[QUADRINHOS] Batman Earth One – A Nova Origem do Homem Morcego – Por Rodrigo F. S. Souza


ATENÇÃO: o texto abaixo contém SPOILERS depilados e alguns potencialmente cabeludos. Leia por sua conta e risco.

Já se falou muito sobre como Christopher Nolan foi o diretor que iniciou nos cinemas a onda de reboots de franquias outrora bem sucedidas que foram, com o tempo, arruinadas por produções de gosto duvidoso. Mas, enquanto na 7ª arte isto é um fenômeno recente, nos quadrinhos deixou de ser novidade há, pelo menos, uns 60 anos, especialmente se estivermos falando do Batman.

Personagem que, desde sua criação, sempre mostrou-se capaz de adaptar-se aos obstáculos e condições do período vigente, já em meados da década de 1940 suas histórias, inicialmente sombrias e cheias de crimes e mistério, ganharam um frescor e um tom aventuresco e jovial com a introdução de Robin como seu parceiro mirim. Na década seguinte, em resposta à caça às bruxas iniciada pelo psiquiatra Fredric Wertham, autor do execrado Sedução dos Inocentes, os escritores responsáveis pelas histórias do Cavaleiro das Trevas foram forçados a jogá-lo numa aventura fantasiosa, intergaláctica e psicodélica atrás de outra, sempre com o intuito de evitar tramas que iam contra o ditatorial Código dos Quadrinhos, que na época proibia histórias que retratassem crimes, uso de armas de fogo, entre outros elementos que marcaram as aventuras originais do Batman. Já na década de 1970, Denny O’Neil promoveu uma volta às origens, retomando o tom sombrio e resgatando o lado detetive do Batman, numa espécie de defesa contra o que a série de TV dos anos 60 havia feito à imagem do herói, ao torná-lo alvo de risadas devido ao seu visual e tom satíricos. Por fim, em 1987 veio aquela que é considerada a história de origem definitiva do Homem Morcego, Batman Ano Um, em que Frank Miller, ao lado do desenhista David Mazzucchelli, deu maior ênfase às sombras e sujeiras das ruas de Gotham, e uma atenção maior para o aspecto psicológico da transformação de Bruce Wayne em Batman, além de contar um pouco sobre seu treinamento para desenvolver as habilidades necessárias para tornar-se o primeiro vigilante de Gotham City, e aprofundar-se nas raízes de sua lôngeva parceria com James Gordon.

Agora, com a conclusão da trilogia de Nolan em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, encerra-se mais uma releitura do mito do Homem Morcego, que não deve demorar muito para voltar às telonas em um novo reboot sob a direção de outros realizadores. Enquanto isto não acontece temos os quadrinhos para nos suprir da mais recente reinvenção de Batman sob a forma da graphic novel Batman Earth One (e pode apostar que sonoridade semelhante a “Year One” não é mera coincidência).

Escrita por Geoff Johns, um dos principais responsáveis por moldar e revigorar o Universo DC na última década, e ilustrada pelo respeitado Gary Frank, a nova versão da origem e dos primeiros dias do Cavaleiro das Trevas bebe de muitas fontes, incluindo os três filmes de Nolan, mas faz de tudo para não parecer apenas uma adaptação e compilação do que já foi visto nos cinemas e nas HQs das últimas décadas.

Batman, o mascarado trapalhão

O novo Batman desenvolvido pela dupla já aparece nas primeiras páginas cometendo uma série de erros, quase trapalhadas, enquanto persegue um criminoso pelas ruas e telhados de Gotham City. Após uma primeira atuação desastrosa, as páginas seguintes voltam alguns anos no tempo para acompanharmos toda a série de eventos que levaram o jovem Bruce Wayne a iniciar sua busca por vingança.

A impressão que “Earth One” passa é a de que Johns buscou surpreender o leitor a cada página, apresentando informações sobre cada personagem e elemento da mitologia do homem morcego que brincam e subvertem nossas expectativas com relação a eles, embora mantendo-os essencialmente os mesmos, em sua maioria. Este é o principal mérito da obra, que consegue ser um produto diferenciado conforme revela mais peças do novo cenário e do elenco que se desenvolve diante de nossos olhos. Assim, apesar de reconhecermos muitos nomes e rostos, aquilo que sabíamos sobre eles pode estar completamente errado. Esperem, portanto, um Alfred que passa longe do mordomo requintado, cujo sarcasmo e tiradas certeiras aprendemos a amar ao longo dos anos.

A verdade é que é difícil falar de “Earth One” sem estragar várias surpresas. Por isto, tentarei citar as mais amenas, e insinuar as mais radicais.

Começemos com as que se relacionam direta ou indiretamente aos filmes de Christopher Nolan. Semelhante à trilogia cinematográfica, Lucius Fox é o responsável pela manutenção dos equipamentos do Batman. Mas, diferente de suas versões anteriores dos quadrinhos e do cinema, ele é um geek que parece ter a mesma idade de Bruce. De início apenas o ajuda a consertar um arpão defeituoso, embora a história já aponte para futuras parcerias.

Lucius Fox, o geek quebra-galho

Outra semelhança com os filmes é a maneira como a trama reforça a culpa de Bruce pela morte dos pais. Se em Batman Begins ele obrigava os pais a saírem de um teatro depois de se assustar com um trecho de uma peça, levando-os ao beco do crime, em Earth One ele sai de um cinema na frente deles, e dá uma trombada com um meliante que passava por ali. O bandido o toma como refém para obrigar seus pais a passarem toda a grana e jóias que carregam, e o resto vocês já conhecem.

Já citei rapidamente Alfred, mas vale a pena entrar em detalhes sobre esta nova versão do fiel mordomo. Pra começar ele é um veterano de guerra, na qual serviu ao lado de Thomas Wayne. É através dele que somos apresentados aos Wayne’s, que o contrataram para cuidar da segurança de Thomas, então em campanha para a prefeitura de Gotham City (isto mesmo!). Apesar de ter a mesma idade de sua versão tradicional, este Alfred tem um visual mais agressivo, físico e porte de militar, e usa uma bengala. Lembra uma mistura de Dr. House com Clint Eastwood. E só daí já dá pra vocês deduzirem quem será o responsável pelo treinamento de Bruce Wayne (oops! falei demais!).

Alfred House Eastwood Pennyworth

Os Wayne’s, por sua vez, ainda guardam outra surpresa sob a figura de Martha Wayne, de quem só posso dizer que tem relação com a família fundadora de um certo asilo.

Outros velhos conhecidos que dão as caras no decorrer da história são Harvey Dent, irmão da amiga e paquera de Bruce na adolescência, Jessica Dent; e Harvey Bullock, outra reformulação completa, que ao contrário de sua versão gorda, comilona e pouco higiênica, é um detetive bonitão, e apresentador de um reality show sobre a vida dos detetives nas ruas das grandes cidades.

Bullock, me passa o nome do spa que você anda freqüentando

Mas, voltando ao Batman, sua primeira missão gira em torno de sua busca pelos responsáveis pela morte de seus pais. Sim, no plural, pois apesar do assassino ser um bandido qualquer, há suspeitas de que tudo fazia parte de uma conspiração do rival de Thomas Wayne na corrida pela prefeitura de Gotham City. E quando finalmente descobrimos quem é o atual prefeito as suspeitas tornam-se quase uma certeza.

Basicamente a história dá um valor ainda maior ao assassinato dos Wayne, pois além de suas mortes serem o gatilho para a transformação de Bruce em Batman, uma das conseqüêcias do crime é o aumento da corrupção da cidade. Outro que é afetado pelo caso é Gordon, que teve uma pessoa muito querida assassinada como um aviso para que ele parasse de investigar a morte do casal.

Até aqui acredito que deu pra vocês encontrarem outra característica da trilogia do Nolan incorporada ao trabalho de Johns: tratar Gotham City com um microverso de relações consangüíneas, sociais, e de causa e efeito mais intrincadas e autocontidas, algo que é reforçado pela história, que não apresenta nenhuma menção a outros heróis, vilões e cenários do Universo DC.

Batman e Gordon começando muito bem sua longa parceria

Também é preciso elogiar o trabalho de Gary Frank nos desenhos. Seu forte são as expressões faciais e corporais, muito bem utilizadas ao longo da narrativa. Sua diagramação não apresenta nenhum grande invencionismo mas, aliada ao visual realista e muito direto com que desenha os personagens, os cenários e as ações, detalhando apenas quando necessário, seu estilo convencional de contar a história ajuda a estabelecer o tom “pé-no-chão” almejado por Geoff Johns, além de tornar a violência mais seca e brutal quando ela surge na história.

     E, como toda boa história em quadrinhos, a trama fecha com vários ganchos para o futuro, incluindo uma dica muito explícita sobre o possível vilão do volume 2, que a julgar pelo que já foi feito com um deles neste primeiro, promete outras ótimas surpresas.

Batman indo à sua primeira reunião dos Alcoólicos Anônimos

Batman Earth One por enquanto não tem previsão para ser publicada no Brasil, mas, considerando o personagem e a dupla criativa envolvida, acredito que não vá demorar. É um ótimo ponto de partida pra quem torceu o nariz para o reboot da DC, ou para aqueles que estão a fim de ler uma história do Batman sem esquentar a cabeça com décadas de cronologia. Para os que não têm problemas com inglês, a edição importada em capa dura vale o investimento. E, se você não está afim de esperar até que a Amazon entregue em sua casa ou a Panini resolva publicar, eu sei que vai encontrar um outro jeito de ler. 😉