[ANIMAÇÃO] Uma batalha entre espíritos e homens – ódio, ganância e ferocidade (Princesa Mononoke)

Sempre sou suspeita ao falar sobre a genialidade de Miyazaki, principalmente quando são suas animações que atraem tanto a minha atenção. Contudo, desta vez ele realmente se superou, com uma animação que (não é para menos e) é considerada sua obra-prima.

Princesa Mononoke é um lindo conto, que, se não conhecesse tão bem o estilo de Miyazaki, poderia jurar ter sido dirigido por Takahata, tendo em vista a linguagem crítica explícita. A trama envolve seres e espíritos da floresta, e demônios que enfrentam humanos displicentes com a natureza, trazendo a destruição por onde se enfrentam.

A história se passa num tempo feudal, onde uma tribo de costumes tradicionalistas de respeito e convívio com a natureza é atacada por um deus javali, que fora ferido e possuído por um espírito maligno. Ashitaka, o príncipe guerreiro da tribo, a defende do ataque demoníaco, mas acaba por ser ferido e amaldiçoado. A anciã da tribo lhe sugere buscar exílio e ajuda em uma terra espiritual, onde espíritos antigos da floresta poderiam quebrar a maldição.

Em a sua jornada, Ashitaka descobre que o ferimento lhe confere uma habilidade mortal, que espalha cada vez mais a marca. A raiva o consome, e a chave para não ferir ninguém é desanuviar seus olhos do ódio. Nenhum dos seus sabe explicar o motivo de os deuses da floresta estarem tão irritados, mas tudo começa a fazer sentido quando ele topa com uma vila, cujo sustento está na construção de armas de fogo.

Lady Eboshi lidera toda a vila, uma mulher que, à primeira vista, é caridosa e bondosa, mas se mostra fria com relação à segurança dos animais, e sua ganancia em dominar o mundo com seu ferro a cega, a ponto de torná-la obcecada em acabar com os espíritos da floresta, que atrapalham o desenvolvimento de sua cidade. No meio disso tudo, está uma menina que foi criada por lobos gigantes da floresta, a quem Eboshi chama de Princesa Mononoke, que, também cega pelo ódio, anseia pela oportunidade de matar a causadora de tanta dor ao coração da floresta.

Essa animação gira em torno de um único tema: o conflito entre o homem e a natureza, e ele foi apresentado com muita violência (membros decepados e cabeças rolando). Por este ponto de vista, o visual, julgo ser uma das mais pesadas do estúdio. As cenas dos combates de Ashitaka com os samurais, ou a batalha final, apresentam explicitamente animais queimados e soldados sendo devorados, ou ainda com seus membros arrancados. Uma visão que realmente mostra o quão cruel a natureza pode ser. Em outras animações, percebemos que os animais e as plantas eram muito passivas, e acabavam se deixando derrotar pela modernidade, mas nesta ela reage com toda sua fúria.

O homem não deseja conviver harmoniosamente, mas sim dominar e destruir, e as falas de Eboshi comprovam justamente isso. Não há espaço para ela e Moro, a deusa-lobo da floresta, e ambas querem a outra morta. Aliás, este ponto de vista passa até para San, a princesa Mononoke. Com o lado humano e o lado espiritual da floresta entrando em conflito, bastou mais um elemento aparecer para que tudo explodisse de vez. O Imperador manda seus samurais e caçadores para dominar a vila do ferro e matar o grande espirito da floresta, por acreditar que, ao se banhar em seu sangue, lhe trará vida eterna.

Como eu disse, San não tem a menor intenção de conviver com os homens, e não pensem que tudo muda quando ela conhece Ashitaka. Apesar de sentir algo por ele, sua opinião com relação aos humanos não muda uma vírgula. A amizade entre os dois só cresce por conta do respeito à natureza e suas leis, que o próprio príncipe guerreiro possui.

No final uma mensagem quase pessimista se faz presente: por mais que Ashitaka lute pelo respeito à natureza e seus espíritos, e implore pela vida dos homens (ele tenta a todo instante salvar os dois lados, querendo propor o respeito mútuo e o convívio sábio, como em sua tribo), o ódio consome todos e uma batalha é travada. Os dois lados perdem, e muitas vidas, humanas e espirituais, são ceifadas. No final a ganância ainda dá um último golpe e leva a vida da floresta quase ao fim. Quase pessimista de todo, se não fosse o final surpreendente, que mostra um caminho para ambos os lados seguirem, mesmo que os espíritos não possam mais habitar aquela floresta, que muito foi poluída pelos homens, que passam a vagar em busca de um novo lar. E Eboshi finalmente abre seus olhos para tudo que ela mesma provocou.

Um conto que mostra especialmente o ódio que habita no fundo dos corações de cada um, e todos os malefícios que ele traz para a comunidade. Uma grande lição de autocontrole e paz interior, afinal, a raiva cega não leva ninguém a lugar algum…

Uma animação fantástica, tanto por seu tema quanto por sua produção, que é uma das mais brilhantes antes do estúdio incorporar a animação digital. Os espaços abertos e as cenas de ação são muito bem compostos, os personagens são muito bem detalhados, principalmente o grande espírito da floresta. As cenas em plano aberto e os planos de fundo são de cair o queixo, cada detalhe dos campos de arroz em contraste com a floresta são cheios de vida. E todo o drama das batalhas é retratado com êxito, as cenas de explosões e de sofrimento tiram o fôlego de quem assiste.

Princesa Mononoke possui uma história atemporal, que pode ser interpretada de várias formas, de acordo com o que seu coração deseje. É uma obra profunda sobre a natureza humana e o meio ambiente, e nossa relação com o mesmo. Suas belas imagens, sua simbologia e sua vida fazem desta animação surpreendente e imperdível, um verdadeiro primor do estúdio.