[ANIMES] MADOKA MAGICA: Quando Sailor Moon encontra Buffy… e De Volta para o futuro, Asimov, Kill la Kill, Fausto …

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Se tem uma coisa que eu realmente gosto são desenhos animados que parecem uma coisa infantil e superficial e acabam se mostrando muito, muito mais do que uma olhadela à primeira vista pode dar a entender.

Ao assistir rapidamente algumas cenas de Avatar: The Last Airbender, Digimon Adventure,  My Little Pony: Friendship is Magic ou O Gigante de Ferro sem ter prévio conhecimento do assunto, provavelmente fará você arquivar o desenho na categoria de “meh, eu vejo um dia desses – provavelmente nunca”, sem ter ideia do que você está efetivamente perdendo.

E este é realmente o caso de Puella Magi Madoka Magica, um anime loli colorido e fofinho… que desconstrói tudo que foi estabelecido sobre animes de “magical girls” (sim, isso é um gênero).

A PREMISSA BÁSICA

Garotas Mágicas são meninas pré-adolescentes que ganham poderes para enfrentar as bruxas. Bruxas são “encostos” invisíveis aos seres humanos que fazem eles fazerem coisas terríveis – inclusive se matar. Para se tornar uma garota mágica, uma menina tem que ser escolhida pelo Kyubey – a pequena cria de satã abaixo – e ele realiza um desejo da menina em troca do compromisso dela combater as bruxas.

Imagine dormir a noite com essa coisa (que não pisca) te olhando a noite toda...

Imagine dormir à noite com essa coisa (que não pisca) te olhando a noite toda…

O desejo que ele concede, formando assim um contrato, pode ser qualquer coisa desde um bolo de cenoura, até ser bilionária, ou mudar as leis da física no mundo (tipo: quero um mundo em que a gravidade funcione pra cima). O único limite é o “potencial mágico” latente da garota.

Madoka, a protagonista (ah vá, jura?) é uma garota mágica escolhida com um potencial mágico sem precedentes, e cabe a ela decidir se quer realmente virar uma garota mágica, e o que ela pretende pedir com isso.

Ficou impressionado? Pois é, não deveria mesmo. Essa é possivelmente a história mais clichê possível e imaginada por uma mente nipônica que não esteja sendo pisoteada pelo Godzilla.

Mas é justamente da onde menos se espera… que daí mesmo não sai nada. Só que não nesse caso, mas já chegamos a isso.

ANIMAÇÃO

A primeira coisa que realmente chama atenção em Madoka Magica é a qualidade da animação. Embora o anime esteja satisfeitissimamente bem para uma obra de 2014 com apenas 12 episódios, o grande brilho do anime vem mesmo na hora de enfrentar as bruxas.

Apenas algodões de bigodes enquanto tesouras-borboletas passam por aí... dorgas manolo...

Apenas algodões de bigodes, enquanto tesouras-borboletas passam por aí… dorgas manolo…

Embora as bruxas não existam no nosso mundo real, elas deixam portões por onde se pode entrar nos labirintos que elas criam – dimensões paralelas onde elas existem – e é aí que o bicho pega. Sai a animação tradicional e entra uma animação muito louca de recorte e colagem que, se alguma coisa, lembra um pouco Little Big Planet com Alice no País das Maravilhas, só com que drogas, muitas drogas. E eu realmente quero dizer isso: quando você vê que a menina está atirando com uma pistola .38 do tamanho de um carro em um chumaço de algodão com bigode, é porque alguém andou fumando bastante pra imaginar essas coisas.

Eu realmente achei que já tinha visto de tudo em termos de animes, mas essas cenas me fizeram soltar uns bons “UAT?!?”

Recapitulando até aqui: Madoka Magica é um anime sobre uma menina “escolhida”, que recebe poderes de um bichinho fofinho para combater o mal. Ainda não está impressionado, não é? Que bom, porque não deveria mesmo…

O PULO DO KYUBEY

Só por volta do quinto ou sexto episódio é que o anime começa a mostrar suas verdadeiras cores, e desconstruir de forma muito fodástica tudo que poderíamos esperar de “mais um” anime de menininhas mágicas transformadeiras.

Se lembra do que eu falei agora há pouco (caralho, foi apenas há três parágrafos atrás, procure um médico de você não lembrar!) uma das premissas do anime é que Madoka está decidindo se quer ser ou não uma garota mágica. Ora, e por que ela não iria querer, você me pergunta?

Sfdebris-MadokaMagicaEpisode3Review360Porque ser uma menina mágica que combate o mal é uma bosta, é por isso. Você não tem tempo para ter amigos, namorar, para sua família, suas notas na escola vão a pique, e a possibilidade de ter um destino pior do que a própria morte toda noite. Em resumo, você abandona a sua vida por causa disso.

Parece muito divertido quando a Sailor Moon atira sua tiara no monstro do dia, mas já parou pra pensar quantas aulas a Serena perdeu porque estava salvando o mundo, ou que ela praticamente não tem mais amigos fora do seu grupo de guerreiras sexies? Ao contrário do que pode parecer, não é uma escolha fácil ou leviana, não é algo do tipo “yay, vamos nos divertir”, não tem nada divertido em ter suas tripas rasgadas por garras quase toda santa noite.

Essa desconstrução, esses impactos realistas na vida de uma adolescente, acabam lembrando muito Buffy – A Caça Vampiros.

De uma certa forma, Buffy é o equivalente americano para uma magical girl, e se você lembra da série, a vida dela era mais triste e depressiva do que “yay, divertida!”, boa parte do drama do personagem é porque ela justamente teve que crescer antes do tempo, e nunca poderá ter a vida de uma garota normal, e esse é o mesmo princípio aqui.

Quando dizem para Madoka pela primeira vez que ela tem que pensar bem no que vai desejar, e que só vale a pena aceitar essa vida se tiver algo que ela realmente queira muito, a minha primeira reação foi achar que era exagero tipico de anime. Mas não, era sério mesmo. Bastante.

Eita porra, Giovana!

Eita porra, Giovana!

Outro ponto que eu posso apontar nessa ideia de “desconstruir” o conceito de magical girls é que as meninas mágicas não botam seus popozinhos mágicos na reta para lutar pelo bem e pela justiça porque, na boa, quem é que faria isso? Sério, se desse esse poder todo na mão de pré-adolescentes, alguém acha mesmo que os jovens iam usar isso de forma altruísta, ou iriam aproveitar para “ownar muito os noobs”?

Caso tenha alguma dúvida, eu te convido a dar um pulinho na partidinha online mais próxima de você para ver o que acontece quando um sub14 tem o minimo de poder e superioridade (mesmo que seja minima mesmo, tipo ser bom em um jogo), e que tipo de comportamento isso gera.

As meninas mágicas lutam contra as bruxas pelas recompensas que isso dá, não porque é o “certo” ou o “bom” a ser feito.

Não obstante, as meninas mágicas estão tão imersas neste mundo, que elas vão perdendo contato com a humanidade. Quando você vive, respira, e sua vida gira em volta de batalhas mágicas, coisas como ir à escola, ter uma rotina, ou se importar que uma pessoa ou duas morram, parece algo bastante alienígena.

Sim, esse é o conceito clássico do Dr. Manhattan de que o poder leva à perda da humanidade, ou dos vampiros de Vampiro: A Máscara, e se tornar uma garota mágica é um processo de perda da humanização neste sentido. Nada mal para um anime colorido “de menininha”, não?

38010_mahou_shoujo_madoka_magicaEstes foram apenas dois exemplos, quase todo os grandes questões pilares do anime – os fundamentos do gênero magical girl – são desconstruídos e trazidos para uma pegada mais realista neste mesmo estilo.

O fato do Kyubey necessariamente escolher meninas pré-adolescentes, por exemplo, é incrivelmente bem fundamentado. E bem fundamentado ao estilo “puta merda, isso parece um episódio de Doctor Who!” de tão sci-fi mind blowing que é.

E quando eu digo “explodidor de mentes”, entenda que envolve coisas como paradoxos temporais e a entropia do universo, esse tipo de mind blowing que eu me refiro. Pois é.

PERSONAGENS

Para surpresa de ninguém, o desenvolvimento de personagens acompanha o padrão de qualidade de toda a série, e é muito verossímil. Isso porque realmente parecem crianças pré-adolescentes que se meteram em uma roubada completamente alienante – algo que me lembrou muito, muito mesmo, “O Senhor das Moscas“.

Não tem aqui aquela coisa de poder da amizade, e vencer com a magia do discurso, e mimimis típicos de anime. São crianças fodidas e quebradas, fazendo o que podem em uma realidade bastante cruel e desesperançada, da qual elas não faziam a minima ideia quando assinaram o contrato (não é só o espectador que é iludido a pensar que seria só mais um “magical girl, yay”, mas as personagens também caíram nessa).

Puella-magi-madoka-magica-fandoms-31547720-1000-517Na maior parte dos momentos o anime realmente não ofende a inteligência do espectador, e novamente isso é muito raro em animes. As meninas são críveis e seus problemas razoavelmente palatáveis, existe pouca forçação de barra nesse sentido (não tem coisas do tipo crianças de 12 anos lutando pelo amor das suas vidas, porque ela o ama mais que tudo mimimi).

TRILHA SONORA

Se uma coisa que o anime faz bem é passar sensações. Os diálogos durante o dia são pesados e marcados pelo silêncio entre as falas, enquanto as cenas de ação são tocadas pela trilha sonora da mestra Yuki Kajiura (Noir, Xenosaga, Sword Art Online), que é uma das melhores compositoras japonesas ao lado de Yoko Kanno.

O bom gosto de saber quando deixar o silêncio tomar conta, e quando arregaçar na música (principalmente nas batalhas contra as bruxas), é realmente digno de nota.

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CONCLUSÃO

Madoka Magica é realmente um grande anime, que sabe brincar como poucos, usando as expectativas do espectador a seu favor, com uma história realmente profunda (algo ao nível de Kill la Kill, o que não é pouca merda) e triste, personagens verossímeis, e um cenário muito bem construído, onde tudo tem uma explicação no mínimo razoável, se não impressionante.

Não se deixe enganar pela abertura fofinha de menininha (que foi feita justamente para te enganar mesmo) e ASSISTÃO!

4 thoughts on “[ANIMES] MADOKA MAGICA: Quando Sailor Moon encontra Buffy… e De Volta para o futuro, Asimov, Kill la Kill, Fausto …

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  4. Amei a resenha e me deixou curiosa a ponto de querer assistir, assisti o primeiro agora e não consigo imaginar como esse anime vai se tornar tudo isso mas não vou deixar de assistir, que ele é muito louco já deu pra ver hahah

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