[BOARD GAMES] BATTLESTAR GALACTICA (resenha) – Deve haver algum jeito de sair daqui, disse o bufão ao ladrão

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Como você sabe que um jogo é bom? Eu digo REALMENTE bom?

Existem diversas formas, mas eu diria que uma das mais seguras é quando você pensa “taquopareo que jogo bom, eu preciso jogar isso de novo!”. E quando você pensa isso enquanto está jogando, pelo amor dos antigos deuses e dos novos, case-se com esse jogo!

Esse é o caso de Battlestar Galactica, e hoje lhes trarei a palavra da gloriosa supremacia cilonica!

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De boas jogando BSG quando um cylon selvagem aparece!

A GRANDE ESTRELA DE BATALHA GALÁCTICA

Se o nome “Battlestar Galactica” não lhe parece estranho, é porque não deveria ser mesmo. Essa é uma das séries de ficção científica mais populares dos anos 80, que recebeu um remake crocante de tão lindo e épico em 2003. Talvez mais épico ainda por ser feito por um canal bunda como o SyFy, e até hoje eu não acredito que algo legal assim saiu de lá.

De fato, se você não assistiu ainda, largue o que está fazendo e assista agora, tenho certeza que o paciente vai entender (embora talvez ele não entenda porque você estava fazendo uma neurocirurgia e lendo esse texto, mas o que eu sei da vida?).

A premissa da série é muito legal: em algum momento, a humanidade criou uma raça de máquinas inteligentes chamadas “cylons”, e em algum ponto os cylons adquiraram consciência o suficiente para iniciar uma rebelião das máquinas. A batalha sangrenta terminou com um armísticio, e os cylons foram embora.

50 anos depois, sem aviso prévio, eles retornaram chutando o pau da barraca, e pega com as calças na mão, em menos de 24 horas a humanidade foi derrotada, e perdeu todos os seus doze planetas, com exceção de uma única nave de combate: a Battlestar Galactica.

Por que a Galactica escapou? Porque ela era uma sucata tão velha que sequer tinha um sistema de rede online quando os cylons hackearam e derrubaram todas as defesas da humanidade. Com efeito, no dia que isso aconteceu, a Galactica estava sendo aposentada e transformada em um museu!

Battlestar-Galactica santa ceiaAgora tudo que restou para a humanidade é correr por sua vida na banheirona Galactica (e mais um punhado de naves civis que escaparam por razões aleatórias). Para onde? Dizem as lendas de Kobol (o planeta mítico de onde supostamente a humanidade veio) que existe uma décima terceira colonia perdida, que poderia abrigar seus irmãos sem lar: um mundinho simpático que atende pelo nome de “Terra”. Ninguém sabe se essa tal de “Terra” realmente existe, e muito menos onde fica, mas, dadas as circunstancias, é a melhor opção que o que sobrou da humanidade tem.

Não fosse o suficiente essa perrenga toda, os recursos limitados, a pressão, a tensão de um projeto de sociedade civil viver correndo por sua vida, tudo isso, tem outro problema. E um enorme: ninguém sabe como os cylons são.

Sabia-se que, há 50 anos atrás, eles tinha aparência de robôs, mas hoje eles são máquinas orgânicas, e apenas testes de laboratório podem identificar quem é um cylon. Então, se não fosse ruim o suficiente, ainda tem a paranoia de que qualquer um pode ser um cylon. Mesmo o comandante da frota. Mesmo a presidente. Mesmo sua manicure. Mesmo você! (e apenas não saber disso, porque sua programação de cylon lhe deu memórias falsas para fins de mentir melhor, mas quando chegar a hora será ativada)

A receita para uma obra de arte, se me perguntam.

E arte, arte mesmo, foi conseguir colocar toda essa sensação, toda essa paranoia, toda essa pressão, em um board game. Quem assistiu a série vai escorrer pelo chão de prazer, mas mesmo quem nunca viu pode ver que essa é a receita de muita diversão.

Battlestar-Galactica-Board-Game cylon shipO BOARD GAME

O jogo é simples de entender, mas complexo de uma forma divertida: os jogadores têm personagens que estão na Battlestar Galactica (ou na frota civil que a acompanha), e cooperativamente têm que fazer a sucatona mais amada da ficção conseguir chegar até a Terra.

Para isso, cada jogador ganha recursos no começo do seu turno, que serão usados para resolver os problemas que a nave tem (que são vários, acredite). Sério, tem muita coisa para fazer, e você e seu grupo de amigos vão ranger os dentes implorando por mais tempo e mais ações, porque saporra tá se desfazendo com fita crepe.

No final de cada turno, então, o jogador compra uma carta de “crise”, que vai acrescentar mais desgraça ainda – até porque, a Galactica está sendo caçada pelos cylons. A grosso modo é a mecânica de “jogadores no tabuleiro contra as cartas de evento”, que é usada em Pandemic (lançado no Brasil pela Devir) ou A Ilha Proibida (igualmente lançado no Brasil pela Devir), só que com bem mais opções, bem mais pressão, bem mais diversão.

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Ih, fodeu! Super Crise apareceu! Oleeeeeeee cyloooooon!

Tem muita coisa acontecendo na nave que precisa ser resolvida, tem os cylons atacando (o jogo tem um sistema de combate legalzinho), e o número de ações para resolver tudo isso é contado na unha. Ufa, parece empolgante, difícil pra caralho mas empolgante, né?

Novamente, não é necessário ter assistido a série para se divertir ou mesmo entender, mas não tem como não ver os eventos que acontecem e evitar um largo sorriso. Quem pode evitar gritar como uma menininha por dentro quando você está jogando com a Starbuck e está tudo fodido, não há mais esperança nenhuma, e então você gasta sua ação para comprar a carta de destino e pode dizer: “eu sei onde a Terra fica, e eu vou nos levar até lá”? (cena que é uma das melhores season finale da história da televisão, a propósito)

Por si só, só com isso, Battlestar Galactica já seria um ótimo jogo. Massa pra caralho mesmo. Só que tem um twist, tem um porém, e é aqui que as coisas ficam loucas. LOUCAS, eu te digo!

i-dont-want-to-be-human-i-want-to-see-gamma-rays-i-want-to-hear-x-rays-and-i-want-to-smell-dark-matter-battlestar-galacticaHÁ UM CYLON ENTRE NÓS

Lembra que eu disse que ninguém sabe como os cylons são realmente?

Então, no começo do jogo cada jogador recebe uma carta de lealdade (que ninguém alem de você pode olhar), que diz se você é humano ou cylon. Um dos jogadores é, na verdade, um cylon infiltrado, e o objetivo dele no jogo é sacanear os outros jogadores, e faze-los perder sem ser descoberto, até a hora mais desesperadora e fodedora de vidas possível, para se revelar causando o maior estrago possível.

O jogo fornece diversas ferramentas para fazer isso, e isso causa uma paranoia e tensão adicional muito divertida. Tem horas (várias delas) que os jogadores têm que confiar que tal pessoa vá fazer a sua parte, porque se não, todo mundo vai tomar no toba gostosinho com açúcar… Mas e se esse cara for um cylon, e na hora mais critica, ao invés de salvar o dia, ele simplesmente fique de braços cruzados e diga “eeeehhh… nah…” ou, pior ainda, atire contra o patrimônio com gosto?

Depois de revelado, o jogador continua jogando de uma outra forma, agora abertamente contra os outros jogadores, mas mesmo antes de se revelar, o jogador cylon tem muito o que fazer, sabotando os testes na maciota (o jogo também fornece meios para isso), e os jogadores têm que resolver os problemas da nave sabendo que não podem confiar em ninguém além de si mesmos. Existem ferramentas para lidar com cylons… apenas torça que você e seus amiguinhos não estão colocando um humano na cadeia (ou pior ainda, sendo manipulados pelo cylon a fazer isso) 🙂

Tensão, caos, paranoia, desespero!

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“E então você descobre que agora é cylon.”

E TEM MAIS!

Quando chega exatamente na metade do jogo, outra carta de lealdade é distribuída secretamente, e jogadores que até então pensavam que eram humanos, podem “despertar” sendo um cylon dali pra frente. Sim, o cara que até o momento era humano, pode mudar de lado (secretamente) no meio do jogo, e aí fodeu tudo, é loucura total, é o caos, é pão com milho, é cria de cruz-credo, é o diabo mascando mariola!

Como dá pra ver, Battlestar Galactica é um excelente jogo, que além de ser um jogo bom pacas, consegue transmitir a sensação da série com maestria. Ser só um jogo muito bom já seria um grande feito, assim como só transcrever bem a sensação, mas BSG consegue fazer os dois!

Como ponto negativo, há a ressalva de que o jogo não é para todos, em primeiro lugar porque é um jogo pesado. E por pesado, eu digo que uma partida demora entre 4 a 6 horas de jogo. Outro problema é que a explicação tem que demorar um pouquinho, já que esse é um caso que não dá pra “aprender jogando”, porque o jogador cylon tem que entender como o jogo funciona ANTES do jogo começar, já que perguntas demais sobre coisas que interessariam a ele como cylon levantariam suspeitas, então não é só sentar e sair jogando.

Isso faz com que o jogo não seja tão acessível assim, mas com grandes fodonices vem grandes responsabilidades. So say we all!

nota-5