[ANIMES] JOJO BIZARRE’S ADVENTURE, Part 4: DIAMOND IS UNBREAKABLE (ou quando um mestre tira férias)

Existem algumas pessoas que são muito, mas muito fora da curva. Pessoas para quem os limites da capacidade humana parecem simplesmente não se aplicar e que transformam o mundo como resultado de sua maestria. Existem cantores, e existe o Michael Jackson. Existem pessoas que sabem dirigir na chuva, e existe o Ayrton Senna. Existem refeições, e existe a pizza.

E existem, claro, muitos mangakás. Mas só existe um Hirohiko Araki.Após as estrambólicas aventuras de nossos heróis bombadões até o Egito nos anos 80, o que Araki poderia fazer de mais impressionante, bizarro e único? Afinal ele havia acabado de escrever um arco épico sobre salvar o mundo de um vampiro fabuloso e sobre cocô que se mistura com a poeira do deserto, o que mais havia para fazer? Mais do mesmo?

Supostamente, Stanley Kubrick disse uma vez que, após um grande sucesso, o ideal é fazer um filme simpático.

Pois foi exatamente o que Araki fez: tirou férias.

A parte 4 das bizarras aventuras da família Joestar não é um épico de luta e aventura através de terras exóticas, e sim apenas os acontecimentos do verão de 1999 na pacata cidadezinha de Morioh. Descrevendo assim pode parecer um pouco chato não ter um mega vilão ou uma trama que faz você questionar o que diabos você acabou de assistir, mais da metade da série é apenas sobre episódios isolados sem muita conexão um com o outro ou sem um mega plot. Araki se recostou em sua cadeira e pegou leve dessa vez, curtindo um período de merecidas férias após ter revolucionado o próprio conceito de mangás.

E de fato não seria realmente muito especial, não fosse o fato de que, bem, esse cara certamente não é humano. Apenas isso explica o processo mental por trás deste cidadão “de férias”, porque qualquer outra tentativa é apenas desespero frustrado.

Talvez você não esteja acreditando em mim (eu mesmo era muito cético quanto a isso), mas, então, me permita compartilhar uma imagem do que é Diamond is Unbreakable:

Isto, meus amigos, é um fantasma usando uma foto polaroide como carruagem movida por corvo. O nome de Stand dele é “Pai coração-atômico”. É sério.

Acredita em mim agora?

Sem ter que se preocupar em desenvolver uma trama ou elaborar grandes coisas, a mente muito estranha de Araki ficou livre para fazer o que faz de melhor: surtar completamente. Cada usuário de Stand que nossos heróis encontram em Morioh é mais estranho que o outro em um sentido progressivo. Quando você pensa “ok, agora já vi tudo e nada mais vai me surpreender!”, bam!, lá vai o cara, e agora os personagens estão socando um prato de macarrão. Mais uma vez, é sério isso.

O próprio conceito do arco já é de uma bizarrice impressionante: o Joestar dos anos 90 agora é Josuke Higashita. Mas quem é Josuke? Ora, ninguém menos que o filho ilegitimo do eterno menino das artimanhas Joseph Joestar. O que tem de bizarro nisso?

Bem, vamos fazer algumas contas… No final dos anos 90 (a série se passa em 1999), Joseph já passou dos 80 anos de idade. Josuke, por outro lado, tem 16. Então significa que ele concebeu o pequeno Joestar fora do casamento quando já tinha mais de 60 anos de idade. E quando você olha a mãe do Josuke, com certeza ela tem pouco mais de trinta anos de idade.

Essa matemática toda é para dizer que, em algum ponto dos anos 80, com mais de 60 anos de idade, Joseph Joestar deu uma pulada de cerca e engravidou uma colegial japonesa menor de idade. O fruto disso é o nosso protagonista. Taqueopareo, viu…

De toda forma, Josuke possui a Stand Crazy Diamon (baseada na música do Pink Floyd “Shine on you crazy diamond“) que possui o poder de consertar qualquer coisa quebrada (inclusive pessoas, mas não ele próprio). As coisas começam a mudar na pacata rotina de Josuke quando ele recebe uma visita do sobrinho mais velho do que ele, e que Josuke não sabia que tinha, Jotaro Kujo (o protagonista da parte 3, agora um adulto responsável dez anos mais velho) que veio contar ao rapaz sobre o sangue Joestar correndo em suas veias, assim como procurar usuários de stand que estavam usando seus poderes para o mal.

Okuyasu, o melhor amigo de Josuke, tem uma das Stands mais poderosas de todas. Seu The Hand pode apagar qualquer coisa da realidade, só que ele não usa isso. Segundo o mesmo, é porque ele não é muito esperto da cabeça e se fosse mexer com essas coisas ia acabar fazendo merda. Taí um idiota que sabe suas limitações. Como não amar?

Acontece que Morioh tem um número anormalmente grande de usuários de stand, e agora cabe a Josuke e sua gangue investigar o que de bizarro e estranho acontece nesta cidade.

A beleza disso é que, enquanto o grupo está investigando usuários em potencial ao redor da cidade, apenas uma fração deles está usando seus poderes para antagonizar as pessoas. Várias pessoas estão literalmente usando seus poderes para executar negócios legítimos (como um restaurante ou um salão de beleza). Alguns deles usam seus poderes para aplicar golpes de pequeno porte, mas eles não realmente machucam ninguém, são apenas vigaristas.

Veja, até este ponto, nós vimos muita Stand na batalha, porque basicamente cada Stand era um antagonista que precisava ser derrotado. Agora nós podemos ver mais uso prático no dia-a-dia para Stands (e, consequentemente, mais bizarros). E agora que o poder está bem estabelecido, há muito mais exploração a ser feita em exatamente o quão estranho eles podem obter.

E como estamos falando de Hirohiki Araki, o “quão estranho” é muito estranho. Demais.

Apenas espere até chegar a stand que é apenas uma torre de alta tensão abandonada chamada Super Fly.

Essa é a motivação do vilão. Nada do que eu comentar aqui magnificará esse fato.

UM VILÃO QUE DÁ UMA MÃOZINHA

Só depois da metade da série é que um arco maior começa a se desenvolver, envolvendo um serial killer chamado Yoshikage Kira. Kira não é nenhum Dio em carisma, até porque só Dio é Dio, mas compensa em bizarrice.

Porque ele não é um simples serial killer, e sim um maluco que quer ter uma vida pacifica e tranquila, de casal mesmo, com as mãos que ele ama. Infelizmente ele não costuma amar tanto assim o resto do corpo das mulheres, então ele tende a matá-las, jogar o resto fora e ficar brincando de casinha com a mão até ela começar a feder. E essa é a parte MENOS bizarra sobre a personalidade do nosso vilão. Oh boy…

O mais interessante é que, embora seja muito inteligente (como bom sociopata que é) e possua três stands diferentes, Kira tem ciência de que ele não é páreo para os meninos Joestar (inicialmente ele se preocupa apenas com o poder de parar o tempo de Jotaro, mas, eventualmente, percebe que Josuke não deve ser levado levianamente também) e seus amigos. Então ele se esconde, e grande parte do arco de Kira é sobre nossos heróis tentando descobrir a identidade de Kira.

Hm, isso parece com algum mangá ou anime que você já tenha ouvido falar?

Exatamente, a parte 4 de Jojo foi uma das inspirações de nada menos que Death Note. Só que aqui é muito menos focado na batalha de intelectos e muito mais nas bizarrices medonhas de Yoshikage Kira. E que são muitas.

E como não adorar o já senil Joseph Joestar e o bebê invisível que ele encontrou por aí, e agora anda pra cima e pra baixo com ela?

MAIS UMA VEZ, É TUDO DIFERENTE, MAS AINDA É JOJO EM SEU CORAÇÃO

Uma história não tem de ser uma aventura grandiosa (como a parte 1 e 3), ou um cenário de prevenção do fim do mundo (como a parte 2). Diamond is Unbreakable é apenas sobre coisas estranhas acontecendo no verão de 1999 em uma cidadezinha pacata do interior do Japão.

São várias histórias curtas de natureza episódica. Mas, mesmo que essas histórias curtas não pareçam acrescentar muito ao enredo, elas sempre desempenham um papel no desenvolvimento dos personagens. São como peças de quebra-cabeças que contribuem para o produto final. Tanta bizarrice somada a um tempo maior para desenvolver os personagens resulta em cenas de ação que são algumas das batalhas mais emocionantes que eu vi em anime… mesmo que seja uma batalha tática contra uma ratazana sniper – não pergunte, só aceite.

E assim, meus caros, infelizmente termina a saga de bizarras aventuras da família Joestar nos animes. Por hora, é claro. Eventualmente teremos a animação da parte 5 – Vento Áureo, que é uma história de máfia envolvendo o filho do Dio, ou seja, já é pura arte – mas pelo presente momento este é o fim.

Mas ao invés de ficarmos tristes, vamos contemplar que jornada incrível foi essa até aqui, e esperar pelas grandes coisas que virão. E agradecer que alguém como Hirohiko Araki exista, porque esse é um cidadão muito especial.