[ANIMES] OVERLORD (ou o Senhor das Trevas não tem pinto)

Posso dizer com certeza absoluta que nesses vinte e … err, tantos… anos que eu assisto anime, poucas vezes eu vi uma ideia tão interessante quanto a de Overlord. Momonga era o nome de usuário do líder da maior guilda de um RPG online de realidade virtual (mais como um D&D virtual coletivo mesmo do que um MMORPG na verdade) chamado Yggdrasil.

Após muitos anos, o jogo foi descontinuado e seus servidores seriam desligados. Momonga (porque, vamos ser sinceros, não é um RPG de verdade se você não der um nome retardado para o seu personagem) decidiu ficar até o último momento para se despedir do jogo. O que é uma coisa bastante comum até. Mas, então, deu meia-noite e o servidor foi desligado, só que Momonga não foi desconectado do jogo. Pelo contrário: os NPCs da guilda ganharam vida, e a fortaleza foi transportada para um mundo de fantasia medieval. Algo como “Uma noite no museu” encontra “Sword Art Online” que encontra “Guerreiras Mágicas de Rayearth“.

Tá, e daí? Não parece tão incrível assim…

Calma. Momonga ficou preso nesse outro mundo na forma do avatar do seu personagem, um lich badass. E agora que vem a coisa legal da ideia: todos os NPCs da guilda foram criados como monstros – porque é isso que gamers acham maneiro – e agora que eles ganharam vida de verdade agem como tal. O que significa que Momonga é o overlord de um bando de vilões.

Melhorou um pouco, mas ainda sim…

Agora a sacada genial do anime: Momonga tem que agir como o poderoso Senhor das Trevas para ser respeitado por seus lacaios, mas, por dentro, ele é só um nerd gamer bonzinho. Então a grande graça da coisa é ver ele botando a banca de vilãozão quando ele é mais molenga do que eu e você juntos. Puta merda, que ideia divertida!

Para adicionar mais desenvolvimento à ideia, progressivamente Momonga vai perdendo sua humanidade e incorporando mais e mais a personalidade de Lich.

O elenco de apoio, os monstros que são os NPCs da guilda, também são muito interessantes e diferentes entre si, com traços de personalidade bastante distintos. O traço da Madhouse torna tudo mais agradável ainda. E claro, tem a Sucubbus apaixonada pelo Senhor do Mal que não dá a menor bola pra ela… porque ele é um esqueleto morto-vivo e provavelmente nem deve ter mais um Senhor Eustáquio para selar a Boca do Inferno da moça. São momentos realmente deliciosos de se ver que não tem nada haver com eu ter descoberto ter um fetiche com meninas de boca larga, mas, considerando a minha vida sexual como é, não seria surpresa eu ficar atraído por qualquer coisa vagamente melhor que o Jabba depois de cair em um poço de sangue de xenomorfo.

Enfim, temos aqui todos os elementos para um anime fodasticamente divertido!

Você me convenceu! Esse anime parece bom mesmo!

Pois é, esse anime é ó… uma bosta!

Mas oi?

É. A única coisa mais impressionante que as ideias legais que Overlord apresenta é a velocidade com que o próprio anime as ignora em prol de mediocridade.

Hoje tem! (ou teria, se Momonga tivesse ficado preso dentro do Conan Exiles, pelo menos)

Mas como é pode ser verdade uma porra dessas, Bátima?

Bem, pra começar, tem o protagonista. Enquanto os primeiros episódios passam a ideia de que teremos algo tipo Meu Malvado Favorito versão anime, ou Megamente (dois puta filmes legais, aliás), não é nada disso na realidade. O que você realmente temos é outro bom rapaz super genérico, protagonista overpower que só está ali para representar uma fantasia de poder masculina.

Não tem nada de especial nele. Ele pode parecer mau e badass, mas na realidade ele é o seu típico protagonista bonzinho de anime. Algumas ações dele caem em uma moralidade meio cinzenta, mas isso é só até onde vai.

Ele é muito overpower mesmo? Mas isso não funcionou com o Saitama?

O protagonista ser invencível em tudo funciona na comédia quando o autor sabe o que está fazendo, como em “One Punch Man ” ou “Eu sou o Sakamoto“. Overlord é muito mais um adolescente brincando com seus Comandos em Ação, e um não muito criativo nisso.

Momonga e seus NPCs são tipo nível 100 e todas as outras pessoas daquele mundo são nível 20, no máximo. Então, cada luta é tipo “muhahaha, eu sou tão poderoso, você não consegue sequer tocar em mim”. E aí ele eviscera o cara sem o menor esforço. Nas primeiras cinco vezes que ele faz isso é interessante, mas depois de um ponto é meio que como assistir alguém jogar um jogo na dificuldade ultra-easy.

Não tem nada realmente em jogo, não tem desafio, nada. É de um gary-stuismo tão tedioso que você se pergunta porque diabos a história está se dando ao trabalho de mostrar aquilo. E o pior é que a foderozice do Momonga e sua gangue é feita do jeito mais porco possível, narrativamente falando.

Um dia eu ouvirei essa resposta quando estiver explicando que o MCU é uma coisa ruim para os filmes. Um dia… um dia…

Uma boa narrativa estabelece informações e limites sobre o cenário para o espectador ter a base do que está acontecendo. Você já sabia que Super Saiyajin e o Sétimo Sentido eram coisas fodas antes de aparecerem na tela, a história construía isso junto com você. Em Overlord não, o cara simplesmente faz uma magia que você nunca ouviu falar antes, que funciona com regras que ninguém nunca explicou – o que virtualmente não faz diferença nenhuma se eles simplesmente não inventaram na hora. E assim não tem graça assistir.

Eu entendo que o anime é uma adaptação de uma light novel, e que muita coisa que não faz o menor sentido no anime é explicada no livro. Tipo a vampira que, do nada, tem uma armadura de Valquíria e é uma guerreira foda, mas, tipo, do nada mesmo, porque até duas cenas atrás ela era só uma conjuradora.

Eu não estou entendendo onde esse anime quer chegar, então…

Honestamente, nem ele próprio sabe. Primeiro o anime começa com o conceito do Momonga ser o Overlord do mal e dominar o mundo (mesmo não sendo). Aí, do nada, metade do anime é sobre ele sendo um aventureiro genérico em um anime de fantasia medieval genérica. Então sai de lugar nenhum um arco final de anime shonen sobre salvar um dos seus NPCs e lutar com o poder da amizade de blablabla. Sério meu, te decide!

E quando eu digo que as mudanças são do nada, é do nivel “tirado da bunda” mesmo. Porra!

É, acho que não foi dessa vez então…

Infelizmente não. Pior que eu queria muito amar essa série, porque é uma ideia puta legal mesmo. Só que o risco de tentar coisas novas é que às vezes não funcionam. E como eu já disse outras vezes, o oposto do amor não é o ódio. É indiferença. Eu não posso dizer honestamente que estou clamando por outra temporada. É uma ideia interessante, mas meio que isso é tudo que tem sobre o anime. E eu sinto muito por isso – nós, seres humanos, somos criaturas emocionais. Faça-me sentir algo, e eu vou te amar para sempre. Ou te odiar. Só não me faça olhar com desinteresse e dar de ombros.

A abertura e o encerramento são muito impressionantes, entretanto..