[BOARD GAMES] Video games são perfeitos demais, é por isso que estou jogando mais board games

StarWarsX-Wing

Essa semana eu joguei minha primeira partida do jogo de miniaturas “Star Wars: X-Wing” (lançado no Brasil pela Galápagos Jogos), e ao fazê-lo não pude deixar de lembrar de um artigo escrito no Kotaku o qual eu vos traduzo agora:

star wars x wing gameplayFora do horário de trabalho, eu costumo jogar tanto (se não mais) board games quanto videogames hoje em dia. Eu sempre assumi que isso se dava pela razão óbvia: sentar ao redor da mesa, pegar uma cerveja, era uma infinitamente mais “experiência social” do que sentar no sofá xingando estranhos (isso nas ocasiões que eu falo com alguém enquanto jogo).

Mas sábado à noite eu me dei conta de uma coisa. Eu não estava jogando board games pela interação social. Quer dizer, eu estava, mas essa não era a razão principal pela qual eu estava movendo pecinhas em um tabuleiro, invés de estar na sala jogando FIFA ou Madden ou Mario Kart, pois todos os videogames podem ser tão experienciais sociais quanto um punhado de cartas e peças.

O motivo era físico.

Eu passei o sábado jogando Wings of War (N.T. Wings of War foi lançado em inglês pela Fantasy Flight Games, que posteriormente reaproveitou a ideia com a temática de Star Wars e lançou o X-Wing). É um jogo fantástico, originalmente desenhado para ser um card game, mas posteriormente adaptado em algo que você joga usando pequenos modelos plásticos de aviõezinhos. Parte do apelo físico do jogo é, sim, os aviões em si. Eles são MUITO colecionáveis, e um dos meus amigos faz isso, compra os aviões do jogo não para jogá-lo, mas sim para adicioná-los à sua coleção (N.T. o mesmo pode ser dito de Star Wars: X-Wing, as miniaturas são muito bonitas, bem-feitas e pintadas a mão).

É um prazer espalhar os modelos pela mesa, alinhando-os para atirar, fazendo “pew pew pew” quando eles entram em combate. Assim como um avatar nos videogames ajuda na imersão e identificação, ter o seu combatente representado pelo modelinho detalhado neste jogo faz o mesmo, e torna toda a experiência menos abstrata.

wings of war gameplay

– Está encostando a base! /- Claro que não está! /- Deixa de ser louco, tu é cego? /- Tua mãe fede!

O principal apelo disso fisicamente, no entanto, é a bagunça que isso fica. Wings of War não é jogado com grids, tabuleiros, nem nada que garanta a precisão e conformidade. Você move as miniaturas no campo, e para onde elas estiverem apontando no final do turno, é para onde elas vão disparar.

Isso significa que o menor esbarrão – seja intencional ou não – pode mudar o jogo. Um tiro que estava fora de alcance subitamente causa dano, tudo por causa de um esbarrão na miniatura enquanto alguém pegou uma cerveja. Um movimento que, para algumas pessoas, foi ilegal, para outras é totalmente ok.

Wings of War também inclui algumas cartas e regras que, para nós pelo menos, parecem um pouco demais. Não é incomum para um jogador ficar fora da partida cedo, devido a uma ou duas cartas azaradas, apenas para ficar sentado ali por 30 minutos sem fazer nada, enquanto todo mundo joga. Isso parece injusto, então nós tiramos essas cartas, apesar das regras dizerem que elas deveriam fazer parte do jogo. Mas nós não gostamos, então mudamos as regras.

Isso pode parecer horrendo para você, se você clama pela arbitrariedade absoluta que os videogames podem oferecer. Em um videogame não existe área nebulosa. Nenhum esbarrão. Cada ângulo, cada movimento e decisão, foi calculado e pré-programado ao mínimo detalhe, e não existe espaço para discussão. Você aceita o que o computador disse, e ou você gosta ou você desiste.

Eu adoro o conflito que pode surgir entre os jogadores e as regras. O conflito de interesses, onde o espírito da lei vai contra o que está escrito literalmente. Movimentos contestados e decisões se tornam mais do que só um movimento, eles se tornam debates legais sobre a lei e seu propósito, um conflito entre jogadores, tanto quanto entre os jogadores e o livro de regras.

wings of war smoke screenAdiciona muito mais drama ao jogo, tanto quanto adiciona camadas de profundidade e interesse ao jogo. Eu lembro alguns dos melhores movimentos e disparos do meu jogo do último sábado a noite, claro, mas do que eu lembro mais são das discussões acaloradas sobre decisões polêmicas e acusações de manipulação, de que tirar as cartas de dano foi ou não uma boa ideia no esquema geral do jogo. Ou daquelas vezes em que uma regra pareceu estúpida ou desnecessária, e foi deixada de lado. Elementos do jogo que têm um lado humano, que contam uma história, que dão uma história para contar, não apenas cálculos frios.

Imagina, para efeito de comparação, que o lag em um shooter online possa ser discutido? Ou que uma batalha perdida em Civilization pudesse ser refeita, porque você suspeita que o computador derrubou um dado no chão, e ele tem que ser rolado em cima da mesa?

Eu poderia dizer que desejaria que essa inconsistência empolgante fosse mais comum nos videogames, mas não. Simplesmente não funcionaria. Ao invés disso, apenas serve para nos lembrar que, apesar de toda evolução em gráficos, design e interatividade, existem algumas coisas que videogames nunca serão capazes de fazer melhor do que board games.

Modelos bonitinhos de aviões são uma dessas coisas. Discussões sobre falhas humanas e trapaças são outra.

X-wing-miniature-game