[ANIMES] SAILOR MOON CRYSTAL (resenha) 1a Temporada

pretty guardian sailor moon crystal coverUma das vantagens de ficar velho é que você passa a se preocupar menos com as tendencias do mundo, e passa a achar tudo apenas engraçado. Uma das desvantagens é que você não tem mais paciência para ouvir as novinhas falando mais que três palavras, mas hey, eu não disse que era um jogo equilibrado.

Agora em dezembro terminou um dos melhores desenhos animados da história da televisão, A Lenda de Korra, e como eu havia apontado, o que a maior parte das pessoas absorveu de uma obra tão boa foi o chilique por não ter rolado uma colação de velcro explícita (e desnecessária, caso você tenha efetivamente assistido alguma coisa). O que foi particularmente engraçado, porque eu lembrei que não faz muito tempo assim (ok, 20 anos, já é um tempinho sim) era exatamente o oposto que acontecia. Estou falando, é claro, de Sailor Moon.

sailor moon lesbians

Sailor Moon era lesbian-chic muito antes disso ser modinha

O anime Sailor Moon possuía sua cota de casais homossexuais, mas talvez você não lembre disso porque a viadagem do anime foi eliminada na dublagem (na dublagem americana, diga-se de passagem, DESSA VEZ o estúdio brasileiro até que é inocente, porque só pegou o material gringo). Logo na primeira temporada tinha um casalzinho queimador de rosca a fu, mas então o Zoicite foi dublado como sendo uma mulher, para agradar a moral e os bons costumes da época, e ninguém, a não ser otakus onanistas e menininhas que escrevem fanfic, reclamaram disso. Mais para frente na série tem um casal de namoradas que, na dublagem, viraram primas, e qualquer menção ao relacionamento delas foi apagado da história.

Essa é a parte engraçada da vida que você só aprecia ficando velho: as pessoas que acharam “de bom gosto” eliminar a bichornagem de Sailor Moon, são as mesmas que rangeram dentes por não ter uma cena explicita de capôs de Fusca se batendo em Korra, e provavelmente serão as mesmas que votarão em Marco Feliciano para presidente (ah, não duvide por um único momento que isso vai acontecer).

Foi com esse pensamento que eu me perguntei uma coisa: falando nisso, como anda Sailor Moon? Ora, sem muito alarde, agora em janeiro terminou a primeira temporada do remake – Sailor Moon Crystal – e talvez eu devesse dar uma olhada em quantas anda isso. E foi o que eu fiz.

Pode parecer estranho dizer isso hoje, mas Sailor Moon já foi um dos animes mais importantes da história da televisão. Soa estranho, porque sua popularidade não é nada comparado a um Dragon Ball Z ou um Neon Genesis Evangelion da vida, e as pessoas meio que tem que franzir a testa para lembrar das meninas vestidas de marinheiro, mas Sailor Moon já foi uma grande coisa – tanto aqui quanto na nihongolandia.

serena wants the d

Serena wants the D!

A primeira vez que eu ouvi falar desse anime foi na capa do jornal da minha cidade onde dizia “Menina chorona substituíra os Cavaleiros do Zodíaco”. Naquela época, Cavaleiros do Zodíaco era uma grande coisa na televisão, um fenômeno de audiência e tal, então causou muita surpresa que, em seu horário, a rede Manchete colocaria no ar um anime mais diferente possível.

E confesso a vocês que, na época, eu gostava de Sailor Moon mais do que seria esperado da sociedade para um garoto. Mas, então, eu vou repetir que My Little Pony: Friendship is Magic é um dos desenhos mais legais da televisão, e você pode ir lamber um sabão neutro. Continuando, Sailor Moon era mais ou menos o equivalente de Cavaleiros do Zodíaco, só que para meninas: um anime fraco, formulaico, e que não resiste ao teste dos 15 anos.

SM tem uma história de desenvolvimento interessante: em determinado dia, a Toei Company teve uma ideia de como faturar outros 57 quadrilhões de ienes (aproximadamente 27 centavos pela cotação atual da moeda japonesa). Eles sabiam que suas histórias de esquadrões coloridos lutando pela justiça (Tokusatsu para os íntimos, Power Rangers para os leigos) eram extremamente populares entre os meninos, e se eles conseguissem fazer o mesmo efeito com as meninas, sua ceia de natal estaria repleta de Chester.

serena chorando

Verdade seja dita, eu gostaria que Sailor Moon Crystal tivesse mais disso

Por isso eles pegaram o mangá de Naoko Takeuchi, e transformaram de acordo com o padrão Toei de animações. Sailor Moon era um anime protagonizado por meninas, mas com um esquema padrão dos animes para meninos (shonen).

Tinha um vilão de pura maldade, quatro generais malignos, episódios baseados em “monstro do dia”, e tudo se resolve em uma progressão de lutas, até culminar em uma batalha final épica. Repare que o esqueleto de Sailor Moon, o anime dos anos 90, é o mesmo de Digimon ou de Cavaleiros do Zodíaco, porque esse é o método Toei de fazer as coisas. O que, para a época, foi um enorme sucesso em escala mundial, tanto que popularizou e se tornou ícone de um gênero inteiro: o de meninas mágicas transformadoras (mahou shoujo). Quando a sua obra é parodiada à exaustão, e você se torna sinônimo de todo um gênero, é sinal de que alguma coisa certa você deve ter feito (ou apenas que estava no lugar certo na hora certa, e seu nome não é Johnny, pode ser isso também).

Mas a pergunta que realmente importa neste exato momento é: 20 anos depois, Sailor Moon ainda é relevante?

Bem, eu suponho que realmente não preciso apresentar Sailor Moon. Todos fazem mais ou menos ideia de que, um dia, a menina pateta e chorona Serena (vou usar os nomes da dublagem ocidental, guarde seu chilique otaku para alguém que se importa) encontrou uma gata falante, ganhou poderes de virar uma power ranger guerreira Sailor, e combate o mal em seu uniforme abusivamente curto de marinheira junto com suas amigas de salto alto. Serena, na verdade, é a reencarnação da princesa Serenity do reino da Lua, que veio a perecer (sim, o reino morreu, não pergunte), e seus habitantes reencarnaram na Tóquio dos anos 90.

sailor moon manga cover

Capa do manga original. Rob Liefeld se apaixonou por essa mulher. (fato curioso: apesar do amor de Liefeld por sua arte, Naoko Takeuchi acabou se casando com Yoshihiro Togashi, mangaka criador de Yu Yu Hakusho e Hunter x Hunter)

Dito isso, a série original alternava entre o esquema “monstro do dia”, palhaçadas/romance água com açúcar censura livre, e combates contra o mal. Ou seja, a Toei fazendo seu feijão com arroz básico.

Quando foi anunciado que o remake seria mais fiel ao mangá eu não dei muita bola. Eu nunca li o mangá (se mais nada, porque o traço da dona Naoko Takeuchi é mais feio que encoxar a mãe no tanque, eu já não gosto de mangá shoujo, mas essa mulher consegue desenhar verdadeiras garotas propaganda do ebola), mas não achei que seria tanta diferença assim.

Obviamente eu ganho o troféu João das Neves, pois não sabia de nada.

Embora os primeiros episódios sejam praticamente idênticos aos da animação dos anos 90 (quando Serena descobre seus poderes, encontra Amy, Lita e Rei), é apenas uma versão HD 2014 da mesma animação – e, por isso, a primeira metade dos 13 episódios não é realmente lá grande coisa. Até porque, ser mais fiel ao mangá quer dizer que o traço das personagens parece mais com o do mangá, e elas são feias pacaraio. Da metade até o final, quando elas enfrentam a Rainha Beryl no Ártico, não tem como dizer que é sequer a mesma obra, e claramente a animação dos anos 90 foi tão baseada nos mangás quanto o filme “Eu, Robô” foi baseado no livro de Asimov.

Não existem os clichês clássicos Shounen (tipo, ir enfrentando e derrotando um a um os quatro generais inimigos), nem o esquema “monstro do dia”, em todo episódio ACONTECE alguma coisa relevante para a história (embora, às vezes, esse “acontece” seja passar o episódio todo mimizando no chão). Pra você ter uma ideia, a série original tinha 46 episódios, esta tem 14 (o episódio 14 termina exatamente com o aparecimento da Chibiusa, que é o ponto em que Sailor Moon R começa). Imagine o quanto de gordura se cortou aí, e não estou falando do visual anoréxico das meninas.

O que é bom, porque me pareceu estranho ver que Sailor Moon tinha realmente alguma coisa para contar, e como a animação faz isso sem enrolação. Antes da metade da série, por exemplo, elas já recuperaram suas memórias da época do Reino da Lua – algo que só acontece lá pelo episódio 40 e poucos da série original, quase no final. Isso é bom, porque ao contrário da versão dos anos 90 repleta de fillers enchedores de linguiça dá a entender, Sailor Moon tem realmente alguma coisa a contar.

SAILOR MOON E AS SAILORS PAPELÃO

sailor moon crystal

Sem exagero que em alguns episódios essa é meio que a única fala delas

Ter bastante o que contar em poucos episódios é bom, porque dá o que assistir, e corta a encheção de linguiça, mas não vem sem um preço: praticamente não há muita coisa sobre desenvolvimento de personagens. Com exceção do único episódio em que as Sailors Planetas são introduzidas, em nenhum outro momento elas têm qualquer tempo de atenção para elas, e se limitam a ser um grupo de guerreiras genéricas com poderes meia boca lutando para ajudar a princesa (que no final resolve tudo sozinha). Ao contrário do que acontecia bastante na série dos anos 90 (ou na maioria dos animes com 50 episódios), não tem um “episódio da Rei”, um “episódio da Lita” e assim por diante.

Com efeito, se substituíssemos as outras Sailors por posteres de papelão, não haveria muita diferença na série. A Serena recebe um pouco mais de atenção do que as outras, mas, normalmente, ela está ocupada demais desenvolvendo alguma função narrativa para ser o seu “eu” usual patetona e atrapalhada (o que é tão imbecil, que chega a ser sincero e cativante, mas são poucos momentos assim).

De certa forma, Sailor Moon Crystal, no que tange aos personagens, me lembrou os mesmos defeitos da 8ª temporada de Doctor Who: os personagens estavam ocupados demais tocando a história para frente para poder relaxar e serem eles mesmos (sendo que, até agora, não dá para ter muita certeza de que tipo de pessoa é o 12º Doutor ou sua Companion, além de uma modelete bonitinha). Isso funciona bem em obras de 13 episódios carregadas de história, e que a história é tão boa que compensa isso, como Madoka Magica ou Kill la Kill, mas Sailor Moon também não é essa Coca-Cola toda de conteúdo, não pra se dar ao luxo de não se agarrar ao carisma dos personagens.

tuxedo mask bocando as novinhas

Eu posso não ser um especialista em beijar novinhas inconscientes, mas acredito que o garotão aí quebrou alguns dentes da frente de um dos dois

O desenvolvimento principal da série gira em torno do relacionamento de Serena com Tuxedo Mask (sim, eles têm um relacionamento, não aquelas putarias infantis de anime de “ai, gosto dele, mas vou agir como se não gostasse e nunca vou tocar no assunto”), mas não ajuda muito que o moreno mascarado não tenha lá muita personalidade. De fato, a coisa mais relevante sobre ele é que, nesta versão, fica bem claro que ele não tem porra de poder nenhum, é só um maluco pagando grau no meio de monstros e meninas que soltam raios e lançam chamas.

Isso meio que responde uma piada clássica sobre Sailor Moon: por que o Tuxedo Mask ajudava tão pouco? Porque ele é só um humano comum, se ele levar 1/8 das piabas que as meninas mágicas levam regularmente, ele morre. É por isso. Agora muita coisa faz sentido.

AS NOVINHAS TRINTONAS

fuck physics!

Porra Serena, esse cristal nunca vai caber aí e…

O que mais me chamou atenção neste anime foi o quanto ele envelheceu em tão pouco tempo. Mesmo com toda pirotecnia da animação, o anime dá sinal de idade, e coisas que eram comuns há 20 anos atrás, quando o mangá foi escrito, hoje são peças de museu. Por exemplo, ter uma personagem cujo maior sonho é se casar, ou outra dizer que usaria tal roupa para agradar o marido, ou ainda uma menina ser beijada por um cara enquanto ela está inconsciente, eram coisas perfeitamente normais nos anos 90, mas seriam consideradas profundamente ofensivas nos dias de hoje.

Não fosse um mangá daquela época, e sim uma obra original, os responsáveis seriam apedrejados em praça pública por ir contra a agenda feminista politicamente correta vigente. Coisas dos anos 90.

Mas a verdade é que femimimismo à parte, Sailor Moon não é sequer importante hoje como foi há 20 anos atrás. Tudo que a série tem para contar, mesmo o material original do mangá, que foi modificado para virar um anime de luta com meninas, já foi feito antes, repetido à exaustão, e com certeza feito melhor em algum outro lugar nestas duas décadas. Desconsiderando o valor histórico de Sailor Moon para os animes, a verdade é que, como uma animação de 2014, as aventuras de Serena bocaberta não têm realmente nada de especial, nada que já não tenhamos visto melhor em diversos outros lugares.

... mas vejam só ... macacos me mordam...

… mas vejam só … macacos me mordam…

Não é ruim realmente, mas em toda sua breguice, drama, tragédias e contos de amor que não dão certo, é bonitinha. É assistível, mas é apenas “bonitinha”, sabe? É engraçado pensar que Sailor Moon hoje parece um anime comum e genérico por causa dos clichês que ELA MESMA criou 20 anos atrás. É como dar uma festa na sua casa, e começar a aparecer tanta gente, que uma hora alguém te diz “você não pode entrar, ninguém te conhece aqui”.

DETALHES TÉCNICOS

serena erro animação sailor moon crystal

Sério, normalmente não dou bola pra coisas como isso, mas o bastante é o bastante…

Usualmente eu não costumo encher o saco com esse tipo de detalhe, mas neste caso em particular vou ter que falar disso. Eu realmente não me lembro de ter visto uma animação tão irregular em toda minha vida, a um ponto que chega a impressionar. Se em algumas cenas o anime parece que foi feito em OVA, com 10 anos de trabalho (a qualidade do uso da computação realmente impressiona), no quadro seguinte a animação é tão porca e preguiçosa que parece ter sido feito na Coreia do Norte. Sério, tem cenas que nem parece que você está assistindo o mesmo anime, de tão diferente que é o estilo dos personagens de um quadro para o outro.

Coisas do tipo até o final da série não terem decidido a altura da Lita (algumas horas ela é alta pra caralho, em outras ela é menor que a Mina), mostra o quão nas coxas foi o controle de qualidade da Toei nesse anime. Sério gente, faz favor, não vem me dizer que faltou verbas para animar Sailor Fucking Moon! Depois disso, só falta me dizer que não saiu o remake de Final Fantasy VII por falta de interesse dos fãs!

Ah sim, a trilha sonora interna do anime também é ótima, e cria cenas belíssimas, mas o que é aquela abertura? Trocar Moonlight Densetsu, que é uma obra-prima, por uma abertura genérica de anime com letra feminista? Ah vá, tá certo que isso é a cara de 2014, mas qualé gente…

nota-2