[ANIME] FLCL (Furi Kuri) completa 15 anos hoje!

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por Rodrigo F.S. Souza e Aélsio Viégas

O tempo passa, o tempo voa, e os bons tempos do Gainax vão ficando para trás. Há exatos 15 anos ia ao ar pela 1ª vez no Japão o 1º episódio da minissérie em 6 partes FLCL, ou Furi Kuri, uma das pérolas produzidas pelo estúdio que também nos presenteou com Neon Genesis Evangelion.

FLCL desde então continua na lista da animações mais insanas que já assisti, assim como uma das mais divertidas. Em seus seis episódios, dirigidos por Kazuya Tsurumaki, acompanhamos a vida de Naota Nandaba, um moleque de 12 anos que, num dia aparentemente normal, é atropelado por Haruko Haruhara, durante sua chegada à cidade de Mabase pilotando loucamente sua vespa. Após ressuscitá-lo fazendo respiração boca-a-boca, Haruko o acerta na cabeça com seu baixo aparentemente por nenhum motivo específico. Isto deixa um galo na testa da Naota, que mais tarde se transforma num chifre, que ele logo descobre ser na verdade a parte de um robô que está tentando sair de um portal interestelar que abriu-se no lugar onde ficava seu cérebro (!) do qual saem mais robôs e outros objetos, alguns deles provenientes da Medical Mechanica, uma fábrica misteriosa nas cercanias de Mabase cujo prédio tem a forma de um FERRO DE PASSAR GIGANTE.

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Como se tudo isto não fosse louco o bastante, Haruko vai trabalhar como empregada doméstica na casa de Naota, onde ele vive com seu pai e seu avô. Não demora até que ele descubra que Haruko é uma investigadora da Irmandade da Polícia Espacial Galáctica, e que ela está usando Naota em sua busca pelo Rei Pirata Atomsk, um ser superpoderoso que está preso na Medical Mechanica. Mais adiante entra na história o Comandante Amarao, um agente especial do Bureau de Imigração Interestelar, que acredita que a Medical Mechanica é apenas uma parte de uma frota alienígena cujo objetivo é conquistar a galáxia.

Se você achou tudo isto maluquice demais pra sua cabeça, devo dizer que o que contei acima não é nem um décimo do grau de pirações e situações surreais que ocorrem em apenas seis episódios.

Porém, tais exageros podem ser interpretados de outra forma, se observamos alguns detalhes. Um deles é o fato de Naota estar em plena adolescência, com os hormônios à flor da pele, e convivendo com Haruko e Mamimi, ambas garotas atraentes e mais velhas que ele, sendo a segunda a ex-namorada de seu irmão mais velho, que partiu do Japão pros Estados Unidos pra seguir sua carreira como jogador de baseball. Fora as duas, ainda rola uma leve tensão sexual entre Naota e Eri, uma colega do colégio onde estudam, que é o mote de um episódio inteiro.

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Naota, o moleque de 12 que todos nós gostaríamos de ser

flcl screenshotAgora pensem conosco: ele é acertado na cabeça por uma garota maluca mas atraente, e do galo em sua testa cresce um chifre, de onde mais tarde literalmente “esguicha” dois robôs que começam a lutar um contra o outro imediatamente. O que mais “esguicha” com frequência de um garoto dessa idade, depois de ficar pensando demais em garotas atraentes? Sim, estamos olhando para uma alegoria visual da masturbação masculina. Isto apenas no primeiro episódio. Depois dele, Naota passa a série inteira sentindo-se atraído alternadamente por Haruko, Mamimi e Eri.

Vale a pena levar em conta o detalhe de que Naota fica resmungando o tempo inteiro que nada de novo ou diferente acontece em Mabase, o que consequentemente gera um desejo de fugir da rotina. Todos precisamos de uma válvula de escape. E a de Naota é sua imaginação. E como nosso protagonista é um adolescente, temos 6 episódios que usam um estilo de direção e montagem que torna a narrativa extremamente frenética e alucinada, o que podemos associar às “explosões” hormonais da adolescência.

flcl fanart 11 by khel

Haruko é pura fantasia. Ela aparece sempre provocando Naota e outros homens, seja esfregando-se no moleque, lambendo um taco de baseball, se vestindo de enfermeira… E é com ela que Naota perde a virgindade, o que é representado pela cena em que ele rebate uma bola de baseball gigante vinda do espaço (só vendo mesmo pra entenderem), que ele só consegue enviar pra fora da atmosfera do planeta, e assim salvar sua cidade, quando Haruko o ajuda. Ou seja, eles gozam juntos!

Pra corroborar essa interpretação temos Naota repetindo pra si mesmo uma pergunta ao longo da minissérie: “onde acaba a realidade e a fantasia começa?”

Agora leia o comentário de Kazuya Tsurumaki, diretor da série:

Gosto de pensar em FLCL como a imaginação tornando-se física e tangível, como ela é comigo quando pego uma coisa da minha cabeça e a desenho.

Dá até pra imaginar o anime inteiro, a partir do momento em que Naota é atropelado, como um sonho do garoto, embora essa possibilidade não seja sequer mencionada na série. Mas dá pra imaginá-lo internado num hospital após o acidente, tendo um sonho longo e febril com várias garotas que ele conheceu, como a ex-namorada do irmão, a amiga do colégio onde estuda, e a maluca que o atropelou.

Temos ainda Canti, o primeiro robô que sai da cabeça de Naota e que, ao ser avariado por um golpe de Haruko, muda de cor vermelha, associada a Atomsk (já falamos dele), para a cor azul, e que depois disto começa a trabalhar na casa do menino, e ajudá-lo a combater outros robôs que saem de dentro dele. Talvez seus demônios internos?

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Canti é tanto uma armadura usada por Naota, como uma forma de tornar-se mais do que um menino comum. E mais, o robô às vezes é retratado como um anjo, um deus, além de ser igualado ao irmão ausente de Naota, que era uma espécie de herói pra ele, até resolver abandoná-lo no Japão. Um herói agora distante, que só pode ser visto através de uma tv. Agora observem acima a forma da cabeça de Canti. 

Ao longo de FLCL vários personagens indiretamente mostram pra Naota que, pra passar pra outro nível, ele tem que crescer, tem que usar o próprio taco. Ele não pode ser o irmão ausente, nem o step da Mamimi, e nem Atomsk – um ser alienígena em forma de pássaro de fogo com poderes cósmicos que se assemelham à Força Fênix da Marvel Comics, cujo poder Haruko quer possuir. Naota tem que ser ele mesmo. Por isto, o refrão da música que toca durante a batalha final diz: “EU ACHO QUE EU POSSO!”

Naota after the final battle in FLCL

Enfim, FLCL é um feito único de animação, com muitas experimentações de estilo, um ritmo frenético e amalucado, e algumas das batalhas entre robôs mais empolgantes já feitas num anime, o que torna a experiência de assisti-lo muito divertida! Tudo isto embalado por uma trilha sonora em grande parte composta pela banda de j-pop The Pillows, e que merece ser ouvida.

Como o anime nunca foi exibido nem lançado oficialmente no Brasil nestes 15 anos de sua existência, deixo com vocês a dica de assisti-lo em qualidade de DVD clicando aqui. E caso goste o bastante pra querer guardá-lo e revê-lo de tempos em tempos, como nós fazemos, é possível baixar os episódios em qualidade de blu-ray neste site.

E abaixo a trilha sonora completa:

Pra finalizar, algumas artes oficiais, fan arts e cosplays homenageando este que consideramos um dos melhores animes que já assistimos:

Agora faça o favor de assistir FLCL, pois ele é um anime perfeito pra tirar o gosto amargo e melancólico de um domingo.