[ANIMAÇÃO] Only Yesterday – uma nova atitude de vida.

Mais uma semana e mais um filme do Ghibli, desta vez com uma temática voltada para a autorreflexão. Only Yesterday consegue nos tocar e aguçar nossa capacidade de reflexão.

Dirigida por Isao Takahata (eterno companheiro de Miyazaki), Only Yesterday é outra das animações que não é tão conhecida quanto as clássicas do estúdio. Contudo, acho o enredo muito intrigante.

A trama traz a vida de Taeko Okajima, uma jovem solteira que, em suas férias do trabalho, opta por visitar alguns conhecidos que vivem na pequena cidade interiorana de Atami. Enquanto ela faz sua viagem, acaba recordando de seus tempos de menina, ainda na escola, quando era mimada e por tantas vezes tinha sido egoísta.

Vemos diversos momentos da infância de Taeko, como sua experiência no teatro da escola, do garoto que havia se apaixonado por ela, e a rivalidade que existia entre si e sua irmã Yaeko. Todas essas lembranças ela carrega como momentos reflexivos, proporcionando sua auto avaliação durante a viagem.

Mas a lembrança mais importante dela, a que realmente ganha peso em sua decisão de mudança, vem nos últimos momentos. Quando ela realmente percebe que a garota mimada que desdenhava as pessoas ainda vivia nela e se mostrava em suas atitudes.

Essa mensagem de reavaliar nossas atitudes para com os outros é bem explicita na animação. Por meio de suas próprias lembranças, Taeko não muda somente a si, mas também busca fazer a diferença para com os que ela convive.

A escolha da trilha sonora é surpreendente. Takahata faz uso de músicas húngaras para compor as cenas que se passam em Atami. E a razão vem explicada na própria animação, quando Toshio (um dos personagens agricultores) fala que gostava da música por pensar que ela compunha bem o clima interiorano.

Vemos uma protagonista perdida e sentindo-se deslocada da vida movimentada da cidade. As pessoas sempre estão ocupadas e afastadas umas das outras, basicamente não há convívio intimo entre amigos, companheiros de trabalho, ou mesmo vizinhos. Quando Taeko vai ao campo, e se reencontra consigo mesma, juntamente com os traumas de sua infância e, apesar dessas recordações, tem contato com as pessoas do campo, passa a se sentir acolhida. A vida simples é difícil, porém recompensadora, no sentido de que Taeko se sente parte de alguma coisa, e é nesta vida que ela encontra a felicidade e toma conhecimento de seus próprios sentimentos.

O cenário em si é simples, principalmente na escola: tudo muito limpo e sem muitos detalhes, diferente das outras animações. O destaque vai para as cenas amplas que temos do interior, ilustrando muito bem a vida dos fazendeiros japoneses, mostrando a simplicidade, mas, ao mesmo tempo, a dificuldade, além do modo como interagem e moldam a natureza.

Esta não é a primeira vez que surge o tema “relação do homem com a natureza” numa animação de Takahata, que inclusive é muito bem tratado em Pom Poko. Mas, desta vez, Takahata, por meio de seus personagens, discorre uma argumentação sobre os benefícios da agricultura orgânica para o homem, e é Toshio quem serve de porta voz do diretor na animação. Seus pensamentos simples tem o objetivo de expor as ideias de Isao. Ele acredita que os fazendeiros são uma espécie em extinção por conta da urbanização, e alguns produtos tradicionais, como o arroz e o cártamo, acabam sendo prejudicados com todo esse “progresso”. A vida destas pessoas se torna cada vez mais difícil, e as novas gerações não entendem a necessidade deste tipo de trabalho, por viverem em um universo midiático. A vida simples do campo não é nada atrativa para eles.

Mas, saindo das cenas do campo e retornando às memorias de Taeko, encontramos sua família, que é composta por suas irmãs, sua mãe e pai, e sua avó. E são nestes momentos familiares que surge uma nova critica.

Takahata mostra uma família tradicional japonesa. A mãe de Taeko é muito submissa e serve ao pai, que permanece sempre austero e dono da palavra final em qualquer que seja o assunto. O que percebi destas cenas foram as mulheres da casa completamente retraídas e dependentes de uma aprovação do chefe da família.

Com todas as reflexões e criticas, Only Yesterday é digna de receber atenção, isso por mostrar a realidade de um mundo onde cada vez temos menos contato com a natureza, da reflexão sobre o papel do homem nessa sociedade pós-moderna, e da auto avaliação sobre as atitudes que tomamos.

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