[ANIMAÇÃO] Sussurros do Coração, um chamado à mudança

Lembram-se da última resenha sobre os filmes da Studio Ghibli, que falava sobre O Reino dos Gatos? Deixei uma ponta para esta semana com relação ao gatinho Baron.

A primeira aparição de Baron foi em uma animação dirigida por Miyazaki e lançada em 1995, chamada “Sussurros do Coração”. Esta é mais uma slice of life (retrata o cotidiano) bem ao estilo de Hayao.

A história mostra a vida e as descobertas de Shizuku Tsukishima, uma estudante primária, que se encontra em uma fase da vida em que precisa tomar decisões, e constantemente entra em conflito com as situações que vive. O próprio nome da animação nos remete a pensar que esses sussurros têm a ver com o seu próprio coração, que está clamando por mudanças em seu modo de vida.

Tsukishima é uma leitora ávida, que passa suas tardes na biblioteca. Yuko, sua melhor amiga, está com problemas relacionados ao amor jovem (o garoto de quem ela gostava não tinha sentimentos recíprocos, ao passo que recebia cartas de um admirador secreto, pra quem ela não queria ser reciproca). Mas Shizuko não demonstra muita atenção a esses pequenos detalhes, ela havia descoberto uma peculiaridade: todos os livros que ela pega emprestado da biblioteca municipal tem o nome de um menino chamado Seiji Amasawa sempre antes do dela. Sua curiosidade a coloca em investigação, mas nunca a termina. Enquanto mantem sua rotina, a caminho da biblioteca ela cruza com um gatinho de rua que decide seguir, encontrando, assim, uma estranha e mágica loja de antiguidades. Lá ela fica encantada com uma estátua de gato chamada Baron. O dono da loja é um senhor de idade muito divertido, e lá ela se encontra com um garoto que sempre a perturbava. Mas eu disse que o filme falava de mudanças, não é mesmo?! Então o que tudo isso tem a ver com ela? É nesse ponto que as mudanças começam.

O enredo parte para uma jornada de crescimento, pois a Shizuko de antes tem uma vida que não é mais capaz de seguir e acompanhar as mudanças pela qual o seu corpo e o seu coração estão passando neste momento. As decisões de uma adolescente, mas que reluta por querer continuar com sua vida simples. Quando ela começa a se relacionar com Seiji (o que é bem irônico, em minha opinião), ela se vê perdida e não sabe o que fazer, o seu amor platônico e inalcançável agora está ali, diante de seus olhos. A convivência dos dois promove o desejo de mudar. Para Seiji isso significou se decidir ir a Cremona para aprender as técnicas de construir um violino; para Tsukishima isso significou deixar sua antiga vida de lado e tomar decisões com coragem.

Os outros personagens acabam gravitando ao redor dos dois protagonistas. Não há muita interferência de suas partes. A própria família de Tsukishima só exerce um papel mais efetivo na história quando as notas da classificação escolar da jovem caem. Já Yuko serve como o elo entre Tsukishima e sua antiga vida, e como um apoio para as tomadas de decisões de Shizuko. O gatinho (que tinha muitos nomes, como Lua, e em um momento é chamado de Muta por uma garotinha), e o próprio Baron servem para levar a personagem a repensar os seus conceitos. Miyazaki quis passar para o espectador que a fantasia pode estar em qualquer lugar, e que essa magia nos faz crescer e nos desenvolver (não necessariamente um dragão ou algo impossível, mas as pequenas mudanças do cotidiano e dentro de nós).

É magnifico o modo como Miyazaki torna o roteiro irresistível, além de fazer-nos identificar com os personagens. Ele tem o poder de tornar qualquer tipo de roteiro em uma lição de vida. Basta ler nas entrelinhas daquilo que é apresentado em Sussurros do Coração.

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