[ANIMAÇÕES] A LENDA DE KORRA (resenha)

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Uma das grandes verdades do entretenimento é que é abusivamente fácil produzir conteúdo para crianças. Basta tacar qualquer merda colorida, se pá rola junto umas musiquinhas e pronto, tá vendido o seu produto e milhares de brinquedos em anexo.

Na verdade tentar adicionar qualidade a uma obra infantil provavelmente só vai te resultar em uma única coisa: incomodação com os pais que querem só usar a TV como creche para se livrar dos pirralhos por algumas horas. A lista de “taca qualquer lixo aí que cola” é enorme.

Isso não quer dizer, no entanto, que animadores não sejam também artistas, e não tenham pretensões ou necessidade de se expressar. Embora seja muito lucrativo fazer um Peppa Pig da vida, dificilmente alguém se sentiria realizado de verdade vivendo apenas disso.

Por isso, às vezes, muito raramente às vezes, esses peões da indústria da animação conseguem dar um desdobre magnífico nos executivos e conseguir espaço para fazer algo realmente memorável.

E talvez o maior exemplo disso seja Avatar: The Last Airbender.

É realmente impossível chegar a um consenso para apontar qual o melhor desenho animado de todos os tempos. Se você reunir dez pessoas para discutir isso, terá 37 opiniões diferentes. Entretanto, todavia, contudo, pode-se seguramente afirmar que Avatar: The Last Airbender merece sempre ser considerado nesta lista, e não sem motivos.

tumblr_mxmjq3MN7U1sa86w1o1_500O desenho que, à primeira vista, parece absolutamente comum, é divertido, com uma animação fluída, personagens críveis, um cenário interessante, artístico e lindo (Appa’s Lost Days, o episódio praticamente sem nenhuma fala, que conta a história do Appa, ainda faz meus olhos suarem), aventuras com premissas e consequências realistas, e um incrível desenvolvimento de personagens. É o tipo de desenho animado que, se você pudesse mudar qualquer coisa… não existe muito para ser mudado realmente.

Por isso, foi com muito ceticismo que eu recebi a notícia de que A Lenda de Aang teria uma continuação. Porém, como agora está começando a quarta temporada, e a internet está babando por esse desenho, eu resolvi dar uma chance.

SUA BENÇA, SINHO AANG

Uma das coisas que eu mais gostei é que a série respeita absurdamente a série original. Aang viveu aventuras incríveis e foi o melhor Avatar ever, e a Korra não está tentando tomar o lugar dele. Ela mesma diz várias vezes que tudo que ele passou, e o que ele conseguiu fazer, ela não consegue sequer imaginar como deve ter sido – mas que, mesmo assim, ela vai fazer o melhor que pode como Avatar.

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É mais ou menos como explicar para uma criança que o novo namorado da mamãe nunca vai substituir o seu pai, mas isso não impede que ele seja um sujeito bastante legal também.

Adicionalmente, é muito gratificante ver como as coisas se desenvolveram após a guerra dos 100 anos: Aang e Katara tiveram uma vida longa e uma família feliz (e se tem alguém que mereceu isso é esse guri), e junto com seu best friend Zuko eles fundaram uma nova cidade estado, onde as pessoas poderiam viver em paz, independente de que tipo de dobra que elas faziam ou deixavam de fazer.

Esta é a Cidade da República, e 70 anos após as aventuras do então último Mestre do Ar é quando começam as desventuras da Avatar Korra.

A premissa inicial

Avatar A Lenda de Korra Livro 2 - 04 assistir onlineKorra não poderia ser mais diferente de Aang em todos os sentidos, tanto em personalidade quanto em recursos. Ao contrário do carequinha com a seta na cabeça, Korra foi criada apropriadamente como um Avatar: sob o olhar atencioso de seus pais, ela foi treinada pelos melhores mestres do mundo desde criança, e ela não teve que resolver um conflito sanguinário de um século enquanto fazia isso.

Em personalidade ela também é muito diferente do Aang, e alguma coisa lembra bastante a Katniss de Jogos Vorazes: ela é orgulhosa, impulsiva, teimosa e tem dificuldade em obedecer ordens.

A jovem Avatar meio que já domina os três elementos, porém nunca teve sucesso em controlar o ar – o elemento mais distante da sua personalidade – e por isso vai à Cidade da República encontrar o último mestre do ar que existe: Tenzin, um dos filhos de Aang, onde viverá altas confusões.

Esta é a premissa inicial da série.

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“Republic City, Republic City” já cantava Frank Sinatra

Se The Last Airbender tinha uma pegada tradicional chinesa. A Lenda de Korra se passa em um cenário que lembra muito, mas muito mesmo, um tipo de Nova York dos anos 20 só que steampunk. E eu não preciso realmente explicar o quanto isso é legal, por favor né?

Todos os grandes marcos da cidade estão lá – desde o Central Park, o Empire State e até uma estátua gigante do Aang em uma ilha que faz as vezes de Estátua da Liberdade – só que em um universo dos anos 20 reimaginado pelo poder das dobras. Isso quer dizer que existem aviões (daqueles tipo da primeira guerra, que nem os do King Kong), automóveis e telefones.

Mas a evolução da tecnologia é o menos impressionante aqui: a coisa que realmente pega é a evolução social do cenário, agora que não existe mais um inimigo em comum.

Pergunta: o que aconteceria no nosso mundo se as pessoas tivessem o poder de fazer dobras? A resposta óbvia é que elas deturpariam isso de alguma forma, tipo como ferramenta de poder … hm, tipo… mafiosos dobradores?

Pois é, exatamente isso que acontece aqui. Os elevadores dos prédios não possuem ascensoristas, mas sim dobradores de terra, que fazem os elevadores subirem e descerem, por exemplo, e a “dobra profissional” é o novo esporte nacional.

Toda a nossa realidade foi reimaginada para acomodar este universo, e o resultado é muito legal. Mas a pergunta que realmente fica no ar é a seguinte: se existem pessoas que conseguem fazer as dobras, e existem as que não conseguem… isso não geraria uma divisão social tremenda?

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Um livro em quatro capítulos

Pois este é o tema da primeira temporada, em uma clara referencia a X-Men (apenas imagine um mundo ao contrário, em que os mutantes fossem a casta social dominante). Amon, o “vilão” da temporada, é o líder dos Igualicionistas, que querem reunir os humanos comuns e formar uma sociedade onde todos sejam iguais. O que, em muitas vezes durante a temporada, me fez questionar sobre quem eram os verdadeiros bandidos nessa história.

A segunda temporada tem uma pegada completamente diferente: Korra se afasta da Cidade da República e mergulha em uma jornada espiritual para descobrir a essência do que é ser o Avatar. Porque ser o Avatar é muito mais profundo e complexo do que só meter porrada nas pessoas usando quatro tipos de ataques especiais diferentes, e todo lado espiritual da coisa é trabalhado nesta temporada, ligado a um plot épico que envolve as políticas da Tribo da Água (que são uma mistura de esquimós com nativos americanos, afinal), as origens do primeiro Avatar, e uma batalha épica pelo destino do mundo.

Aliós, os dois episódios que contam a origem do primeiro Avatar são uma das coisas mais épicas e bonitas que eu já vi em um desenho animado. Se você tinha alguma dúvida se A Lenda de Korra era tão bom quanto The Last Airbender, a dúvida a partir dessa temporada é discutir se não é MELHOR – talvez você ache ou não, mas só o fato de poder haver essa discussão já diz muita coisa.

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A segunda temporada é tão épica, que o tema da terceira temporada é “Mudanças”, para absorver todos os acontecimentos da segunda temporada, mas também é uma fase de muitas mudanças para Korra, que amadureceu muito como personagem, ao mesmo tempo em que chega ao fundo do poço, devido a uma série de fatores porque… bem, porque a vida é uma vadia. E a vida de um Avatar é mais vadia ainda.

A quarta temporada, que está começando agora, tem o tema “Equilíbrio”, que é onde Korra vai (supostamente) se reencontrar e trazer balanço, não só às coisas mas também a ela mesma, de uma forma foda ainda que intimista – como é a marca registrada da série – mas aí já é especulação minha.

Avatar Wan: o Jesus asiático. Morri.

Avatar Wan: o Jesus asiático. Morri.

A evolução por detrás das câmeras também

Não foi só o cenário que evoluiu desde The Last Airbender, mas a equipe de produção também. Se em 2005 o desenho ainda estava experimentando com os limites de até onde poderia ir, dado que a Nick é um canal infantil, em 2012 (quando começou Korra) eles estão muito mais seguros de si e com o que estão fazendo.

Em termos gerais, Korra é um desenho muito mais pesado e violento que o original, só que não parece tanto. Como isso? Usando as técnicas do grande mestre Chris Nolan.

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Você sabia que Batman – O Cavaleiro das Trevas, é um filme com censura de 13 anos? Pois é, parece chocante, mas se você pensar bem, não existe grande quantidade de mortes ou sangue EXPLÍCITOS no filme. A gente é levado a entender que o Coringa furou o olho do cara com um lápis, mas essa cena não é mostrada de uma forma pesada ou explicita. E esse é o truque aqui.

Da mesma forma, em Korra a palavra “morte” não é utilizada uma única vez. Em determinado momento, um personagem importante morre, mas ninguém diz isso claramente, são usados apenas eufemismos para como “ela foi forçada a deixar o cargo”, quando o contexto deixa muito claro que ela morreu mais que bem morrida.

"O próximo que fizer mais uma piadinha de João-sem-braço vai ter!"

“O próximo que fizer mais uma piadinha de João-sem-braço vai ter!”

Ou então usar os cortes certos de câmera para tornar a violência mais palatável. Em determinada cena, o Tenzim é espancado por três até perder os sentidos, de uma forma que faria Laranja Mecânica sentir orgulho, mas a cena mais deixa a entender isso, e corta para trás de um pilar, para não mostrar o gore em si.

Claro que os caras também não são perfeitos, e às vezes os inimigos sofrem uma estranha síndrome de vilão do James Bond: as pessoas são capturadas para serem executadas de forma metódica e “salvável”, ao invés de serem apenas assassinadas ali mesmo – embora é verdade que os roteiristas se esforçam MUITO para dar bons motivos para isso acontecer.

Tomada por um bom senso, que é raro de se ver entre os grandes executivos, a Nickelodeon não é ignorante a respeito da verdadeira essência do desenho animado, e adotou uma medida experimental inovadora.

A partir do 8º episódio da terceira temporada, o desenho deixou de ser exibido na televisão, e passou a ser disponibilizado apenas no site da empresa. Como resultado, os números de acessos no site da Nick quase fez os servidores derreterem no final da temporada passada.

owwn gente, a pequena Korra pançudinha de vermes, que fofo

owwn gente, a pequena Korra pançudinha de vermes, que fofo

No fim, todos ganham com a experiência: a Nickelodeon ganhou uma nova fonte sólida de renda de um desenho que era apenas “mais um” na grade da emissora, os produtores têm bem mais liberdade criativa, longe das limitações da televisão (basta ver como as tretas ficaram mais visualmente tensas a partir dos últimos episódios da terceira temporada) e os fãs… estão nem aí, porque todo mundo pirateia tudo saporra mesmo (a menos que tenha no Netflix, aí é mais jogo).

Personas

Claro que a série não funcionaria sem ótimos personagens, como é o caso. A química do “time Avatar” que anda com a Korra é quase tão boa quanto do grupo original, porém, com o bônus de relacionamentos mais complicados entre eles – adolescentes, sacumé…

tumblr_inline_n9byoxBsZW1sjok3eMas todos os personagens são igualmente bem trabalhados. Em Tenzin dá para sentir claramente a diferença entre o homem que ele é e o que homem que ele tenta ser, assim como é palpável seu desconforto quando não está no seu elemento.

O seu irmão mais velho, Bumi, por outro lado, parece apenas um gaiato folgado… e ele realmente é. Mas quando a coisa aperta, ele mostra que pode ser um personagem saborosamente mais complexo se for necessário. Mesmo os vilões têm esse grau de desenvolvimento bem cuidado, e raramente são maus apenas por serem maus – salvo algumas exceções – o que é um grau de desenvolvimento bastante profundo para um desenho animado, afinal.

Varrick se escondendo dentro de um urso-ornitorrinco. Seu argumento é inválido. E a Zhu-Li está lá também,  fazendo "a coisa". Não pergunte.

Varrick se escondendo dentro de um urso-ornitorrinco. Seu argumento é inválido. E a Zhu-Li está lá também, fazendo “a coisa”. Não pergunte.

Mas não pense por isso que a série é séria e cabeçuda, porque quando quer ser divertida ela não fica devendo em nada, com destaque para as trapalhadas com momentos de genialidade de Bolin (que, aliás, parece muito, muito mesmo, com este que vos escreve, tanto fisicamente quanto em comportamento), que não fica devendo nada ao mítico Sokka, e do gênio trambiqueiro Varrick. Sério, aquele homem merece um biscoito! Sério, cada momento de cena dele vale a pena imensamente.

Entretanto, se os personagens funcionam bem dentro do proposto, eles não resistem ao teste da comparação com o grupo de protagonistas. Com exceção do Bolin, que está no mesmo nível do Sokka, não tem como comparar o carisma de Aang, Katara e motherfucking Toph, com os protagonistas atuais, e esse talvez seja o ponto fraco da série junto.

A primeira temporada tem problemas de ritmo e falta de ambição – até porque não sabiam se haveria uma segunda – mas isso foi corrigido nas temporadas seguintes. Agora o carisma dos personagens está muito “padrão”, com exceção, talvez, da própria Korra, que começou a surtar do final da temporada pra cá.

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No fim, “A Lenda de Korra” é sim a continuação de um dos melhores desenhos animados de todos os tempos, mas não vive à sombra dele, e sim cresce por méritos próprios. Inclusive, pode até assistir sem ter visto o original, que embora perca muitos momentos chiliquentos de referencia – como quando o Tio Iroh aparece – ainda assim é um desenho pra lá de bão, se desenvolvendo de forma independente com bastante desenvoltura, ao mesmo tempo em que carrega consigo o “espírito da coisa” das aventuras de Aang.

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