[ANIMES] PSYCHO-PASS: quando Blade Runner encontra Minority Report

psycho pass poster

SINOPSE

Imagine por um momento que o futuro se tornou o sonho molhado de qualquer esquerdista: o Estado controla todo o destino das pessoas, desde o momento em que elas nascem em nome da felicidade coletiva. A profissão, quais bandas são permitidas tocar, quais shows são permitidos serem mostrados, os lugares que as pessoas podem ir, e se bobear até a hora que elas precisam ir no banheiro.

Para esse fim, o governo institucionalizou um sistema chamado “Sistema Sibila” (como a profetiza da mitologia grega) que mede os padrões mentais do individuo – o tal Psycho-Pass do título – e não só determina as escolhas como a periculosidade do individuo para a sociedade. Se em determinado momento da sua vida (e esse momento pode ser até mesmo na primeira infância) o sistema entender que seu psycho-pass ficou “sujo” além de recuperação, a vida do sujeito acabou. Você passa o resto da vida na prisão, até que sua sanidade deteriore de vez, e você seja considerado perigoso demais para ser mantido vivo.

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Dra. Ritsuko Akagi e os Turks da Shinra… não, espera!

Existe uma única outra opção para alguns poucos dos psycho-pass “sujos”: trabalhar para o departamento de segurança como cão de caça, ou seja, fazer o trabalho sujo e impactante de policial (levar tiro, ver as atrocidades, matar pessoas) para que os detetives (e cidadãos) de verdade não precisem “sujar” seu psycho-pass com isso. Vulgo “Justiceiros”.

A história do anime gira em torno do justiceiro Shinya Kougami e da detetive novata Akane Tsunemori (que NÃO são um casal, é pra glorificar de pé igreja!), que logo nos seus primeiros dias de trabalho na Divisão 1 acaba se deparando com um serial killer que, de alguma forma, consegue enganar o Sistema Sibila, e fazer as maiores atrocidades sem que isso interfira negativamente no seu psycho-pass.

ANDROIDES SONHAM COM MENINAS MÁGICAS

O roteiro do anime foi escrito por Gen Urobochi, o mesmo ninja que escreveu Madoka Magica e Fate/Zero, e animado pelo Production I.G, o mesmo estúdio por trás de Ghost in the Shell 1 e 2. Ou seja, temos uma equipe de respeito aqui, e ela cumpre as expectativas.

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Obviamente a sociedade do futuro ainda permite que as pessoas assistam True Detective, essa é minha definição de distopia…

Sob muitos aspectos, a animação e o cenário lembram Ghost in the Shell – sobretudo o 2, que é um dos animes mais belos que eu já vi… apesar de ser vazio de conteúdo – sem parecer apenas uma cópia. A trilha sonora também é acima da média (lembra um pouco a excelente trilha sonora de Tokyo Ghoul).

Pela parte de Gen, ele dá o exatamente o que esperamos dele: a premissa é uma isca, e se transforma em algo muito mais complexo, narrado de uma forma sólida e competente.

Aqui o grande tema do anime é a discussão filosófica: queremos uma sociedade livre ou queremos uma sociedade ordeira e funcional? Dependendo do seu ponto de vista, você pode torcer para os detetives ou para o vilão, e não raramente isso pode mudar algumas vezes ao longo do mesmo episódio.

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“Então, dona vitima… o cara tentou te estuprar, e a gente explodiu as tripas dele em cima de ti, essa é a noticia boa. A noticia ruim é que a experiencia traumática te causou um padrão mental indesejado, então você está presa.”

Sendo o vilão um intelectual como é, não é surpresa que ele cite vários autores durante o anime – algo similar a Ghost in the Shell 2 – e inclusive ele mesmo comenta que ele definiria a sociedade atual como uma mistura de Philip K. Dick e o seu “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas” com George Orwell e o seu 1984.

O anime também tem muito da adaptação cinematográfica de Androides Sonham com Ovelhas Elétricas, Blade Runner, ao ser um thriller policial noir em um cenário cyberpunk. Felizmente, ao contrário do que acontece com Blade Runner, o ritmo aqui é bem melhor, e não falta ação, momentos tensos, escolhas morais, e coisas acontecendo – sem perder o clima noir.

Uma coisa que eu gostei – e que é bem o estilo de Gen Urobochi – é que as coisas não podem ser classificadas entre bem e mal, heróis e bandidos. Certo que os detetives estão perseguindo um cara que é terrivelmente cruel, mas não se pode dizer que ele não esteja lutando a boa luta. Por outro lado, ao mesmo tempo, por mais desprezível e opressor que o sistema Sibila seja, não se pode negar seus resultados, e as pessoas nunca estiveram tão felizes em uma sociedade que não é baseada em desconfiar de outros seres humanos (com efeito, as pessoas até perderam o hábito de trancar suas casas, porque se alguém mal intencionado saísse na rua, isso seria detectado em seu Psycho-Pass, e ele seria preso imediatamente, apenas pelas más intenções). É um tema complexo e bem construído, e você não tem certeza para qual lado “torcer”, feito de uma maneira boa.

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Está condenado ao explodimento porque a arma mandou! E o camarada Estado nunca erra!

De uma certa forma (e alguns personagens expressam esse mesmo pensamento), fazem você sentir a sensação que causa o Kyubei de Madoka Magica: “eu quero socar esse cara, mas não tenho nenhuma razão lógica para discordar dele”.

Psycho-Pass é exatamente o que se poderia esperar de um anime de Gen Urobuchi: bom ritmo, inteligente, coerente, e faz você pensar sobre valores pré-estabelecidos.

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Se Gen Urobochi é mestre em construir cenários e elementos para desconstruí-los de forma brilhante, ele tradicionalmente não é tão brilhante assim em construir personagens, e a força das suas histórias não reside exatamente na qualidade de seus protagonistas, e esse é o maior problema de Psycho-Pass.

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Vincent e Spike em um duelo e… não, espera!

Os personagens são ok e cumprem sua função, mas são extremamente sem brilho. Depois de uma semana de ter assistido o anime, duvido que eu vá lembrar o nome de algum deles. E uma série de 22 episódios de clima noir não funciona jogando toda a responsabilidade nas costas do cenário.

Mesmo as questões morais e filosóficas, que no papel são geniais, perdem bastante da sua força, porque você não consegue se importar tanto assim com os personagens. Psycho-Pass é regular e competente, mas em nenhum momento chega a ser brilhante neste aspecto, e isso meio que compromete toda a experiencia. Eu quero regularidade e competência do pedreiro que fez a parede da minha casa, dos meus animes eu gosto de esperar um pouco mais.

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Yagami Light e L… não, espera!

À altura dos personagens, os diálogos também não são assim tão inspirados, e às vezes parecem meio pedantes – do tipo personagens citarem filósofos e escritores antigos, apenas para parecer cool, porque nada no personagem indica que ele falaria isso por qualquer outro motivo.

No fim, Psycho-Pass não é, de forma nenhuma, perda do seu tempo. É inteligente, questionador, bacana, cyberpunk noir é algo raro hoje em dia, e o tema é bem explorado. Mas em nenhum momento chega a ser brilhante ou memorável.

Uma série boa e sólida que cumpre o que promete, diverte desde que não se espere demais dela.

nota-3

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