[ANIMES] DIGIMON ADVENTURE (resenha)

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Uma das grandes atrações que a Toei Animation prometeu para 2015, e certamente uma das mais esperadas, é Digimon Tri. As aventuras de Tai e cia continuam em 2015 – 15 anos depois de um dos animes que mais marcaram a infancia de muita gente. A coisa é que, na época que passou Digimon na Globo, haviam dois problemas que me impediram de apreciar a série em sua plenitude.

Uma delas é que eu estudava de manhã, e programar o videocassete para gravar era uma arte complicada muito sujeita a dar merda. Sério, vocês novinhos que nasceram com tudo disponível na internet, não fazem ideia do que é a adrenalina de chegar em casa, e descobrir se aquela merda deu certo ou não. Eram tempos locos, eu digo, LOKOS!

Digimon Adventure Tri estréia em abril deste ano

Digimon Adventure Tri estreia em abril deste ano

… ou seja, uma bela bosta.

A outra coisa que me impediu de apreciar o desenho na época plenamente, é que eu tinha por volta de 15 anos (não direi se para mais ou para menos, a fim de resguardar minha dignidade), e como todos nesta fase da vida, eu era um idiota sem noção. Não que eu não seja hoje, mas ao menos hoje eu entendo alguma coisa de entretenimento, estrutura narrativa, desenvolvimento de personagens, e coisas que são legais apenas por serem.

Então, como minha memória de Digimon era toda zoada, resolvi assistir o anime de novo, apenas porque sim. E compartilho com vocês minha opinião.

A REGRA DOS QUINZE ANOS

Existe uma regra não escrita que recomenda não assistir/jogar/ler novamente tudo que você amava quando tinha menos de quinze anos. Não deve ser assistido/jogado/lido novamente porque as chances de você se decepcionar são deslumbrantes. Pra ter uma ideia, eu achava Elfen Lied muito foda quando jovem, oh god why… (para mais detalhes, leia minha resenha sobre ele).

Acha que ser nerd antes da internet era fáicl?

Acha que ser nerd antes da internet era fácil?

Isso acontece por dois motivos basicamente: todo mundo é idiota, e tem um mal gosto do caralho quando tem 15 anos, e também porque algumas coisas envelhecem terrivelmente mal. Você ficaria surpreso sobre o quanto Final Fantasy VII é um jogo datado e obsoleto – bobinho até – para os nossos padrões de exigência modernos (e não estou falando de gráficos, e sim de roteiro, mecânica e desenvolvimento de personagens). Ainda assim, eu resolvi assistir Digimon novamente, porque eu sou desses…

A FALÁCIA DO CLONE DE POKÉMON

Por volta 199X (como diria o Mega Man), aconteceu uma das maiores revoluções da história dos videogames: Pokémon. O jogo de Game Boy não só carregou a economia cambaleante da Nintendo nos longos anos do reinado absoluto do Playstation 1 e 2 (quando a Sony governou os videogames sem sequer sombra de competição), como se tornou um fenômeno cultural. Pokémon estava nos salgadinhos, nas camisas, nos cadernos, nos álbuns de figurinhas, e como não podia deixar de ser, nos desenhos animados.

Aliás, o anime de Pokémon, por mais defeitos que tenha, acabou se tornando um marco da infância, e não conheço um nerd que não tenha assistido a primeira temporada (depois todo mundo se deu conta que aquela merda não ia a lugar nenhum e desistiu, o que é mais do que pode se dizer do público de The Walking Dead hoje em dia – mais sobre isto aqui). No Brasil, a Record ganhou na Mega-Sena com o sucesso dos monstrinhos de bolso, e enquanto a Eliana forrava seus dedinhos de dinheiro com o merchan, as outras emissoras se coçavam para fazer o seu próprio “fenômeno Pokémon”. A Globo, especificamente, apostou em três animes da mesma linha (infantis, com crianças e monstrinhos fofeeenhos): Digimon, Medabots e Monster Rancher (posso estar esquecendo de algum)

Nenhum deles, é claro, teve o mesmo sucesso de Pokémon – até mesmo pela pecha de serem “clones” – embora todos os três sejam animações muito melhores do que Pokémon. Mas eu deixo os outros para posteriormente, vim falar dos monstros digitais por hoje.

A verdade é que, tanto em estilo quanto narrativa, Digimon não parece nada com Pokémon, e a principal diferença é que a estrutura de Pokémon é mais para um cartoon mais focado em episódios isolados (embora com algum senso de continuidade), Digimon é um shonen (mais conhecido como “anime de luta”) para crianças. Sei lá, talvez esse gênero até tenha um nome especifico, mas dane-se.

Tailmon digivolve para... Fapeamon!

Tailmon digivolve para… Fapeamon!

EU NÃO ACREDITO QUE ISSO FUNCIONOU

Assistindo Digimon em 2015, a primeira coisa que me chamou atenção foi o fato que eu não acreditei como esse desenho conseguiu funcionar com tantos personagens na tela. O elenco principal é composto por 14 personagens (7 fedelhos e 7 digi-bichos, que são personagens com personalidade e fala, e não meramente animais alguma coisa inteligentes), isso só os protagonistas! É tanta gente em cena, que volta e meia a dublagem se perdeu, e você vê um dublador dublando falas do personagem errado.

Definitivamente eu não recomendaria isso, espremer essa gente toda em episódios de 20 minutos é jogar contra o próprio patrimônio, e dificilmente daria certo. E ainda assim, de alguma forma, deu certo. Ainda não tenho muita certeza de como.

NÃO É TÃO SIMPLES ASSIM

Ok, verdade seja dita, os digimons não são personagens tão complexos assim. Eles têm uma motivação básica, e um traço de personalidade cada um, nada muito mais que isso, mas funciona para o que se propõe a fazer – até porque, eles são programas digitais, meio que faz sentido eles seguirem uma “programação”.

Isso não quer dizer, no entanto, que os digimons incorram no “paradoxo Baymax” (mais sobre ele aqui), que é criar seres artificiais que seguem uma programação e se limitam apenas a ela. Os digimons têm personalidade o suficiente para você se importar com eles, e para um desenho animado infantil, está mais do que suficiente (grande parte do carisma dos Digimons vem dos acertos da dublagem, os dubladores fizeram uma parada muito cartunesca, e até meio forçada, mas que condiz perfeitamente com a proposta da coisa, e ficou excelente para funcionar em um desenho animado infantil).

Agora, o que realmente chama a atenção no programa são as crianças. Os personagens humanos são surpreendentemente bem construídos (ainda mais para este tipo de desenho), e realmente impressiona como as crianças se comportam como, bem, crianças. Pode parecer dizer o óbvio, mas não é algo tão simples de se ver em animações mais destinadas a um público mais novo.

Porque você não é você quando está com fome

Porque você não é você quando está com fome

As crianças têm medo de morrer, sentem saudade de casa (eles passam mais de ano no Digimundo, e dá pra sentir o quanto isso pesa neles), e elas têm problemas adequados à sua faixa etária. Nada de romances melodramáticos (aliás, o anime nem tem isso, salvo por uma piada ou outra com a Mimi), ou rancores profundos, não são adultos genéricos desenhados como crianças, e sim crianças de verdade, com problemas, tipo, ter os pais separados, descobrir ser adotado, ou sofrer pressões da família para seguir destino A ou B (o que é muito mais verdade no Japão do que aqui, mas ainda assim soa verdadeiro o bastante).

Por exemplo, no seu momento de catarse do personagem, a Sora – que tem um relacionamento difícil com sua mãe autoritária e intransigente – briga com o seu digimon para impedir que ela acabasse se machucando, só que a digimon não entendia que era para o bem dela própria. Então,no meio da discussão, cai a ficha da Sora que ela estava fazendo exatamente a mesma coisa que a mãe dela – que ela tanto criticava – fazia com ela. Isso é realmente profundo para um anime do qual só se esperaria monstros se soqueando. Right in the feelz!

Com exceção da Mimi (que é a personagem mais mal explorada do anime), todas as outras crianças são satisfatoriamente bem construídas, e cometem os erros (e acertos) esperados de uma criança tentando salvar o mundo (como ser impulsivo, estourar nos amigos, se sentir sobrecarregado com a responsabilidade, ou apenas cansar disso e querer ir pra casa).

Nos seus melhores momentos, Digimon me lembra uma versão pouco polida (até porque eram anos 90, né?) de My Little Pony: Friendship is Magic e isso é um grande elogio. Não é, minha nossa, uma Lenda de Korra, mas é feitinho com capricho sim.

UM DIGI-MUNDO INTERESSANTE

O mais bizarro não é nem haverem cabines telefonicas ligadas a nada na praia, e sim os telefones dizerem coisas como "são 99 horas, 78 minutos e 147 segundos"

O mais bizarro não é nem haverem cabines telefônicas ligadas a nada na praia, e sim os telefones dizerem coisas como “são 99 horas, 78 minutos e 147 segundos.”

Digimon é um anime simples, que tenta fazer as coisas de uma forma simples. Se é para ser uma aventura (até porque, esse é o nome do desenho), então precisamos de aventuras interessantes. E enquanto o tema dos episódios não é nada tão profundo assim (basicamente o digimau do dia ou algo assim), por outro lado o cenário é uma das coisas mais legais que eu já vi em uma animação.

Como o Digimundo é formado pela evolução natural dos dados que orbitam a Terra (imagine que acontecesse com os dados na nossa realidade a mesma coisa que aconteceu com os compostos químicos na origem da vida no planeta), não é estranho que ele seja repleto de dados aleatórios. Isso rende cenários ótimos, como desertos com milhares de postes telefônicos, ou uma fábrica no meio do nada, cuja sua linha de montagem monta peças apenas para desmonta-las, e recomeçar o ciclo infinitamente. Há muito non-sense bem feito, e por só isso vale uma conferida.

Uma das coisas que eu mais gostei é que o vilão da série, que aparece só no último episódio, é explicado lá por volta do quinto episódio rapidamente, mas então o personagem é interrompido, porque naquela altura aquilo não parecia importante. Christopher Nolan teria uma ou duas coisas a aprender com Digimon sobre como não subestimar seu espectador…

Com efeito, Digimon começa como uma aventura de sobrevivência (às vezes meio que parece um Senhor das Moscas versão anime com censura livre), e que eventualmente digivolve para um anime de luta sobre amadurecimento, descoberta pessoal, e trabalho em equipe (que são os valores fundamentais da sociedade japonesa, afinal).

TACA-LE PAU, AGUMON VÉIO!

Um Elvis macaco metálico que fala "Eu to passado com esses meninos". Seu argumento é inválido.

Um Elvis macaco metálico que fala “Eu to passado com esses meninos”. Seu argumento é inválido.

Mas personagens e cenário à parte, não é segredo nenhum que Digimon é um shonen, e os bichos tão ali pra sentar a porrada uns nos outros, com batalhas regadas a muita tiração de poder do olho do cu, e discursos sobre a amizade ou algo que o valha. Praticamente todo anime de luta faz isso, e Digimon não é diferente, mas há um truque aqui: tudo isso é fundamentado dentro do cenário.

Então, os Digimons têm sim níveis de poder (todo mundo adora isso), e tem muito sobre “acreditar em si mesmo, ou na amizade, no purê de batata”, mas o cenário foi bem construído para que isso ficasse orgânico. A série não apela, por exemplo, para Deus Ex-Machina, e sempre existe um motivo para o qual aquele vilão terrivelmente invencível tenha sido derrotado além de “tiramos amizade do ce e disparamos nele”. Ok, talvez não na batalha final, mas batalhas finais meio que têm o direito de serem piegas, então tá tudo certo.

SUA MAIOR VIRTUDE É SUA MAIOR FRAQUEZA

A trilha de sonora de Digimon é estupidamente boa, mesmo para um anime. Não, eu não gosto de J-Rock, J-Pop, J-Proibidão do Funk ou J-whatever, mas as músicas do anime são muito boas. Cara, foi em Digimon que eu conheci o Bolero de Ravel, pra ter uma ideia do nível da coisa!  De quantas obras pode se dizer isso?

As duas músicas tema do anime – a abertura Butterfly e a música de evolução, Brave Heart – são pequenas obras primas desses amarelos safados (de modo geral, toda série acabou se caracterizando por suas ótimas músicas), mas tem um porém aí. O anime tem 54 episódios, e a trilha sonora é puxada à exaustão, para ter uma ideia, é só por perto do episódio 35 que os digimons se transformam pela primeira vez, sem tocar Brave Heart, e cara, sem brincadeira, tem episódios que isso acontece duas, três vezes por episódio.

Ok, eu entendo que o anime tem que ter um bordão visual (como quando o Mega Man copia o tiro do inimigo, ou quando o Ash vira o boné para trás), e que tem que vender bonecos, mas as sequencias de evolução são jogadas repetidas vezes dentro de um mesmo episódio, e tem horas que você pode largar de mão o anime por uns 3 minutos que ainda vai estar nisso.

Você pode achar estranho que eu aponte isso como o maior problema, e não a simplicidade dos episódios, ou o abuso de clichês, mas você tem que entender que uma obra deve ser julgada por seu objetivo, e não pelos meus parâmetros pessoais de nerd trintão. Digimon foi concebido para ser um desenho animado para crianças de 10-13 anos, e para isso seu abuso de clichês ou simplismo exagerado funciona perfeitamente.

Ainda mais com seu final incrivelmente elegante, algo pelo qual os animes também não são conhecidos. E claro, tem também o fator nostalgia de quinze anos atrás… Tá, peraí que alguém que começou a cortar cebolas por aqui…

Esperar mais de Digimon neste sentido seria o mesmo que esperar um apelo ao público masculino em “Um Amor para Recordar“, ou reclamar que Mercenários não trata das consequências realistas dos conflitos globais em um mundo majoritariamente utilitário. Não é esse o ponto aqui, foi concebido para ser assim, e dentro disso Digimon faz muito mais do que se esperaria dele. Mas não as sequências de digitransformações, dava pra ter dado uma agilizada naquilo…

Levando em consideração o público para o qual foi feito, eu diria que Digimon passou com louvor no teste dos quinze anos.

nota-5

8 thoughts on “[ANIMES] DIGIMON ADVENTURE (resenha)

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  3. Cara, que horrível a música butterfly em português na cena final huahua. Acho que não tinha visto o final na tv quando era criança, porque não me lembrava dessa música dublada. Eu revi Digimon no fim do ano legendado e achei muito foda, agora quando vejo dublado acho muito estranho.

    • Vou te dizer que é pior que isso. Eu peguei uma versão fanmade da tradução da música, na verdade o que passou na cena aqui foi a abertura cantada pela Angélica (aquela “digimons, digitais, digimons são campeões”)

  4. Achei bem legal o seu texto! Também me fez relembrar vários momentos da série (e da minha infância rs). Qual site você recomendaria para ler um resumo ou mesmo assistir aos capítulos de Digimon Adventure 1 e 2? Gostaria de refrescar melhor a memória antes do início de Digimon Tri. Valew!

  5. O texto foi muito bom, mas gostaria de registrar que a dublagem brasileira é terrível: diálogos erroneamente traduzidos, encurtados ou alongados a ponto de ocorrer discrepância com a animação, além de atuação bem fraca se comparada à original. Outra coisa que incomoda é a inconsistência em tradução de termos, ora usando o termo original, ora o termo americano: as crianças com nomes americanos, “Myotismon” (que é o nome americano do Vamdemon) pra logo em seguida aparecer um AtlurKabuterimon (cujo nome americano é “MegaKabuterimon”)… E a inconsistência às vezes não fica de episódio a episódio, acontece no mesmo episódio. Lembro que o 36 tem uma parte que o MetalGreymon ataca usando o “Giga Tiro” (que é a tradução mais usada na dublagem, vinda do americano, “Giga Blaster”), para uns 4 minutos depois usar o “Giga Destruidor” (do japonês, “Giga Destroyer”). O ataque do Greymon passou de “Mega Chama” (do japonês, “Mega Flame”) para “Bola de Fogo” (do americano, Nova… Blaster? OI???)…

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