perfeito! O povo japones é tradicionalmente inexpressivo, reservado e que acha de tremendo mau tom expor os seus sentimentos. E quem é mais perfeito pra viver alguem inexpressivo que não deve demonstrar o que sente? Sim senhor, o lendário e emasculizavel Neo! A escolha do ator não poderia ser mais acertada para alguém que cresceu se reprimindo e deixando passar por “saber o seu lugar”.

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Keanu esta se sentindo no seu lugar

O problema, no entanto, é que justamente faltou um diretor japones pra contar essa história e eu vou dizer o porque  já que não é nada disso que voce esta pensando. Eu não acho que tem que ser um japa para contar a maior saga japistica que já porque mimimi e sim porque somente um japones se sentiria confortavel o suficiente para mexer com a história do jeito que o roteiro propos. A impressão que dá é que o diretor fica pisando em ovos o tempo todo para não ofender ninguem, ele faz tudo muito politicamente correto e pelo livro quando um legitimo amareninja teria mais conforto para extrapolar a história.

É tipo um humorista branco contando piadas de negro e com medo de ofender alguem, não dá certo. Tem que ser um irmão pra poder zoar outro irmão sem deixar de ser um irmão, tá ligado homie?

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Keanu está se sentindo mano, bro

O resultado é justamente esse: a história é muito boa mas o filme não decola pq tudo é formal demais. Essa história merecia uma adaptação cinematrogracia tão boa quanto Os 7 Samurais (a obra prima do cinema japones… que foi? To ficando sem adjetivos variados, ok?). Mas não, os bons mocinhos vencem sem dificuldade, o vilão é mau como um pica pau e em nenhum momento do confronto final parece ter a menor chance de vencer. Tudo certinho demais, tudo chato demais.

Não que precisasse jogar um Kaiju no meio da batalha (ei, isso teria sido legal), mas sei lá, qualquer coisa que fizesse voce achar que perdeu alguma coisa se ir no banheiro e zerar Pokemon Red. Mas não, tudo corre bem sem a menor chance de qualquer emoção – tal qual a atuação do Keanu Reaves. Falando no Neo Marotão, vou ser obrigado a dizer que existe um romance melacueca que… ah god… vou colocar da seguinte maneira: lembra do casalzinho Neo e Trinity? Vamos dizer que voce vai sentir saudade da Carrie Anne Moss. E isso não é um elogio a magricela. O que vou dizer? O romance do filme tem tanto carisma quanto o Keanu Reaves em um dia de fúria.

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Keanu está fúrioso

Pra não dizer que não falei de flores, por um lado esse respeito demasiadamente desncessário acaba tendo um aspecto positivo é que a fotografia do filme ficou realmente muito boa. A escolha de cores e tomadas ficou muito elegante, as cenas de Seppuku são particularmente muito bonitas. Não, eu não sou um necrofilo com tara por tiozinhos de meia idade abrindo a barriga. Embora essa descrição irá atrair muitos pervertidos esquisitos. Mas o meu ponto é que a fotografia do filme é elegante digna de um povo que vivia com paredes de papel e não ficava uma coisa porca.

Pena que a fotografia e a história (a história original mesmo) são as melhores coisas do filme que tinha potencial para ser épico. Sóquenão.

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