[ANIMAÇÃO] O Túmulo dos Vagalumes. As consequências de uma guerra.

Túmulo dos Vagalumes, com direção de Isao Takahata, foi lançada em 1989. Ao contrário das outras produções da Ghibli, ela não é acompanhado de mensagens bonitas estimulando a amizade e o companheirismo. É marcada por uma história triste e de violência (de um jeito mais leve).

A história gira em torno do Japão em plena Segunda Guerra Mundial, e vem para nos fazer refletir sobre a violência que ela traz para a vida do povo. É uma crítica profunda sobre os valores cultivados ao ponto de gerar a guerra, e sobre a luta de governos, que acabam por oprimir as próprias sociedades com a desculpa de honra e de que o certo vence o incorreto.

Devo advertir que, se você for muito sensível, sofrerá muito assistindo essa animação. Não que ela seja sombria (até porque quase todos os momentos mostram a felicidade e inocência das crianças tentando superar os desafios a elas impostos), mas sim porque você cria certo afeto e se apega aos personagens, até mesmo por ver tudo pelo que são obrigados a passar – inúmeras perdas, provações e sofrimento – e queremos que eles vençam. Mas como duas crianças seriam capazes de suportar todos os pesadelos pelos quais passam? (devo confessar que me emocionei desde a primeira cena, e quando digo que me emocionei pode ter certeza de que lágrimas rolaram…).

Seita e Setsuko são irmãos que, entre brincadeiras e diversões, tentam viver a dura vida daqueles que ficaram para trás nas cidades atacadas pelos bombardeiros aéreos. Seita é um adolescente tentando ser responsável e cuidando da sua irmã, já que seu pai está na marinha, e sua mãe faleceu tragicamente no primeiro bombardeio à sua cidade. Setsuko é muito nova, ainda não entende por completo tudo que irá acontecer, carrega em si um facho de inocência e felicidade – gosta de balas de frutas, de brincar e de vagalumes –  e é agitada como toda criança de sua idade. Aprender a lidar com a perda desde muito nova será somente um de seus problemas.

Os dois, então, passam a viver com uma tia, que a principio parecia feliz por recebê-los, mas logo toma seus pertences – em especial a comida – e passa a reclamar do fardo de ter que cuidar de dois inúteis que não ajudam na guerra. Humilhar Seita passa a ser uma atividade diária para ela. E por falar em Seita, ele parece carregar todos os fardos (podendo ou não). Com ele temos muitas das cenas fortes do filme, que incluem ele ver a própria mãe completamente deformada devido às queimaduras e contusões do ataque aéreo; receber a noticia de que as tropas da marinha tinham se rendido; e perceber porque o pai não lhe respondia as cartas há tempos, quando descobre que o navio dele foi afundado.

Depois de tantas criticas da tia, os dois irmãos acabam saindo de sua casa e se mudando para um abrigo antiaéreo abandonado, onde julgavam ser capazes de viver e se virar sozinhos com o pouco dinheiro que restara na conta bancária da mãe. Mas, depois de alguns dias agradáveis, as provações e tormentas retornam.

ATENÇÃO: só clique aqui se não se importa com SPOILERS do filme.

Setsuko adoece por conta da desnutrição e de falta de higiene adequada (por mais que Seita tentasse alimentá-la adequadamente e manter o corpo e ambiente limpo, não se podia evitar, eram duas crianças sozinhas e inconscientes de certas medidas). A doença se agrava até sua morte. Não tem como não se emocionar ao ver A sensação de impotência de Seita diante da aflição de Setsuko e realizar a cerimonia de cremação de sua própria irmã. É de partir o coração de qualquer pessoa (de verdade, estava quase me afogando em lagrimas nesta hora).

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A trama por trás do enredo trata de perdas: dos pais, das casas, das infâncias, da inocência, da esperança e até de inúmeras vidas. Uma batalha interna acontece no espectador: queremos que os dois irmãos fiquem bem, mas, por outro lado, sabemos o que a guerra traz, e a esperança de vê-los vencer as provações vira uma ilusão, pois, já no inicio do filme, vemos o desfecho da vida de Seita (digamos que a trama é feito de memórias passadas).

Isao Takahata quis mostrar o que realmente a guerra proporciona: não a glória e a honra que havia sido pregada naquela época. Um mundo em que, a cada minuto, podemos perder a vida nas mãos de um ataque aéreo, e onde a vida das pessoas se transforma. Todos aqueles ao redor dos dois irmãos se transformam, como a tia que chegara a ser doce e carinhosa, e torna-se fanática pelo militarismo japonês, dizendo que quem não faz nada pelo Japão, não tem o direito de habitar a mesma casa daqueles que trabalham para o poderoso imperador Hirohito. Os fazendeiros, que em troca de alguns quimonos e pertences ofertavam arroz, de repente se tornam amargos e egoístas, guardando a comida para si. Mas, em tempos de guerra, quem iria julgá-los? Talvez fosse o único jeito de sobreviver e manter a sanidade.

O filme é belíssimo visualmente, pois, apesar do tema, a maioria das cenas têm uma atmosfera vibrante (a praia que os irmãos visitam, a beira do lago onde brincam e passam a viver, a floresta de vagalumes à noite). Apenas as cenas dos ataques aéreos são marcadas por uma paleta mais cinza.

O enredo é simples e cativante, e as emoções que a história é capaz de proporcionar são quase indescritíveis, e viram um mix dentro de você (uma batida azeda, penosa de engolir, com um leve adocicado ao fundo). Recomendar o filme é quase desumano, mas fechar nossos olhos para a história de como os japoneses realmente enxergam o período da Segunda Grande Guerra seria um pouco pior. Esses dois irmãos nos fascinam justamente por serem como pessoas reais, e por retratarem as vidas que muitas das pessoas reais tiveram naquela época.

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