[ANIMES] KILLING BITES (ou um anime dos anos 80 feito em 2018)

Anime.

Agora que você leu essa palavra, qual foi a primeira imagem que te veio a mente? Bem, saiba você que a resposta entrega muito sobre a sua idade. Se você pensou em animações com níveis de gore e violência que seriam impensáveis nos dias de hoje, então provavelmente você começou a assistir animes nos anos 80.

Sério, animes shounen (mais conhecidos como “anime de luta”, como Bleach, Naruto ou Dragon Ball Super) são destinados a um público masculino de 12 a 18 anos (não que outros públicos não assistam, eu incluso, mas não é com eles em mente que os mangás são escritos, e por consequência os animes). Agora, você consegue imaginar animações, feitas hoje, voltadas para esse público com um número altamente satisfatório de mutilações, sangue jorrando e peitos de fora? Os anos 80 conseguiam.

Ranma 1/2, anime de 142 episódios em 1989

Saint Seiya, anime pouco conhecido que tocava o coração em 114 episódios, lançado em 1986

Genocyber, OVA de 1993. O que não é nada relevante para a discussão aqui. Eu apenas queria usar a chance para postar uma cena de Genocyber porque… quando eu vou ter outra chance dessas, né?

De lá para cá, muitas coisas mudaram. A economia japonesa morreu (literalmente, o termo econômico sério para descrever a economia japonesa é “economia zumbi“) o que tornou animações que não têm o propósito de vender alguma coisa imediata (brinquedos, mangás, jogos ou light novels) inviáveis na TV aberta, sendo o anime sustentado basicamente pela venda de brinquedos (e por isso tem que ser o mais family friendly possível), ou pela venda de DVDs para um público-alvo que tem gostos bastante… específicos.

Em adição a isso, após Evangelion (seguido de Pokémon, alguns anos depois) o mercado ocidental passou a ser um fator não mais desprezível para a produção de animes, e muito do que é produzido não é mais cego à forma infantiloide que a animação ainda é vista no ocidente por pais e donos de emissoras. Várias outras coisas ocorreram neste ínterim também, como mudança do entendimento jurídico japonês sobre censura e por aí vai. Vocês sabem do que eu estou falando, e não é um assunto que eu quero alongar muito hoje.

Isso não quer dizer, é claro, que esse estilo de anime mais old school não exista nos dias de hoje, apenas que você precisa procurar um pouco mais para encontrar (até porque, a quantidade de anime que temos à disposição hoje é aborrentamente superior ao que tínhamos na época). E é aqui onde um texugo-do-mel muito boladão entra na história.

TEXUGO-DO-MEL: “Cai dentro que eu vou te arrebentar, seu feladaputa arrombado!” LEÃO: “Cara, eu só perguntei se tu tinha horas…”

Mas então, vamos lá: Killing Bites é um anime que, em momento algum, tenta inventar a roda. Na verdade é um dos animes de luta com a trama mais simples que eu lembro de ter visto nos últimos anos, ou em qualquer ano, na verdade: quatro grandes corporações, que secretamente comandam o Japão dos bastidores, organizam um torneio de luta para decidir qual delas é que vai mandar na terra das waifus, e para isso elas empregam mutantes em um Battle Royale. Esse é o torneio Killing Bites. E é isso, deu, é essa a história.

Os mutantes, neste caso, são chamados de “Therianthropes”, que é uma forma chique de dizer que eles são furries. Ou seja, metade humano, metade animal. Nada também já não tenha sido feito antes.

Agora, dizer que já foi feito antes não quer dizer que não é muito BEM feito, e é aqui que Killing Bites começa a ganhar pontos a seu favor. Como os personagens são metade animais, é claro que nós temos alguns que são representações bastante óbvias e esperadas, como o “cara leão” ou a “menina coelho”, certo. Porém, a grande sacada aqui é que o autor do mangá fez o seu dever de casa, cavou fundo na sua coleção de National Geographic, e tirou da cartola alguns animais bastante interessantes para serem representados aqui.

A protagonista do anime, Hitomi, é um híbrido de humano com ratel.

COM O QUÊ?

Então, o ratel (também chamado de Texugo-do-mel) é um animal tão bizarro que a única explicação para a sua existência é que alguém deixou uma caixa de Lego espalhada e Deus totalmente pisou no Lego, descontando toda sua raiva na forma desse bicho. Imagine um bicho que foi geneticamente desenhado para sobreviver a tudo de pior que a Austrália tem para jogar contra ele… Agora coloque ele em qualquer lugar do mundo que não seja a dificuldade Nightmare Hardcore que é tentar sobreviver na fauna australiana. Não fosse o fato de que os ratels efetivamente existem, ninguém acreditaria que isso não foi inventado especificamente para esse anime.

Em primeiro lugar, os ratels não sentem medo. Ou, se sentem, demonstram isso gritando “ah é? Vem pro pau seu corno!”. Eles não apenas não se importam em lutar com animais muito maiores do que eles, como não têm problema nenhum em entrar em brigas que eles possivelmente não têm como vencer – como contra uma matilha de cães selvagens, por exemplo – movidos apenas por sua fúria e vontade de chutar o saco de alguém. Ratels são a versão animal do Joe Pesci, basicamente.

Adicionalmente a isso, eles também são chamados de Texugos-do-Mel, sabe por quê? Porque eles comem mel, obviamente (na verdade, um ratel come tudo que ficar parado na frente dele por tempo o suficiente), mas, mais exatamente, eles entram na colmeia e comem tudo que vier pela frente porque aqui é ratel, porra! Larva, cera, abelha, mel, tudo é jogo pro ratel. E as abelhas? Eles não ligam, sua pele é grossa o suficiente para resistir a mordida de leões, quanto mais ferroadas de insetos.

Adicionalmente a isso, eles são muito inteligentes (usando vantagens táticas em uma luta, como enfrentar uma serpente em um ângulo que ela não consiga atacar de volta), são um dos poucos animais que sabem usar ferramentas (as mães treinam os filhotes para serem picados por animais progressivamente mais venenosos para desenvolver imunidade), escalam quase tão rápido quanto correm, nadam e são imunes a quase todos os tipos de venenos. Venenos de escorpiões e cobras, que facilmente matam cavalos ou touros, são apenas tempero do café da manhã para esse mamífero de 30 cm de altura.

Desculpem se eu me empolguei um pouco, mas o ratel é um animal bizarramente fantástico, e o anime trás vários outros animais tão incríveis quanto, adaptados como personagens em um torneio de luta como o pangolim, o civet e o hipopótamo (que, caso você não saiba, é o animal mais perigoso de toda África). E mesmo para os animais mais tradicionais, como leão, tigre e coelho, o autor usa algumas curiosidades interessantes e pouco conhecidas sobre esses animais, para criar tanto os poderes quanto as personalidades dos personagens.

Eu não esperaria diferente

Killing Bites parte de uma premissa totalmente manjada, mas uma que é executada sem nenhum pingo de preguiça e com muita competência.

Competência, aliás, é a palavra chave aqui. Como já dito, enquanto o anime não tenta fazer nada particularmente inovador (sério, a ideia de um battle royale de furries parece até uma paródia de tão combo de clichés que é), tudo que ele faz é com um nível extremamente sólido de competência. Isso é uma forma desnecessariamente elaborada de dizer que as lutas nesse anime são muito boas.

Porque um anime de luta brega não é brega de verdade se não tiver uma tela com o nome do golpe. Todo mundo sabe disso

As lutas são surpreendentemente violentas, com bastante sangue, mutilações e personagens importantes morrendo… ou quase, como veremos a seguir. Mais de uma vez eu fui pego com as calças na mão pensando “ah, é claro que esse personagem não vai morrer. Acabaram de dar a deixa que ele tem uma backstory, e não iam colocar tanto tempo de preparação para… Oh, fuck.” Isso é mais surpreendente ainda porque, de todos os estúdios de animação do Japão, a Liden Films é a última que eu confiaria para apresentar uma animação violenta de qualidade. Se você não está ligando o nome à pessoa, a Liden Films é o estúdio responsável pelo desastre que foi o Berserk de 2016. Oh boy.

Uma das  coisas que faz a animação das lutas serem tão boas é que eles têm uma noção bastante satisfatória de peso, tamanho e perigo. Você sente que os personagens que a narrativa quer que você entenda como perigosos são de fato perigosos, não porque algum personagem falou sobre isso, e sim porque você viu esse personagem fazendo alguma coisa foda. “Mostre, não diga” é uma das técnicas narrativas mais básicas que existem, e ainda assim tantas obras conseguem falhar em algo tão simples. Killing Bites faz seu dever de casa com boas notas em todas as coisas simples.

Honestamente, para explicar o que Killing Bites é eu poderia apenas mostrar essa imagem no lugar de escrever o texto. E sim, esse é o “uniforme” da protagonista o anime inteiro, o único momento que ela não está vestida assim é quando ela está vestida de colegial because fanservice

Ao que o anime se propõe a fazer, passar com cores voantes no simples é exatamente o que é necessário aqui. Digamos que, se Killing Bites fosse um jogador de futebol, ele seria um daqueles perfeitamente conscientes das suas limitações técnicas, e que nunca tenta sair jogando com a bola quando ele sabe que não sabe fazer isso. Às vezes um bom e velho chutão para frente é mais do que suficiente!

De todas as qualidades que Killing Bites possui, entretanto, nenhuma é maior do que seu talento em ser ruim.

MAS OI?

O que eu quero dizer com isso é que Killing Bites nunca, em momento algum, tenta ser um anime refinado, complexo ou mesmo bom. Pelo contrário, ele é do tipo que se orgulha de ser brega, exagerado e perfeitamente adequado para os fãs do estilo “tão ruim que é bom“. Killing Bites nunca tenta nada sequer perto de ser sério ou coerente. Ao invés disso, Mordidas Matadoras se diverte ao criar acrobacias, ações, enredos e personagens extremos e bregas; todos estes elementos se juntando para fazer a platéia rir com a loucura do que está acontecendo na tela, enquanto assistem a híbridos entre humanos e animais rasgarem uns aos outros em uma execução sólida e de nenhum pouco bom gosto.

Quer dizer, o anime literalmente começa com uma tentativa de estupro; tem um vilão que não cala a boca sobre sua determinação e prazer de se forçar às mulheres; tem uma personagem que, literalmente, usa feromônios para lutar; tem personagens que sofrem ferimentos mortais, mas estão de boas depois de passar um xarope da mãe do Chris. Enfim, é uma coisa tão descaradamente trash que, em mais de uma oportunidade, você fica na dúvida se isso não é o remake de alguma filme de kung fu dos anos 80, que tinha o orçamento de um chocotone do Natal de 2003, e está sendo usado pela sua vó como peso de porta.

Eu já disse uma vez e direi novamente: Killing Bites é absolutamente brega e tosco, e tem total orgulho disso. E eu realmente adoro cada momento dessa tosqueira absurda, seus plot twits toscos, onde tudo é tão extremo que não tem como não ser engraçado.

Bem, ou isso, ou nosso amigo Wolverine fora de forma aí apenas gosta de espalhar papeis riscados sobre a mesa para efeito dramático

Ajuda que o elenco de Mordidas Matadoras seja bastante assistível. É verdade que esses personagens são terrivelmente superficiais em termos de suas personalidades, mas o show consegue fazer com que cada personagem pareça único, mesmo que não particularmente complexo. Isso é conseguido graças às nuances do diálogo de uma direção de dublagem estelar (e que passa a sensação de que os dubladores se divertiram muito fazendo isso). É um caso raro em que, embora os personagens sejam extremamente superficiais, o anime é capaz de se virar bem sem desenvolver nenhum arco de personagem particularmente interessante, ou enfrentar desafios pessoais significativos. Ou seja, é algo que, no papel, não deveria funcionar… mas funciona, e é isso que Killing Bites é.

Esse é um daqueles animes estranhos que, deliberadamente, escolheu ser ruim, porém, sabendo exatamente o que estava fazendo, acaba sendo ótimo por ser uma porcaria! De certa forma, ele pertence ao mesmo clube de animes toscos mas ótimos, como Jojo’s Bizarre Adventure ou Keijo!!!!!!!! (embora não tenha a mesma genialidade tosca, verdade). Ainda assim, ele consegue andar com essa turma peso pesado, tendo total consciência da sua ridiculosidade, e abraçando a beleza horrenda das suas tosqueiras.

Quer dizer, como não respeitar um anime que se dedica tão descaradamente ao fan service e cria toda uma desculpa para usar o comportamento sexual dos coelhos no meio de uma luta?

Isso quer dizer, é claro, que Killing Bites não é para todo mundo. Se a sua definição de um bom anime não envolve um plot de duas linhas e diálogos que parece que foram resgatados do script não utilizado de The Room, então certamente esse anime não é para você. Mas para os amantes de trasheiras bem feitas com direito a ótimas lutas ridículas, doses mais ridículas ainda de violência, e porções constrangedoras de fan service, tudo isso embalado por uma trilha sonora do mais puro rock’n roll de baixa qualidade … então a sua pedida é esse bom anime ruim,como só os anos oitenta tinha a falta de noção para produzir.

Killing Bites é um anime dos anos 80 que apenas aconteceu de ser produzido em 2018, e é isso que Killing Bites é.