[ANIMES] Danshi Koukousei no Nichijou (ou os animes que dizem ni!)

Olá. Talvez você me conheça, talvez não – isso não é importante para o que eu tenho a dizer aqui. Talvez você não saiba dizer a primeira coisa a meu respeito, e enquanto isso potencialmente é verdade, eu posso afirmar algo sobre você com uma grande margem de segurança: daqui a um minuto, possivelmente menos, você vai me odiar.Tanto, na verdade, que grandes são as chances de que, dentro de um minuto e meio, você já tenha parado de ler esse texto.

Duvida? Então vamos lá: eu não acho Monty Python TÃO engraçado assim.

Eu avisei.

Para os 2,37% de vocês que não pularam imediatamente para os comentários para me xingar de fascista, ou qualquer que seja o xingamento da moda entre os jovens hoje em dia, me permitam elaborar melhor: o que os cinco ingleses e um americano fizeram com a comédia da época foi algo impressionante e muito, muito importante.

Eles quebraram completamente com o que se entendia como o humor “devia ser” na televisão. Piadas sem punchline, piadas com assuntos fora da área geral de interesse do grande público, ou com setup que derivava para algo complemente bizarro do nada, ou então quebrando a quarta parede como nenhuma série de comédia tinha feito antes. Aliás, algumas esquetes eram dedicadas apenas a debochar sobre como as “regras do humor” deveriam funcionar, com a clássica inclusão da “polícia da comédia” para manter essas piadas na linha.

O que eles fizeram foi muito ousado, e muito, muito, muito inteligente. Tão ousado e tão inteligente que se tornaram uma fonte de inspiração para o mundo inteiro. De Douglas Adams na própria Inglaterra até a TV Pirata no Brasil, eles mudaram para sempre as regras de como o jogo funcionava e mudaram para muito melhor.

De fato, Monty Python em Busca do Cálice Sagrado é uma comédia perfeita, disputando palmo a palmo com “Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu” o título de melhor comédia de todos os tempos. A Vida de Brian não é algo que eu chamaria de perfeito, mas com certeza é espetacular, uma vez que você entende a piada.

Isso sendo dito, e reconhecendo o quão fenomenalmente inteligentes eles eram, na maior parte do tempo eu tenho que observar, porém, que Flying Circus está repleto de filler. Como de costume, nós nos lembramos das grandes coisas, mas esquecemos das medianas para baixo (como a forma como achamos que os primeiros cinco anos dos Simpsons foram todos de ouro, quando na verdade muito dos episódios eram bem meh).

Eu tenho a coleção de DVD do Flying Circus, e como alguém que tem uma apreciação crítica de comédia, eu ainda posso assistir os piores esquetes deles com interesse em entender sua construção, observando a diferença entre boas ideias que foram mal executadas, e ideias ruins que não tinham inspiração desde o começo. Para alguém que não é tão afeito a análise assim, entretanto, tem muita coisa que pode ser jogada fora.

E mesmo quando era bom, não era necessariamente engraçado. Na verdade, na maior parte do tempo, é mais interessante do que engraçado. Me permita dar um exemplo disso: a piada mais engraçada do mundo.

PROTIP: Coloquem “Wenn ist das Nunstück git und Slotermeyer? Ja! Beiherhund das Oder die Flipperwaldt gersput!” no Google Tradutor e peçam para traduzir de alemão para inglês

Puta merda, que ideia inteligente e bem executada. É uma esquete interessantíssima… exceto que eu não conheço uma única pessoa que jamais tenha rido dela. Isso é verdade para a maior parte das esquetes do Monty Python. Normalmente, a pessoa que entende a piada pensa “uau, isso foi esperto de verdade”, mas não muito frequentemente ri disso.

Então, é, eu não acho que Monty Python seja TÃO engraçado assim.

E agora que eu já estou a quase 600 palavras explicando quais são meus sentimentos a respeito de Monty Python, talvez seja justo imaginar que você está apenas se perguntando… O QUE ISSO TEM HAVER COM O ANIME DO TÍTULO? Na verdade, é mais justo ainda imaginar que você não pensou em nada disso, porém, este sendo um texto previamente escrito, eu diria que posso achar que você pensou o que eu quiser, não?

De qualquer forma, seu pensamento (ou não) tem um ponto: o que Danshi Koukousei no Nichijou (“A vida cotidiana dos garotos do colegial“, que não tem uma abreviação descolada, porque o autor admite que não conseguiu pensar em uma) é o mais perto que eu já vi um anime chegar de Monty Python’s Flying Circus em estrutura e execução.

ENTÃO, SOBRE O QUE É ESSE ANIME, EXATAMENTE?

Bem, é sobre garotos do colegial levando uma vida cotidiana.

UAU, PARECE QUE TEMOS UM XEROX ROLMES AQUI! NÃO, SÉRIO, SOBRE O QUE É?

Então, DKN é uma sequência de esquetes que duram entre um e quatro minutos cada sobre os mais diversos temas. Muitas delas são baseadas nas memórias do colegial do autor em uma escola só para meninos – existem passagens com as quais podemos nos identificar, pois passamos pelas mesmas situações, outras são engraçadas pelo nonsense absoluto das mesmas. Sabe aquelas conversas que nós tínhamos nas tardes de verão antes da internet, em que precisávamos ser absurdamente criativos para passar o tempo devido a falta de opções? Então, DKN é bastante sobre isso,

Que foi? Como se você e seus parças nunca tivessem tido a curiosidade …

Como o nome do anime sugere, os temas das esquetes giram em torno da vida cotidiana de garotos do colegial, porém, isso não é necessariamente uma regra. Tal qual os quadros do Monty Python, pouca coisa aqui é algum tipo de regra. As esquetes de DKN também avacalham com os clichés da comédia nos animes, e mesmo as expectativas que são colocadas sobre cada gênero.

Na cena inicial do anime, por exemplo, em um pacato dia de sol, robôs gigantes tomam uma pacífica cidadezinha, e agora cabe a um grupo de aventureiros de RPG acabar com essa terrível ameaça. Após quase uns cinco minutos de desenvolvimento desse setup, um dos personagens interrompe aquilo tudo para perguntar porque eles estão fazendo essa cena, já que o anime não é sobre nada disso. O outro, então, responde que é um anime da Sunrise (conhecida por Gundam e suas séries de mecha) e distribuído pela Square-Enix (conhecida por seus RPGs para videogames), então era o que as pessoas esperariam, não? E essa foi a piada, fim da esquete. Inteligente? Sim. Precisava de 5 minutos para ser contada? Aberto para debate. Possivelmente não.

O que é o mesmo que pode ser dito de 87% dos esquetes do Monty Python. Vê o meu ponto aqui?

O show frequentemente quebra a quarta parede para debochar dos vícios de anime, tanto que faz piada consigo mesmo, por introduzir um personagem no penúltimo episódio da série – algo que narrativa séria nenhuma deveria ousar fazer. Bem, DKN é tudo menos sério.

Então, quando eu digo que DKN é o mais próximo que eu já vi de uma versão anime de Monty Python, é exatamente nesse sentido que eu estou falando: a autossátira aos clichés do gênero (esse gênero de slice of life colegial normalmente é para mostrar meninas bonitinhas fazendo coisas fofinhas, e isso não passa desapercebido aqui), as criticas sarcásticas a sociedade (os Pythons gostavam bastante de sacanear a burocracia e o dogmatismo do modo de pensar britânico, DKN se diverte às custas das relações estranhas entre meninos e meninas no Japão) através de esquetes que, geralmente, não possuem uma punchline ou sequer sentido.

Mais do que fazer um Terry Gillian waifu kawaii desu, DKN abraça o espirito rocambolesco dos Pythons como poucas vezes eu vi um anime fazer antes.

Essa foi a esquete que me fez começar a assistir o anime, e uma das melhores, na minha opinião

TÁ, MAS ISSO É ENGRAÇADO?

Então… essa é uma pergunta complicada. Na maior parte do tempo, não. Você apenas acena com a cabeça e, se entendeu a referência, faz sua pose de Capitão América e aprecia a inteligencia do que foi feito ali. Eu diria que apenas uma em cada dez piadas é realmente engraçada (claro que esse número pode variar conforme o seu gosto para mais ou para menos, mas eu duvido bastante que fuja muito disso).

Mas sabe de uma coisa? Isso é até esperado, de certa forma. A maioria das comédias é assim; é maçante a maior parte do tempo, mas, de vez em quando, ela te pega. A boa comédia vai te pegar a cada quinto ou a cada décima piada. A comédia ruim nunca te pega. Mesmo grandes rotinas de stand up, os melhores álbuns de comédia que você já ouviu, são versões destiladas de um corpo de anos de stand up. No momento em que você assiste o Class Clown de George Carlin, o comediante já eliminou as piadas que não funcionaram no longo processo de aperfeiçoamento de seu set, e o álbum em si foi editado para tirar as partes maçantes da rotina.

Se você conversar com qualquer um que já fez stand-up, vai descobrir que é irreal para qualquer comediante esperar que todas as piadas realmente funcionem. Eles trabalham com a expectativa de que apenas uma certa fração das piadas realmente entre, e a diferença entre um grande show e um ruim é o quão grande é essa fração.

No final de cada episódio tem também um quadro “Garotas do colegial são descoladas”, que mostra as aventuras de… garotas do colegial que são descoladas… Sério, eu não sei o que você estava esperando aqui.

Monty Python é lembrado por, sejamos honestos, acertar uma em cada dez piadas. É só fazer uma conta básica: “Flying Circus” teve 45 episódios, onde devem ter tido, em um palpite conservador, 300 esquetes, dos quais eu posso lembrar de apenas 20 realmente engraçados, então, essa não é uma taxa de sucesso enorme. Danshi Koukousei no Nichijou trabalha com uma métrica bem parecida, e depois de assistir seus doze episódios, provavelmente você vai ter aproveitado realmente uma piada por episódio – um pouco mais, um pouco menos.

Não parece muito, mas eu acho que é o suficiente, afinal, é disso que você se lembra anos depois; Graças à maravilha da memória seletiva da nostalgia, você nunca se lembra da merda que havia entre os seus shows favoritos, a menos que esteja bem na sua frente.