[ANIMAÇÕES] CASTLEVANIA (ou o que é o homem, senão uma miserável pilha de maratonas na Netflix?)

Imagine o seguinte cenário: o capiroto se aposentou. Ele disse “ah, quer saber? Vocês agora têm sessão de comentários na internet e eu nunca vou conseguir competir com isso“, e pendurou as chuteiras. Tudo que ele quer agora é passar suas tardes lendo Stephenie Meyer e ouvindo Céline Dion (que foi? Ele ainda é o mau encarnado, afinal). Então, um dia, uma simples camponesa de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha bate à sua porta pedindo acesso à sua biblioteca de conhecimentos proibidos, para tornar a vida das pessoas um tanto menos lazarenta.

Bem, estamos falando da Valáquia (um cafundó no cu do Judas do interior do sul da Romênia) em 1455 – qualquer coisa além de tentar curar hemorroidas usando um ferro quente já seria um avanço médico enorme. O cramuião se deixa levar pelas qualidades humanas positivas da moça e, eventualmente, eles se apaixonam, casam e até têm um filho.

O que teria terminado muito bem para todos os envolvidos, não fosse a igreja achar que essa moça, dizendo às pessoas para lavar as mãos antes de comer, estava seriamente ameaçando seu poder político e social. E, por isso, decidiram queima-la como uma bruxa em praça pública. É, o capeta tava super de boas na dele, e aí vocês vão e queimam a mulher dele por motivo nenhum. Sério, por que não aproveitam o embalo e atiram no cachorrinho dele também?

Eu vou te dar um tempo para você refletir sobre essas palavras.

To vendo que sou eu que vou ter que limpar essa merda, né?

O resultado, de forma pouco surpreendente, é exatamente o que você poderia esperar: ele fica putasso da cara. Mas não se preocupem: o conde Drácula ainda está comovido pelo amor de sua esposa e decide ser razoável: ele dá aos humanos um ano inteiro (que é o tempo que ele vai levar para abrir os portões do inferno e trazer a belzebuzada para tocar terror) para simplesmente sumir da vista dele e não olharem para trás. Depois disso, quem decidiu ficar vai falar fino no pelourinho, mas ao menos ele deu esse aviso primeiro.

Aviso o qual as pessoas decidem solenemente ignorar, porque achar que as coisas que vão dar merda “nem são tão sérias assim”, até estarmos nos afogando nela, é o que fazemos de melhor.

Mais uma vez, isso acaba da forma que se poderia esperar a todos os envolvidos:

Sério gente, o que vocês esperavam que fosse acontecer?

Oh, mas não temam, nobres camponeses romenos da idade média! Pois, desde tempos imemoriais, a família Belmont se dedica a combater as obscenidades das trevas para que o dia possa nascer novamente! É só chamar os caras e… ah, é mesmo. Essa é a mesma família Belmont que foi excomungada, expulsa de suas terras, e destruída por causa das superstições e da igreja de vocês… Porra gente, vocês não se ajudam mesmo, né? Puta que pariu, vocês tem mais é que se foderem mesmo, viu!

Este é o mundo de Castlevania, que mais do que uma adaptação caça-níquel de uma franquia famosa dos videogames, propõe um tema muito interessante: como você salva o mundo quando o mundo não merece ser salvo?

Tá repreendido em nome do metaaaaaaaaal

A série animada da Netflix tem 4 episódios de 25 minutos, sendo que o primeiro se foca no conde Vlad Tepes, e sua decisão de passar o rapa na raça humana; e os demais no relutante último dos Belmont, tentando salvar a si mesmo da sobriedade, e salvar a humanidade das hordas do inferno, mesmo que esses filhos da puta não mereçam.

É impressionante o quanto Adi Shankar conseguiu colocar de tema e construção de mundo em uma série onde não existe praticamente nenhum (Sério, os jogos são meio que “vampiro do mal aparece, mate ele” e só. Aqui o vilão recebe até uma motivação bastante relacionável). O mundo de Castlevania parece antigo e místico, repleto de monstros, feitiços e tecnologias esquecidas pelo tempo. Mas, mais do que isso, a série não é muito sútil em colocar o dedo na ferida sobre nossa relação, ainda primitiva, com a fé e o preconceito – o que é uma mensagem tão válida em 2017 quanto era em 1476, para você ver o quanto estamos mal ainda.

A trama série, em si, é apenas um teaser da ideia geral, e mostra Trevor Belmont relutantemente assumindo seu papel como Belmont, reunindo um grupo muito improvável para salvar o mundo da devastação, curar os males de nossa nação. Juntam-se a ele a Speaker (um tipo de “ciganos/feiticeiros do bem”) Sypha, e o meio-vampiro Alucard, filho do próprio Drácula.

Se você já jogou um dos melhores jogos do Playstation, Symphony of the Night, farei uma pausa para você dar gritinhos de fangirl histérica aqui…

Sim, AQUELE Alucard. Pode parar de molhar o chão da sala agora. Do grupo original do jogo Castlevania III, ainda falta o pirata-acrobata Grant DaNasty, mas isso vai ficar para a próxima temporada.

Pra ser perfeito, o final precisava ter os três entrando no castelo do Drácula com essa música

VALORES DE PRODUÇÃO MUITO ALTOS

Castlevania tem um bom tema, um bom desenvolvimento de personagens, bons diálogos e um ótimo cenário. Mas nada disso teria muito valor sem uma excelente execução, e temos o padrão Netflix de qualidade. A começar pelo elenco de dublagem: Trevor Belmont é dublado por Richard Armitagge (Thorin Escudo-de-Carvalho), que dá um tom perfeito de cínico cansado desses filhos da puta, mas que vai ajudar porque, no fundo, ele é uma boa pessoa. Aliás, do Hobbit veio também o dublador do Drácula, Graham McTavish (o Dwalin). Alucard, para nerdgasmo generalizado, é dublado por ninguém menos que James Callis – o Gaius Balthar (aka o melhor personagem da série) de Battlestar Galactica.

“Seu padre, me diz: eu to com alguma coisa no meu dente?”

Mas fala-fala a parte, o grande destaque na produção da animação vai mesmo para a violência explicita na série. E quando eu digo violência, é gore pra caralho, do tipo demônios comendo bebês, e pessoas tendo olhos arrancados a chicotadas de forma bastante gráfica. É esse tipo de violência de que estamos falando aqui.

Em uma série de menor qualidade passaria facilmente como shock value sem conteúdo para impressionar adolescentes, mas a construção de mundo é tão bem feita, que você não consegue imaginar feito de outra forma. Em um mundo sujo e corrupto, onde a vida humana vale muito pouco, é apenas adequado que os níveis de violência sejam condizentes com o apresentado.

Dito isso, a Netflix estava claramente apenas testando a temperatura da água, e os quatro episódios dessa temporada podem ser considerados muito mais um teaser do que qualquer outra coisa (O que é bastante comum. A primeira temporada de Walking Dead teve seis episódios, por exemplo).

Tendo sido aprovado no primeiro teste, o showrunner Adi Shankar (de forma pouco surpreendente, produtor de Dredd, e daquele curta dos Power Rangers que inspirou o filme de 2017) vai ter todo o tempo e recursos que quiser para corrigir alguns problemas menores, principalmente o ritmo e alguns diálogos, que poderiam ser mais polidos – sobretudo no humor – e usar as músicas da série, que são lindas pra caralho, coisas assim.

Mas o que importa é que, depois dessa prévia, podemos esperar que ele entregue uma obra com o aclamado “Padrão Netflix de Qualidade” (fica quieto aí, Punho de Ferro, que ninguém te chamou na conversa!)