[ANIMES] KONOSUBA (ou sobre como a comédia funciona e repolhada nas tetas)

É muito frequente encontrar atores, roteiristas e diretores dizendo que comédia é muito mais difícil de se fazer do que tragédia. Existem várias teses do que porquê as coisas serem desse jeito, e eu gostaria de compartilhar algo que eu ando ruminando há algum tempo: a tragédia é universal, a comédia é local.

Kono Subarashii Sekai Ni Shukufuku Wo (algo como “As bênçãos divinas neste mundo maravilhoso”), abreviado como “Konosuba”

Isso quer dizer que em praticamente qualquer momento da história, os seres humanos compreenderão a tragédia mais ou menos no mesmo nível. Enquanto um grego do período clássico pode não entender o nosso sistema financeiro atual, de forma que você jamais conseguiria explicar a crise financeira de 2008 para ele nem com todas as TARDIS do mundo, a ideia de perder tudo e ficar pobre é um conceito que os americanos de 2008 entendem, os gregos de -200 a.c. entendem, e provavelmente os robôs do século 15k entenderão. É algo universal, e é algo terrível. Assim como perder um filho, perder alguém que você ama ou descobrir que tudo que você acreditou a vida toda é uma mentira.

Tragédia é tragédia, não importa onde, não importa quando.

Tragédia é quando eu corto meu dedo. Comédia é quando você cai num esgoto e morre” – Mel Brooks

Comédia, no entanto, é mais… subjetivo. “Ah, mas então não existe humor universal também?“. Sim, existe. Comédia física e humor escatológico são igualmente universais e atemporais. Tanto que a piada mais antiga do mundo já encontrada data de um registro sumério (atual sul do Iraque) do ano 1900 a.C. A saber, a piada é “algo que nunca aconteceu desde o começo dos tempos: uma mulher nunca soltou um pum no colo do marido“.

Quase quatro mil anos depois, um dos melhores divulgadores científicos do mundo também faz piadas de peido porque, sejamos honestos, piadas de peido são o máximo:

Então, sim, lembrar o grito do Tom após o som imensamente satisfatório de uma pancada sempre me fará sorrir. Mas para longe dessas praias, o humor se torna bem mais subjetivo, e depende muito da expectativa e da experiência do espectador – e isso é muito local.

Tem uma cena em “Apertem os cintos, o piloto sumiu” em que um dos personagens diz que o trauma do relacionamento passado o levou a problemas com a bebida. A expectativa é algo relacionado a alcoolismo ou algo assim. É assim que essa expressão é utilizada nesse contexto, certo?

Isso não apenas é uma piada muito boa de um filme brilhante, como explica perfeitamente como o humor funciona. Situação, subversão da expectativa, humor. E é justamente por isso que animes dificilmente parecem engraçados para o público ocidental.

Em primeiro lugar, nós não compartilhamos as mesmas expressões, já que muitas palavras no japonês sequer têm uma tradução literal, elas são conceitos tem que ser explicados.

Por exemplo, em japonês existe a palavra “Boketto”, que significa não o que você está pensando, seu pervertido, e sim “O ato de olhar vagamente à distância.“. Ou seja, sobre o que David Tennant construiu sua carreira fazendo.

Para todos vocês que têm crush pelo Tennant, vou apenas deixar aqui essa foto dele fazendo cosplay de Collor

Então, basicamente, japonês não pode ser traduzido diretamente. Ele tem que ser adaptado, e com isso se vão 78% das chances de se fazer humor. Isso é importante, porque a forma como articulamos as ideias – e logo, como pensamos – é fundamentalmente ligada ao idioma. Só isso já nos torna quase de outra espécie e, como tal, o humor depende MUITO do idioma. Exceto em casos de bigorna caindo na cabeça, é claro. Mas não bastasse o problema do idioma, se formos falar sobre as situações do cotidiano então… vish.

Olha, eu sei como um conselho estudantil e um clube de atividades extra curriculares funcionam, porque eu já li a respeito e já vi isso um milhão de vezes em animes, mangás e erog… err, visual novels. Porém, obviamente, eu nunca estive em um. Nem conversei com alguém que esteve em um. Se eu vir uma piada sobre isso (o que basicamente é a definição de K-ON inteiro), eu posso dizer que entendi a piada, mas não vou realmente achar engraçado, tanto quanto eu não acharia engraçado uma piada que eu não entendi sozinho e alguém teve que me explicar (neste caso, é meu banco de dados sobre cultura japonesa que está explicando a piada para o meu consciente).

Da mesma forma eu nunca estive em uma fonte termal, ou almocei no terraço da escola, e nem sequer fui encoxado em um trem lotado. E nem acho que eu vá viver em algum momento essas experiências básicas que qualquer japonês passa ao longo da vida. Ou se não vivem, estão imersos na cultura de onde esses estereótipos nascem (da mesma forma que eu, enquanto gaúcho, entendo, como instintivas, muitas coisas a respeito de churrasco, mesmo eu não sabendo fazer nem cachorro quente). Logo, as minhas definições de expectativas de como uma cena deve ser conduzida são absolutamente diferentes das deles, e o que é hilário para eles é apenas “ah, ok, entendi” para mim.

O melhor exemplo que eu posso pensar é, por exemplo, que um carioca entenda racionalmente piadas de quero-quero após ser familiarizado com a geografia gaúcha, mas não que ache realmente engraçado. Na melhor das hipóteses vai rolar um “ah, eu entendi a referencia” – o que é completamente diferente.

Então, acho que nós concordamos que, exceto em caso de humor físico ou escatológico, animes dificilmente são genuinamente engraçados, porque nós não compartilhamos quase nada da cultura japonesa. Certo, mas será que isso é verdade? Pense bem, não tem MESMO algo que faça parte da cultura japonesa e que seja comum para nós tanto quanto encontrar duas farmácias na mesma quadra em Porto Alegre? (viu? humor local de novo, que você pode ou não entender, mas só vai achar engraçado se estiver familiarizado com a situação a um nível inconsciente).

Bem, na verdade, tem sim. E é algo grande, gigantesco, colossal. É, na verdade, uma indústria bilionária que movimenta mais dinheiro por ano que o cinema. Algo com o que crescemos desde antes de saber andar direito. Estou falando, é claro, de videogames.

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Enquanto os japoneses não inventaram os videogames no sentido literal da palavra, no sentido prático sim, já que quase tudo que consumimos depois do Atari, pelos primeiros dez anos de vida da nova era dos consoles, veio do Japão. Então, embora nossos gostos hoje divirjam dos japoneses de forma geral (sendo este o motivo pelo qual os jogos que vêm no NES, SNES e Playstation Mini sejam diferentes no Japão e no ocidente). Ainda assim nós viemos do mesmo lugar e crescemos com as mesmas regras. Videojogos são uma língua que falamos em comum.

E é por isso que um anime parodiando os clichês de videogames, e subvertendo as expectativas do gênero, é algo que pode, verdadeiramente, ser engraçado no ocidente. E é isso que faz de Konosuba um anime tão especial, e tão filhadaputamente engraçado.

Konosuba é, saiba você, um anime sobre a pior equipe de aventureiros que qualquer RPG jamais viu e, com alguma sorte, jamais verá. Nossa história começa quando o hikikomori Kazuma finalmente saiu de casa para comprar um jogo novo. No meio do caminho ele vê uma menininha prestes a ser atropelada e decide ajudá-la… no que ele tropeça e acaba sendo atropelado. Algum tempo depois, no pós-vida, a deusa Aqua o informa que o atropelamento em si não o matou (assim como não mataria a menininha, aliás), e sim que ele morreu de ataque cardíaco ao achar que morreu atropelado. Ela diz isso rindo na cara dele porque, honestamente, essa é uma morte bem bocozona.

Aqua é, alias, possivelmente a pior deusa do ramo das deusas. Ela é mimada, arrogante, egocêntrica e bem pouco inteligente. Mas calhou de ser quem pegou o caso de Kazuma no pós-vida, então é o que a casa oferece. Felizmente para Kazuma, Aqua tem assuntos dos quais ela poderia utilizar uma ajuda: existe um mundo onde os seus seguidores estão tendo problemas com o Rei-Demônio, e de fato pouca gente que morre quer reencarnar lá – o que significa menos seguidores para ela. Assim, Aqua está disposta a dar uma burlada nas regras para permitir que Kazuma renasça naquele mundo com a forma e as memórias atuais, e de brinde ainda pode escolher um item qualquer para levar para aquele mundo, com a condição que os use para livrar o mundo do Rei-Demônio.

Você poderia ter a decência de não comer batatinha enquanto faz a minha entrevista pós-morte? É meio que uma questão de vida e morte aqui, sabia?

Assim, ela se livra do Rei-Demônio, sua igreja volta a prosperar, e ela ganha mais poder com mais seguidores. Todo mundo ganha, certo?

Bem, exceto que Aqua diz isso de uma forma bem babaquinha e arrogante, ao que, no calor do momento, só por despeito, Kazuma decide que aceita, e que o objeto que ele quer levar para esse mundo não é nada senão… a própria Aqua!

Assim começam as aventuras do pior aventureiro do mundo e da pior deusa do mundo neste mundo de fantasia que, por uma inacreditável coincidência, acontece de ser exatamente como um RPG. Quais as chances disso, hã?

Kazuma não é exatamente matéria prima para ser um herói, e Aqua também não é exatamente o lápis mais bem apontado da caixa. Porém, enquanto Kazuma é mesquinho, covarde, lascivo e fundamentalmente preguiçoso, ele é o tipo de mesquinho, covarde, lascivo e fundamentalmente preguiçoso que EU seria nesse tipo de situação!

Ok, talvez um pouco menos…

Mas o meu ponto é que o cinismo de Kazuma (ele tem absoluta noção do quão imprestável o seu grupo é) faz Konosuba brilhar em seu melhor, que é ser uma paródia muito consciente desse subgênero de anime de “fui parar em outro mundo e olha o que aconteceu“, assim como uma paródia dos clichês de RPG e os típicos arquétipos de personagens.

De certa forma, Konosuba lembra um pouco Re:Zero, onde o protagonista também é um humano comum que vai parar em um mundo de fantasia sem nenhuma habilidade ou poder de protagonismo para salvar o dia (até certo ponto, claro). Porém, diferente de Re:Zero, que se foca muito mais no colapso mental de ser largado em um mundo onde existem magia e horrores lovecraftianos, Konosuba se foca no absurdo da situação e como uma pessoa normal cinicamente reagiria a ela.

Por exemplo, tem uma quest em que o seu grupo tem que escoltar a sacerdotisa, enquanto ela purifica um lago. Olha, todos nós já fizemos esse tipo de quest milhares de vezes por aí em centenas de jogos, certo? Ondas de monstros vêm aparecendo até o NPC terminar o que quer que ele tenha que fazer. Coisa básica.

Kazuma também já jogou esse tipo de jogo um milhão de vezes e, por isso mesmo, no entanto, ele tem uma abordagem um tanto … pouco ortodoxa para resolver esse problema:

Mete a sacerdotisa numa jaula, coloca dentro do lago e era isso. Qualquer coisa a gente vai estar logo ali, #beijomeliga. Talvez não seja a solução mais ética para o problema, mas certamente é uma bem prática.

Esse é todo o ponto do humor aqui: Konosuba sabe exatamente o que você, como jogador de videogame ou fã de animes, vai esperar da cena, e então subverte isso de uma forma cínica e divertida.

Outro exemplo: todo mundo já viu a clássica cena do anime de harém onde a toalha do protagonista cai e a mocinha vê toda glória do seu bilau tremeluzente. Agora, diga rápido sem piscar: como esse tipo de cena termina?

Se você respondeu “a mocinha dá um berro e em seguida um socão no protagonista”, parabéns. Significa que você já assistiu anime o suficiente para começar a questionar seriamente suas escolhas de vida. Mas, então, é assim que funciona, é assim que sempre foi feito, e provavelmente assim será até o Terceiro Impacto de Cristo, quando todos os pecadores serão transportados para a Mesopotâmia – ou alguma coisa assim. E, como não podia deixar de ser, Konosuba tem uma cena dessas porque é claro que sim, como não teria?

Entretanto, ela se desenrola de uma forma um tanto diferente do que as suas expectativas de anos de anime e travesseiros de waifu te ensinaram a esperar:

“Heh, já vi melhores”

ESSE é o motivo pelo qual Konosuba consegue ser genuinamente engraçado para um público ocidental (mesmo que um público um tanto especifico, porém, se você está lendo isso… bem, tenho boas e más noticias para você) e tantos outros animes não: porque ele trabalha com uma linguagem que já está gravada em nosso cérebro. Ninguém está “explicando a piada”, nós estamos rindo dela em tempo real e isso é maravilhoso.

É vital para isso, claro, que os personagens tenham um timing humorístico perfeito, e isso pode ser dito do elenco. A direção do anime tem absoluto controle sobre quando seguir com o cliché, e quando os protagonistas têm que sair do personagem para entregar uma punchline como poucas vezes eu já vi em um anime. Respostas rápidas, tempo de silêncio preciso, tudo como os melhores comediantes do ramo não fariam melhor.

 Como disse o comediante Luiz Fernando Guimarães, “o timing da comédia é matemático“, e Konosuba trata essa matemática com a eficiência de um oriental.

Falando em personagens, vamos falar um pouco mais sobre esse grupo constituído pelos piores aventureiros do mundo. Além do já citado preguiçoso, covarde e pervertido Kazuma, e da deusa arrogante, intelectualmente limitada e alcoólatra a um nível que faria a cirrose do Zeca Pagodinho se assustar, o grupo de nossos já pouco competentes aventureiros é completo por outras duas integrantes, que foram parar ali porque nenhum outro grupo as aceitava, já que elas são tão uteis quanto garfo em um rodízio de sopas.

Megumin é uma maga do clã dos Demônios Carmesins, e sua magia explosiva é uma das mais poderosas do mundo – o que a tornaria um membro completamente útil a qualquer grupo de aventureiros… não fosse o fato de que ela consegue soltar apenas uma única magia por dia, sempre apenas na potência máxima, e depois disso ela fica inútil como um saco de areia.

Tipo, literalmente. Ela desaba de boca no chão, onde ficará imóvel pelas próximas horas. Aí então, você pode se perguntar: por que ela apenas não aprende outro tipo de …?

ELA GOSTA DE EXPLODIR COISAS!

… sim, certo. Mas, então, ela poderia ao menos comprar skills para…

NÃO, ELA QUER EXPLODIR COISAS! UMA ÚNICA EXPLOSÃO ENORME! A MAIOR POSSÍVEL E IMPOSSÍVEL TAMBÉM!

… mas…

EXPLODIR COISAS!

Oh deus…

Não, Aqua, não to falando com você … Vish, gente doida… Enfim, o outro membro do grupo é a paladina Darkness, que, apesar de jamais conseguir acertar um único ataque, possui uma capacidade de defesa estupenda, e pode resistir a quase qualquer ataque. Ah, e ela também é masoquista… espera, ela o quê?

ELA É MASOQUISTA.

Ok, certo. Acho que está tudo certo ela ter um fetiche saudável, e uma linha de trabalho que se adeque ao que ela gosta de …

NÃO, ACHO QUE VOCÊ NÃO ENTENDEU O QUANTO ELA GOSTA DE SOFRER. 

Não, não posso dizer que eu tenha entendido o quão ruim isso pod…

HEY, DARKNESS! POR QUE VOCÊ NÃO EXPLICA PARA O NOSSO AMIGO AQUI COMO SERIA O SEU HOMEM IDEAL?

Ela… ela teve um orgasmo ao se imaginar casada com um homem que a mande se prostituir para que ela o sustente?

AHAM.

Deus….

Não, não você sua deusa manguaceira de meia-tigela! Essa party é um asilo de loucos. Se cobrir vira circo, se cercar vira hospício!

AGORA VOCÊ ESTÁ ENTENDENDO A NATUREZA DA SITUAÇÃO.

Bom, mas, pelo menos, Kazuma é da classe aventureiro, o que significa que ele pode aprender skills de qualquer classe, e tenho que certeza que ele vai usar isso para…

COMO “STEAL”, VOCÊ DIZ?

É, sim, habilidades de ladino são bastante úteis para…

Deixa para lá.

E, novamente, esse é o ponto da série toda:se você já jogou RPG na vida, certamente já encontrou com esses personagens antes. Quem nunca teve no seu grupo (ou foi) o mago que investia tudo em bola de fogo, e não conseguia sequer carregar o próprio equipamento? Que se orgulhava em ser o melhor canhão de vidro que conseguisse espremer nos números do jogo?

Ou então o ladino que pensava nos usos mais imbecis das suas habilidades?

Assim, Konosuba é um anime sobre o pior grupo de aventureiros de todos os tempos enfrentando bravamente os clichés dos RPGs, com os quais todos já nos deparamos em algum ponto ou outro da vida, como as quests idiotas de recolher cinco porcarias aleatórias, ou caçar repolhos selvagens e…

… espera, o quê? Como assim, “caçar repolhos selvagens”? O que isso possivelmente poderia signifi…

… oh. A paladina levou uma repolhada na teta. Taí uma frase que eu nunca disse em todos os meus anos de RPG. E agora passarei o resto dos meus dias me perguntando se isso é uma coisa boa ou se eu que não andei com as pessoas certas.

Seja como for, sério, eu não acho que eu possa acrescentar muito mais daqui para frente. Até porque, a este ponto, eu já perdi completamente a concentração, e qualquer coisa que pretensiosamente poderia querer dizer jamais superará a singela recomendação de assistir Konosuba se você tiver a oportunidade. É o anime imbecil mais engraçado que eu já vi na minha vida. Com repolhada na teta e tudo mais. Meu deus…

 Não, não você, sua deusa inútil!

Konosuba in a nutshell


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