[ANIMES] HEROMAN: o anime de Stan Lee

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Stanley Martin Lieber, o mítico, lendário e onomatopéidico Stan Lee completou 92 anos de vitória e arte neste domingo. Mas não se preocupe, este não é mais um daqueles posts genéricos falando tudo que você já sabe sobre o cara. Ao invés disso, vou te dar algo que você provavelmente não sabia: você sabia que Stan Lee já escreveu um mangá uma vez?

Em 2009, o mestre Lee escreveu o mangá Heroman, que em 2010 veio a se tornar anime nas mãos do estúdio Bones (de Fullmetal Alchemist: Brotherhood e Cowboy Bebop: Knocking on Heaven’s Door). O resultado? Vamos a isso…

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=7fQYRTvO9y0]
Agora você já ouviu Stan Lee falando japonês. Você zerou a vida.

A PREMISSA

Joey Jones (provavelmente o nome mais americano possível, tão americano quanto Pierre LeFravre é francês ou Joãozinho das Couves é brasileiro) é o típico loser do colegial estadunidense. Mais precisamente de Central City – a cidade mais americana possível. Como troféu máximo de sua loserice, ele tem uma queda pela líder de torcida e garota mais popular da escola, o que seria legal, não fosse o fato de que o irmão dela é o valentão do colégio e capitão do time de futebol americano. Ah sim, e o melhor amigo do Joey é um magrelinho de minoria étnica.

Uau. Quer dizer, uau mesmo. Eu realmente duvido que alguém consiga imaginar um cenário mais americano que esse, e duvido ainda mais que isso tenha sido feito em um anime, dado que os japoneses têm problemas históricos com os Estados Unidos – com estrangeiros em geral, mas especialmente com os norte-americanos. Me pergunto o por que disso…

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… mas provavelmente jamais saberemos.

Pra vocês terem uma ideia, a coisa é tão séria que não é tão comum assim no Japão as pessoas saberem inglês, enquanto no Brasil, por exemplo, qualquer nerd de classe média arranha umas noções de inglês, é uma característica cultural nipônica cagarem para os idiomas dos demônios estrangeiros (repare que os personagens de anime, sempre que precisam reclamar de uma matéria, falam que inglês é difícil… até porque, iam reclamar do quê? Matemática, e perder sua carteirinha de asiático?)

Mas voltando ao anime, Joey Jones e seu amigo de cotas raciais estavam dando um role de loserice depois da aula, quando encontram a gangue de Will Davis – o tal valentão do colégio – experimentando um novo brinquedo da moda, que acaba quebrado porque eles são desses.

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Guile era um bully no colégio, faz sentido…

Como Joey é tão quebrado quanto, ele pega o robozinho do lixo, o leva para sua casa, o conserta, declara que ele é sua waifu, e tem uma relação de amor com ele, não espera, esse anime não se passa no Japão e é isso. O que Joey não contava é que, neste ínterim, a Terra estava prestes a ser invadida pelos malignos alíneas Skrulls Skuggs! Por sorte, a radiação do salto dimensional da frota Skugg se misturou com uma tempestade elétrica, e assim um raio carregado com essa gororoba pangalactica caiu sobre o pequeno boneco, a quem Joey tinha dedicado tanto amor e virgindade atenção!

Nasce assim HEROMAN!

Qual é, não é a pior origem de super-herói que eu já vi. Ou então me explica como isso é pior do que SER MORDIDO POR UMA ARANHA RADIOATIVA, ou nascer com um gene que permite transformar A ROUPA QUE VOCÊ USA. Pois é. Foi o que eu pensei.

Joey controla o Heroman mais ou menos como um treinador Pokémon (o Heroman se vira sozinho, mas Joey escolhe os golpes), mas, mais pra frente, ele começa a ganhar seus próprios poderes, e essa foi uma sacada muito boa, dando um tom muito mais humano e heroico aos combates (até porque, o Heroman em si é apenas um boneco primalmente sentiente, ele não é um personagem por si só).

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ENFIM, A ORIGEM É ESSA.

Como dá pra notar, o anime é uma história de super-heróis americanos tão americana quanto você é americano. Não, sério, dá uma conferida no visual do logo título de Heroman:

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Eu realmente tenho dificuldade em imaginar se Stan Lee estava trollando os americanos, os japoneses ou se ele é um gênio (fico com uma mistura dos três, mas aí é opinião minha mesmo).

Na verdade, essa é a coisa que mais chama atenção em Heroman: tirando o traço da animação, e alguns vícios narrativos, realmente você esquece que está assistindo um cartoon dos velhos tempos. Diabos, eu totalmente imaginaria isso passando de boa sábado de manhã na TV, e chega a ser irônico que Stan Lee tenha que ter ido até o outro lado do mundo para conseguir publicar uma obra no melhor estilo da Era de Prata dos quadrinhos.

Os heróis são heroicos, os vilões são vilanicos (ao ponto estereotipado da coisa), e o bem vence o mal em batalhas épicas pelo destino da humanidade. Eu honestamente senti falta de assistir algo ingenuo assim, às vezes apenas não precisamos de heróis sombrios e vilões repletos de tons de cinza.

Ao lado de todo grande herói sempre existe... um cara não caucasiano para deixar a coisa politicamente correta. De preferencia se ele for aleijado de alguma forma.

Ao lado de todo grande herói, sempre existe… um cara não caucasiano para deixar a coisa politicamente correta. De preferencia se ele for aleijado de alguma forma.

Toda tonalidade do anime é bastante simples, mas simples de um modo bom e gostoso, como os desenhos animados, e mesmo os quadrinhos costumavam ser: os jovens têm problemas de jovens e, neste ínterim, Joey e seu Heroman tem que salvar o mundo, e de alguma forma equilibrar sua identidade secreta e o tempo para ter uma vida normal.

Os personagens, aliás, são surpreendentemente inteligentes e razoáveis – sobretudo para os padrões de um anime – e a trama é bem amarradinha, sem subestimar a inteligencia de ninguém, como cabe a um bom desenho animado.

Falando em desenho, o traço da animação lembra bastante o desenho do Mega Man, e em vários momentos é possível traçar vários paralelos…

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… vários. Eu diria que Mega Man é, na verdade, uma das melhores comparações que podem ser feitas. As sequencias de ação estão acima da média e, por si só, já carregariam o desenho nas costas, são divertidas, dramáticas e emocionantes. Bastante épicas, na verdade – mesmo depois de Korra ter jogado nossas expectativas do que é épico em um desenho animado para o espaço.

Pontos extras pela trilha sonora, que ao invés da tradicional miadeira de animes, é composta por um rockzinho maneiro.

Agora, sem a menor dúvida, a melhor parte do anime são as referências. Não em pequena parte graças às idéias de Stan Lee, Heroman é um ode às animações e quadrinhos que fizeram a nossa infância – antes de tudo ficar sombrio, complicado e sério demais.

Repare no próprio logo do anime:

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Parece famíliar?

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O anime é todo cheio de referencias assim, desde o próprio nome do protagonista: Joey Jones (Stan Lee adora esse tipo de nome, como Peter Parker, Reed Richards ou Bruce Banner). Alias, Joey Jones também é órfão, e foi criado pela avó, uma tiazinha supimpa.

A história é dividida em três grandes arcos, que são o pão com manteiga de qualquer herói de quadrinhos: a invasão Skrugg e o nascimento de Heroman como herói, o segundo arco é dedicado a mostrar a caçada das autoridades atrás do Heroman (porque todo grande herói passa por isso), e o último arco é dedicado ao sacrifício e o que realmente significa ser um herói.

Entre um arco e outro, ainda existem sempre um ou dois episódios de bobeira, que estão ali apenas para serem divertidos (Dragon Ball Z fazia isso bastante e, honestamente, eu sempre preferi o episódio do Goku aprendendo a dirigir, do que os oito anos que ele lutou contra o Freeza)

Ok, eu não lembro exatamente da Matoi de Kill la Kill fazer parte do roll de clichês dos cartoons mas posso estar enganado...

Ok, eu não lembro exatamente da Matoi de Kill la Kill fazer parte do roll de clichês dos cartoons, mas posso estar enganado…

Temos todo tipo de clichê e referencia que você já possa ter visto em algum lugar da sua infância, de inimigos misteriosos de capote a aliens querendo dominar o mundo, mas feita com a qualidade de um estúdio que manja do que está fazendo.

As referencias e o clichê são o ponto forte do anime – resgatar o presidente americano é o be-a-bá básico da cartilha de ação, mas quando você imaginou um anime sobre isso? – mas ao mesmo tempo são sua maior fraqueza, dado que os personagens não são muito mais do que isso. Apesar de que Joey realiza uma “Jornada do Herói” completa, de manezão que sofre bullying a herói aclamado como tal, não existe muito mais nos personagens do que os seus estereótipos indicam – meio que como em qualquer cartoon clássico, na verdade.

Isso pode meio que incomodar nossas sensibilidades modernas (sei que me incomodou em alguns momentos, e vocês são muito menos sensíveis e mente aberta do que eu, afinal), mas não chega a prejudicar o show.

... dizia eu dos vicios narrativos de anime, um que outro escapam

… dizia eu dos vicios narrativos de anime, um ou outro escapam

Você consegue se importar o suficiente com os personagens para querer saber o que acontece com eles, como eles vão superar os desafios e torcer para que eles não se deem mal. E quer saber? Às vezes isso é tudo que é necessário.

Eu não tenho muita certeza de para que tipo de público esse anime foi feito, mas fico bastante feliz que tenha sido feito, e por alguns momentos eu me senti novamente de pijama na sala em um sábado de manhã aos sete anos de idade.

Tem coisas que só Stan Lee consegue fazer.

PS: E já que estamos no clima…

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=7R5A0pg4oN8]

nota-4