[ANIMES] WELCOME TO NHK (ou bem-vindo à forever alonice)

Existe um problema muito sério de saúde pública no Japão (na verdade no mundo todo, mas apenas no Japão tem uma palavra para isso) chamado “Hikikomori”, que são adultos entre 20 e 40 anos que não saem do quarto.

Não do tipo “ele é caseiro”, e sim a níveis patológicos mesmo. Alguns sequer vão ao banheiro caso não morem em uma suíte. Oficialmente o governo japonês estima que 700 mil homens (majoritariamente) desistiram da vida externa. Acredita-se que esse número é pelo menos o dobro, já que muitas famílias têm vergonha de admitir o problema publicamente.

Welcome to NHK (NHK ni youkoso no original) é um anime de 2006 do estúdio Gonzo (Gantz, Helsing) sobre este tema

NO SEU QUARTO, NINGUÉM PODE TE OUVIR GRITAR. ATÉ PODE, MAS NINGUÉM LIGA

Uma coisa que todo homem aprende bastante cedo é que não existem almoços grátis. Se você não correr atrás de tudo na vida – emprego, relacionamentos, amizades – ninguém vai fazer isso por você. Com efeito, a sociedade não tem muito receio de dizer na sua cara que você é um recurso excedente, e que se você não fizer por merecer, você morre sozinho em seu quarto e ninguém tá pouco se fodendo.

Agora isso na nossa sociedade. O Japão é o hard mode disso, que funciona em um sistema de “passar ou falhar”, onde os fracos não têm vez. Satou Tatsuhiro está no grupo dos fracos.

Sem sair do seu quarto há quatro anos, desempregado, tendo largado a faculdade, a vida não parece muito promissora para Satou. Como desgraça pouca é bobagem, seu vizinho do lado ouve músicas de anime no último volume dia e noite, e Satou não consegue sequer ir bater na porta do sujeito para mandar ele baixar essa porra, já que isso envolveria sair de casa (mesmo que seja na porta do apartamento do lado) e falar com alguém.

Esse é nosso protagonista. Pouco surpreendentemente, Satou está enlouquecendo progressivamente ao ponto de chegar à conclusão de que tudo de errado na vida dele é uma grande conspiração causada pela N.H.K, que é uma sigla para “Sociedade japonesa dos hikikomoris”. O grande trocadilho aqui é que NHK é a maior rede de televisão japonesa. O nosso equivalente aqui seria dizer que é uma grande conspiração armada pela G.L.O.B.O.

Em uma situação normal, Satou acabaria eventualmente se forçando a sair de casa e trabalhar quando a mesada dos pais acabasse, ou simplesmente se suicidaria – pode ir para qualquer um dos lados com relativa naturalidade.

O elemento fantástico do anime para quebrar o status quo é quando uma menininha “magicamente” se interessa por Satou, e decide ajuda-lo a se reintegrar a sociedade. Como alguém que passou por uma situação muito parecida, eu posso garantir que esse tipo de coisa não acontece na realidade (muito menos por uma garota bonitinha). Mas, hey, se fosse para ser realista nem teria anime, né?

SOBRE SAIR DE CASA SEM SAIR DE CASA

De modo bastante geral, Welcome to NHK é uma dramédia. Os episódios giram mais em torno de Satou tentando, de forma muito atrapalhada, dar um jeito na sua vida, do que é sobre seus problemas sociais em si, à exceção do primeiro episódio. É compreensível, acho muito difícil fazer um anime de 24 episódios sobre um cara que não sai de casa – até dá, mas é difícil pacas.

Então a maior parte da série é sobre Satou tentando todo tipo de esquema que ele consegue imaginar para sobreviver de qualquer forma que não envolva sair de casa e falar com pessoas (o que eu compreendo totalmente), seja tentando criar uma visual novel; seja tentando ganhar dinheiro farmando gold em um jogo online (muito parecido com Final Fantasy XI). Todas essas tentativas acabam em algumas confusões, e de uma forma ou outra acabam ajudando indiretamente no processo de Satou de se reintegrar a sociedade.

DOIS PASSOS PARA FRENTE, UM PARA TRÁS

A coisa mais interessante sobre o anime, no entanto, é o realismo dos seus personagens. A característica mais marcante (e melhor, de um ponto de vista narrativo) é o quanto ele é irritante. Quando você acha que ele está progredindo e “agora vai!”, bam!, ele dá um passo atrás.

Isso frustra bastante, mas é exatamente assim que é o processo de recuperação de pessoas com problemas mentais tratáveis. É um saco. Não me admira que a maior parte das pessoas não tenha paciência para ficar perto de gente assim. Só que não existe formula mágica, é exatamente assim que é: uma melhorazinha e uma recaída quase à estaca zero.

Satou essencialmente é uma boa pessoa, mas ele também é profundamente preguiçoso, desleixado e egoísta. Observá-lo melhorar um pouco e então quebrar a cara é exasperante, mas nós vemos um tipo de progresso sutil mas tangível em seu comportamento que um terapeuta poderia observar. Na verdade, não há cura fácil para qualquer problema, e seu progresso lento e frustrante torna o show especialmente gratificante de assistir no momento em que termina.

Como Satou, os outros personagens do anime são frustrantes, porém estranhamente gostáveis. O maior destaque vai para o seu amigo Yamazaki (que é um otaku inveterado, mas, quebrando muitos clichês, é o personagem mais equilibrado emocionalmente do anime todo), e a misteriosa Mizaki, que é a menina que decidiu ajudar ele sem revelar muito sobre ela.

Mizaki é particularmente interessante de se assistir porque, por mais que ela pareça bem intencionada, você percebe (e Satou também) que ela é só uma adolescente que não sabe porra nenhuma da vida. Ela nunca teve um emprego, um relacionamento ou sequer um cartão de crédito. O quanto alguém assim pode dizer a um adulto sobre como ele deve viver sua vida é extremamente limitado, e com o tempo você começa a entender que a tentativa de ajuda dela é mais para ajudar a si própria. É uma personagem complexa e bem construída, ainda mais considerados os padrões não exatamente altos que encontramos em animes

SUICÍDIO, DEPRESSÃO E PEITOS

O Fan service é uma presença bastante constante no anime, mas, neste caso, é plenamente justificado: quando você tem a vida sexual equivalente a de uma pedra-pomes há muitos e muitos anos, é muito difícil falar com uma menina de saia sem babar em cima da mera visão das pernas da coitada. Não é agradável de se ver, mas é assim que é.

Isso faz de Satou um personagem meio nojento às vezes, mas essencialmente realista.Como dizem, sexo é uma daquelas espirais negativas que, quanto menos você tem, menos chance ainda você vai ter no futuro.

Com efeito, eu não lembro de um anime ser tão sincero sobre o quanto alguém nessa situação se masturba. Mais uma vez, é o que torna o protagonista bastante patético, porém realista, e esse é meio que todo o ponto aqui.

Só que, quando não está versando sobre o quão baixo nosso herói pode chegar em seu patético relacionamento com o sexo oposto, o anime tem temas muito interessantes a serem tratados. Depressão crônica, suicídio, problemas financeiros extremamente graves. Mais do que isso, os argumentos dos personagens são plausivelmente relacionáveis, e todo mundo pode se identificar com a forma de pensar em um momento ou outro.

Adicionalmente, eu não lembro de um anime em que os personagens fossem essencialmente pobres. Nos animes, usualmente, algumas coisas como casa, comida e etc sempre estão lá. Aqui Satou, e ocasionalmente Yamazaki, não só tem que se preocupar muito em como pagar as contas do próximo mês, como isso é um aspecto fundamental na narrativa.

UM ANIME DE 24 EPISÓDIOS COM FILLER. AGORA EU JÁ VI DE TUDO MESMO.

Welcome to NHK tem um grave, enorme problema estrutural, no entanto. O anime é baseado em uma light novel que daria uns 12-15 episódios, no máximo. O estúdio Gonzo decidiu esticar para 24, e encheu esse meio campo com filler.

Se fosse feito do jeito certo, tudo bem. O problema não é não ser fiel ao material original – estou cagando pra isso – o problema de verdade é que ficou na cara que um terço da série é sobre nada levando a lugar nenhum, apenas para encher linguiça. Sério, o arco de episódios sobre o RPG online, e sobre o esquema de piramide financeira em que Satou se mete podem até fazer sentido teoricamente, mas foram feitos com uma falta de vontade e tesão tamanhas que derrubariam a taxa de  natalidade japonesas se isso fosse fisicamente possível.

A quebra de ritmo e evolução da história são tamanhas que acabam prejudicando uma experiencia que, de outra forma, seria bem mais profunda e verdadeira.

Bem-vindo a NHK” é um must-see para qualquer pessoa interessada em aprender sobre os lados mais obscuros da sociedade – no sentido de que pouca gente se interessa por contar a história desse tipo de perdedor. É esclarecedor e, no entanto, também deprimente e perturbador.

No entanto, é um show único que se desdobra e se comporta como nenhum outro. Mesmo que uma pequena revisão extra e uma edição mais cuidadosa pudesse tê-lo tornado um pouco mais forte, ainda é uma das melhores críticas sociais feitas em anime que eu conheço (verdade seja dita, que não é exatamente um gênero muito amplo).