[CINE MONIQUE] O Egocentrismo em “Deus da Carnificina”

O filme Deus da Carnificina (Carnage) é uma adaptação da peça Le Dieu du Carnage de Yasmin Reza. A peça também foi encenada no Brasil por Paulo Betti, Júlia Lemmertz, Orã Figueiredo e Deborah Evelyn.

Dirigido por Roman Polanski, com estreia em 2011, o longa é composto por basicamente quatro personagens: Penelope (Jodie Foster), Michael (John C. Reilly), Nancy (Kate Winslet) e Alan (Christoph Waltz). Temos ainda os filhos dos casais, parentes e colegas de trabalho, mas aparecem em poucas cenas e, em grande maioria, apenas por ligações telefônicas.carnage deus da carnificina  (3)

Mas vamos à trama. A história começa com uma visita de Nancy e Alan à casa de Penelope e Michael, devido a um desentendimento entre os filhos dos dois casais.

Inicialmente todos tentam manter a postura, sendo extremamente sutis e educados em tratar o assunto, porém, após constantes acusações nas entrelinhas, cada um começa a se sentir afetado, chegando a um ponto em que se torna impossível esconder a raiva que foi aos poucos acumulada.

No decorrer do filme, notamos a potencialização das alfinetadas, que já não são mais somente de um casal para outro. Sempre em duplicidade, os personagens se opõem em discussões que vão desde métodos de criação, até dificuldades na África. E tamanhas discussões se justificam devido às personalidades discrepantes dos indivíduos.

Penelope é uma defensora do coletivo, e julga que todos têm que caminhar por um objetivo comum, e seguindo as mesmas regras, mesmo que por vezes ela pareça não seguir isto. É extremamente autoritária e com um enorme senso de superioridade.

Michael compõe a mediocridade do ambiente. Sem ambições por qualquer tipo de sucesso, ele é um ser estagnado sem a menor vontade de locomoção. E não se importa com isso.

Nancy é como Penelope diz: “falsa”. Inicialmente se mostrou empática e dócil, características que sumiram após algumas acusações e outras doses de whisky. Além disso, também mostra-se muito consumista, após Penelope acabar destruindo alguns bens materiais dela.

Alan pode ser definido como o cinismo em pessoa, o que justifica a sua profissão de advogado. Completamente descompromissado com as questões familiares, ele visa quase que somente o sucesso profissional.carnage deus da carnificina  (1)

Como dito anteriormente, com frequência ocorrem alianças entre dois personagens opondo-se aos outros dois, como a seguir:

Penelope/Michael x Nancy/Alan = reacionarismo x liberalismo

Penelope/Nancy x Michael/Alan = feminino x masculino

Penelope/Alan x Nancy/Michael = atividade x passividade

Mas uma coisa que une (e acaba por também desunir) todos os personagens é, sem sombra de dúvidas, o egocentrismo.

Todos, em diferentes níveis em cada caso, são extremamente egocêntricos. Assumem como verdade única e absoluta apenas o que apoiam, e ofendem-se com qualquer tipo de oposição. Não aceitam estarem errados, e nem cogitam essa possibilidade, independente se a situação os envolve ou não.

Por vezes também, devido a esse egocentrismo todo, três indivíduos se opõem a um só, por este estar ferindo o ego de todos os outros, o que gera ainda mais discussões e exaltações.

Mas mesmo com toda essa disputa de ego, ainda há uma comicidade que alivia toda essa tensão.

É inevitável acabar vendo-se nos personagens, uma vez que mesmo de forma superficial, eles abordam as várias dualidades que dividem o mundo. E a parte mais interessante é que, como as características são bem distribuídas, você acaba apoiando um personagem diferente em cada tipo de situação.

Mais do que uma comédia dramática sobre criação de filhos, Deus da Carnificina é uma comédia dramática sobre indivíduos, egos, e relacionamentos.

nota-4

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