[CINE MONIQUE] “Hot Girls Wanted” e o machismo pornográfico

Hot Girls Wanted

Há semanas estava me programando para assistir um documentário no Netflix sobre pornografia amadora.

Hot Girls Wanted tem direção de Ronna Gradus e Jill Bauer, e narra o cotidiano de garotas que se envolveram no ramo da pornografia amadora em busca de dinheiro e de uma nova vida.

De início fiquei com um pouco de nojo pelas atitudes de um dos sócios da “empresa de recrutamento” em que as meninas trabalhavam, e achei que perderia o meu tempo com um documentário que mostraria apenas a parte luxuosa da área.

Mas eu estava enganada…


O Drama Familiar

O recrutador chega a comentar logo de início que a maioria das garotas se preocupa demais com o fato do namorado ou da família descobrirem de sua vida secreta. E muitas delas desistem por isso.

A questão é que nenhum pai ou mãe quer que sua filha vire uma atriz pornô. Já é difícil para muitos imaginar que elas podem ter uma vida sexual ativa. Pensar que são atrizes pornôs então?! Piorou!

O conceito criado pela sociedade de que nossas garotas devem continuar “puras e castas” para serem “boas” está tão enraizado que fica difícil demais para os pais associarem sexo a elas.

Então para uma jovem de 18 anos, pensar em revelar para a sua família que é uma atriz pornô é algo completamente devastador. Sentem-se como se desonrassem a família. Sentem-se culpadas pelas suas atividades.

Mas… vocês conseguem imaginar um garoto sentindo a mesma coisa? Acham que os pais ficariam tão decepcionados com seus filhos fazendo pornô, quanto ficam suas filhas? Pois é.


A Objetificação da Mulher

Então devemos quebrar o conceito de que mulher não faz sexo, e pararmos de julgar as mulheres que amam e buscam isso? Certo. Então não tem problema nenhum delas fazerem pornô? Errado.

O problema não é ser filmada transando e ganhar por isso. O problema são os papeis.

Dificilmente veremos um pornô que busca o prazer feminino. Dificilmente veremos um pornô para atender os desejos de mulheres.

As atrizes estão ali para satisfazer desejos que são na maior parte das vezes masculinos!

Estão ali como puros objetos de satisfação masculina, e são constantemente humilhadas e subordinadas para que homens atinjam seus prazeres, com seus desejos mais bizarros, como por exemplo o abuso facial, onde as garotas se submetem a boquetes forçados até não aguentarem mais.


A Pedofilia

É uma das problemáticas mais evidentes e assustadoras de todo o documentário.

A empresa em que as meninas trabalham as recrutam por serem bonitas e por parecerem jovens. E não é uma jovialidade de vida adulta, e sim uma jovialidade que remeta à adolescência.

Elas são filmadas como sendo colegiais que estão iniciando sua vida sexual.

Em determinado momento uma das garotas tem que simular ser uma garota prestes a entrar na faculdade, que perde a virgindade com um amigo da família. Vocês conseguem perceber o quão doentio isso é?


O Ciclo Vicioso

A pior parte de ver as cenas em que as garotas se submetem é pensar que elas fazem isso porque existe um público que quer ver isso. É a lei de oferta e demanda.

O público procura esses conteúdos degradantes, e a indústria pornô gera conteúdo, e garotos com pouca ou nenhuma experiência sexual entram em contato com isso, e crescem acreditando que aquilo é normal e bom. E então eles procuram mais, e a indústria gera… e por aí vai. É um ciclo vicioso.

E como parar?


Mas e o dinheiro?

Pelo que pode-se perceber é que as garotas se confortam pensando que estão atuando e que ganham para isso. Afinal, são atrizes.

Mas existem gastos. Aluguel, roupas, unhas, cabelos… Precisam ficar impecáveis para atingir o padrão estético de uma atriz pornô.

E além dos gastos, existem desgastes. Físicos, emocionais e psicológicos. Elas enxergam tudo isso. Pensam em desistir. Mas $800 por hora parece ser bem mais tentador do que 8.

Então até onde elas lucram com isso?

Eu não sei. Mas sei que muitas desistem com o tempo. Ou simplesmente são descartadas da indústria do pornô amador. Já não são mais amadoras. E então têm que escolher entre entrar de vez na pornografia, ou tentarem ganhar a vida de outro jeito… muitas ficam com a segunda opção.


nota-4

É definitivamente um ótimo documentário para refletir e aprender mais sobre essa indústria que tanto cresce no mundo. Diversos dados são expostos ao longo dele, e pra quem nunca tinha visto nada a respeito, os dados podem até assustar.

A diferença de clima do início da produção para o final é contrastante, visto que a medida que aprofundamos na situação das garotas, vemos mais de perto o drama interno delas. E chega a ser realmente deprimente. Mas tudo isso vale a pena pelas reflexões, conhecimentos adquiridos e esperança de que a visão de alguns indivíduos sobre a pornografia mude depois de entrarem em contato com esse documentário! Quem sabe assim não conseguiríamos quebrar o ciclo vicioso da indústria pornográfica?