[ANIMAÇÃO] O Príncipe do Egito: When You Believe (análise)

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E hoje, caros nerds, dia de Páscoa, nada mais adequado que falar daquela que, para muitos de nós, foi uma das animações mais emocionantes dos últimos tempos: O Príncipe do Egito, lançada em dezembro de 1998 nos Estados Unidos, mas só realmente conhecida aqui nas telonas brasileiras no início no ano de 1999. A história fala do Êxodo Bíblico, importante evento para os judeus – na época, o povo Hebreu.

Tenho sido ganhador de um Oscar pela música tema “When you Believe, além de receber outras 26 indicações bem sucedidas a outros prêmios, o filme da DreamWorks, comumente confundido como uma produção da Disney, por suas características e trilha sonora muito próximas da outra produtora. Foi dirigido por Brenda Chapman e escritor por Philip LaZebnik e Nicholas Meyer. Devemos dizer que seus escritores foram muitíssimo cuidadosos na composição da obra cinematográfica, mesmo não sendo uma produção grandiosa: para o desenho / animação foram usadas citações do Corão e do Antigo Testamento em que não houvesse qualquer dissidência entre as religiões. Não foram necessárias (nem possíveis, diga-se de passagem) inserções de passagens do Novo Testamento, posto que o Cristianismo tem em seu cânone os livros do Antigo Testamento também.

O que isso tem com a Páscoa?

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A história de Pêssach inicia nos dias do patriarca Avraham (Abraão). Quando D’us prometeu um herdeiro a Avraham, cujas sementes seriam tão numerosas como as estrelas, D’us também informou-o do longo período de escravidão que seus descendentes sofreriam por 400 anos, até que fossem libertados.

O primeiro dos descendentes de Avraham a chegar ao Egito foi seu bisneto Yossef (José), cuja miraculosa ascensão de escravo à quase realeza é uma das mais inspiradoras narrativas da Torá. Na dramática história de Yossef e seus irmãos, podemos ver claramente a mão condutora da Divina Providência, que levou Yaacov (Jacó) e sua família ao Egito.

A chegada de Yaacov e sua família no Egito foi uma marcha triunfal. Assim foi também a partida, 210 anos depois, de seus filhos, os filhos de Israel, do Egito. Esta era a diferença: a pequena família de setenta pessoas havia se tornado uma nação grandiosa, e unificação de três milhões de almas, das quais 600.000 eram homens adultos. A história de Pêssach, termina no seu ponto alto em Shavuot (festa da Outorga da Torá no Monte Sinai), é a história do nascimento de um “reino de sacerdotes e nação sagrada”: O povo judeu.

Yossef e seus irmãos faleceram, e os filhos de Israel se multiplicaram na terra do Egito. Logo após, o faraó também morreu, e um novo rei ascendeu ao trono. Ele não nutria simpatia alguma pelos judeus, e preferiu esquecer tudo o que Yossef havia feito pelo Egito.

Reuniu o conselho, e decidiu escravizar o povo e oprimi-lo, antes que se tornasse muito poderoso. O faraó lançou uma política que limitava a liberdade pessoal dos hebreus, impondo pesados impostos sobre eles, e recrutando os homens para trabalhos forçados, sob a supervisão de severos capatazes. Um dos atos mais atrozes foi a tortura das crianças judias. O faraó mandava embuti-las vivas entre as paredes das construções e tomava banho com seu sangue. Porém, quanto mais os Egípcios os oprimiam, quanto mais duras as restrições impostas sobre eles, mais os filhos de Israel cresciam e se multiplicavam. Finalmente, quando o faraó percebeu que apenas escravizar os hebreus de nada adiantaria, decretou que todos os seus bebês recém-nascidos do sexo masculino fossem jogados no rio Nilo. Apenas filhas tinham permissão para viver. Desta maneira, ele esperava acabar com o aumento da população judaica, e ao mesmo tempo, eliminar um perigo que, de acordo com as previsões dos astrólogos, ameaçava sua própria vida.

Quando os laços se estreitam

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Em O Príncipe do Egito, vemos recontada a história bíblica de Moisés, o filho do povo hebreu, o escolhido de Deus que, sendo protegido por sua mãe, Jochebeth, é entregue ao rio em uma cestinha de vime para que não seja morto pelo faraó Seth.

Na época do nascimento de Moisés, a população de hebreus se expandia assustadoramente, de forma que uma rebelião poderia ocorrer a qualquer momento. A medida que o faraó decidiu tomar para conter o crescimento de seus escravos, e assim manter sua dominação plena, foi promover a matança do povo que lhe poderia ser uma ameaça.

Assim, empurrado pelas forças do “destino”, e pela decisão de uma mãe judia, que qualquer coisa faz para proteger seus filhos, Moisés foi colocado no rio e, por “sorte”, acabou aos pés da mulher do faraó Seth. A mulher ficou tocada com a presença do pequenino, que não passava de um bebezinho indefeso e, tomada por seu instinto materno, adotou-o como segundo filho. A esta altura, a mulher do faraó, jamais identificada no filme, já tinha o pequeno Ramsés.

E assim, desde o início, vemos Ramsés e Moisés, criados juntos, tornarem-se não apenas irmãos, mas grandes amigos, cúmplices.

Frise-se que os irmãos desconhecem o fato de não serem de fato irmãos de sangue. Mas isso pouco importa, como vemos ao longo do filme. Este nunca se torna o problema real.

o principe do egito 01O fato é que os escritores do filme conseguiram fazer da amizade entre os irmãos um dos pontos altos do filme, e talvez o elemento chave da narrativa. Os laços criados entre Ramsés e Moisés foram de tal forma arquitetados, que o espectador do filme sente apreensão em cada conflito, sofre cada tensão, e se decepciona com os desentendimentos entre os irmãos que, apesar de todas as necessárias contendas, se amam. Mas que são separados pelo bem maior de um povo, e pelo orgulho desmedido de um império.

É tocante, ao longo do filme, tanto nas primeiras sequências, que são leves, quanto nas cenas mais à frente, quando o clima torna-se mais tenso, ver os personagens interagindo. Desde as brincadeiras às discussões: Ramsés e Moisés se conhecem e, em cada diálogo, se mostram felizes juntos, ou extremamente feridos juntos. Seus sorrisos e suas lágrimas acompanham um mesmo compasso.

É admirável como conseguiram fazer isso com personagens animados, quando este é um trabalho complicado até mesmo com personagens vivos.

A morte de Moisés: do menino egípcio ao patriarca Hebreu

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Moisés inicia o filme como o que chamaríamos de um “playboy” dos tempos idos. Filho do faraó, irmão do príncipe regente, e denominado arquiteto oficial, pouco preocupado com o futuro ou com qualquer coisa. Moisés nada teria a temer, ou com quem se importar de fato. Para quê? Um jovem mais que rico, a “estrela da manhã”. Tudo o que ordenasse seria feito ou desfeito, quando quisesse e se quisesse. Essa arbitrariedade fica clara (muito clara) na primeira cena, em que o rapaz aparece em sua idade adulta apostando uma corrida de bigas com o irmão Ramsés. Os dois aceleram desabaladamente, destruindo tudo o que veem pela frente, sem se importarem com consequências. O resultado é um acidente e, claro, uma enorme bronca… em Ramsés.

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Moisés não leva broncas, não tem limites, não tem problemas, não tem barreiras.

Até que, sem querer, esbarra com uma escrava hebraica, uma qualquer… que o reconhece e o chama pelo nome. O chama de irmão, e lhe diz: “Você é filho de nossa mãe Jochebeth.”

A partir deste momento Moisés morre.

Poucas pessoas notam, mas o protagonista passa literalmente pelas cinco fases do luto. Do próprio luto, a partir do momento em que sabe que não é quem pensava que era a vida inteira. É realmente como se houvesse morrido:

Primeiro, Negação: imediatamente Moisés nega o absurdo, chamando a escrava de “louca”.

Logo depois, Moisés sente raiva da irmã, a empurra, chegando a ameaçá-la. Moisés, chocado, sai correndo. É a fase da Raiva.

Em seguida vem a fase da Negociação. Nessa fase, vemos Moisés entoar uma canção em que ele diz que é filho da história que o mundo vê (filho do Egito), mas, ao mesmo tempo, parece clamar por segurança, como se pedisse por essa afirmação.

A Depressão vem junto com a realização de que a verdade é aquela. Quando, ao encontrar pinturas dos infanticídios nos confins do palácio, Moisés vê que o Faraó não lhe pode negar a verdade: Moisés é hebreu, e aquele a quem chamou de pai por uma vida estava matando seu povo.

Por fim, temos a fase da Aceitação que vem curiosamente com a fuga de Moisés para fechar simbolicamente a vida de Moisés, e abrir as portas para outra vida. Moisés, não sem dor, aceita o triste fato que interrompeu sua vida e vai embora. O simbolismo neste ponto é tão forte, que o protagonista chega a desaparecer ENTERRADO pelas areias do deserto, quase sendo morto por elas. Só depois ele reaparece, renasce, outro Moisés, unindo-se a uma tribo de Hebreus no deserto, e com eles passa a evoluir.

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A sarça ardente – Eu Sou o que SOU

o principe do egito por guilherme briggs

Após longo período entre os hebreus – seu povo de origem, já casado, responsável por cuidar das ovelhas (um cargo respeitável entre as tribos), e completamente diferente do moleque mimado que um dia fugira do conforto do palácio egípcio, um dia Moisés foi à caça de uma das ovelhas extraviadas, e acabou por entrar numa caverna. Lá dentro, uma força luminosa tomou conta dele, e lhe falou da dominação de seu povo, que permanecia ainda sob a opressão egípcia.

Nessa cena, se pensarmos na Jornada do Herói, descrita por Joseph Campbell (mais sobre ela aqui),  Moisés tem uma reação típica: a priori, ele nega sua missão dada por D’us, que se comunica por uma sarça ardente. Acha-se incapaz de guiar um povo para longe do Egito. Logo ele? Um coitado, um perdido? Quem era ele?

D’us então se enfurece e ordena que ele tome seu cajado e cumpra suas ordens.

A partir deste momento, temos o início de outra transformação de Moisés. Parece que, à medida que Deus mostra seus prodígios a Moisés, este vai-se tornando mais duro, mais sisudo. Nunca mal ou frio, mas mais objetivo em seus desígnios. Ele precisa salvar seu povo, que sofre nas mãos de um faraó frio e perigoso. Um faraó que não pode ser o elo fraco da corrente.

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Curioso é que a voz de D’us aparece mista… algo entre a voz de Moisés e outras vozes. Desta cena, podemos interpretar que D’us escolhe falar com seu escolhido Moisés porque nossa ligação com nosso aspecto divino não se dá de dentro pra fora, mas de fora pra dentro. Daí a voz vir de dentro dele, com o som que lhe é mais familiar: o seu próprio timbre.

A cena da Sarça ardente é belíssima e emociona, embora haja esse tom mais duro por parte do Altíssimo. É possível sentir-se imerso na caverna, sentir o chão frio tocar os pés descalços de Moisés (ou os teus pés?), e o calor da luz azulada reconfortante…

Relembre-a abaixo:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=b6Xxben8O0M]

Mais uma vez, ponto para a Dream Works.

Da dublagem brasileira

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Antes de tecer comentários sobre o trabalho extremamente bem feito da dublagem brasileira aqui, creio que seja pertinente dizer que eu, redatora deste artigo, sou professora de língua inglesa e linguista em formação. Seria eu, portanto, a primeira pessoa no mundo a criticar uma dublagem, certo?

Errado…

Ou pelo menos não uma dublagem como essa que encontramos feita em O Príncipe do Egito.

A emoção impressa em cada cena, cada palavra e cada ato, que faz com que nós, espectadores, tenhamos arrepios, não vêm apenas do enredo e do peso ideológico que o filme carrega. As emoções vem daquilo que as personas que estão na tela conseguem passar. Neste caso, elas nos passam por vozes.

O trabalho de dublagem deste filme me fez e faz chorar, desde 1999 até hoje, sempre que assisto a este longa metragem. E tenho certeza, emociona a muitos. Parabéns aos dubladores.

Segue a lista (conservei, é claro, os nomes dos artistas que fizeram a dublagem americana):

A dublagem foi feita pela Double Sound.

o principe do egito capaDIREÇÃO: Newton Da Matta

TRADUÇÃO: Maurício Seixas

DIREÇÃO e TRADUÇÃO MUSICAL: Marcelo Coutinho

ELENCO DE DUBLAGEM:

Val Kilmer (Moises): Guilherme Briggs

Amick Byram (Moisés – canções): Marcelo Coutinho

Val Kilmer (Deus): Guilherme Briggs

Ralph Fiennes (Ramsés): Garcia Júnior

Danny Glover (Jetro): Lauro Fabiano

Brian Stokes Mitchell (Jetro – canções): Maurício Luz

Michelle Pfeiffer (Zípora): Vera Miranda (diálogos)/ Kika Tristão (canções)

Helen Mirren (Rainha Tuya): Geisa Vidal

Sandra Bullock (Miriam): Fernanda Crispim

Sally Dworsky (Miriam – canções): Kacau Gomes

Jeff Goldblum (Aarão): Marco Antônio Costa

Patrick Stewart (Faraó Seth): Ednaldo Lucena

Steve Martin (Hotep): Mauro Ramos

Martin Short (Huy): Augusto Caruso

Outras Vozes: Ana Lúcia Menezes, Bárbara Ficher, Caio César, Charles Emmanuel, Fernanda Cappeli, Luisa Palomanes, Márcia Coutinho, Márcia Morelli, Vitória Ficher.

Vozes do Coro: Aline Cabral, Augusto Caruso, Deco Fiori, Juliana Franco, Lorena Espina, Maurício Luz, Nadja Daltro.

Fonte: Jacque Pacheco e Disney

Por fim: Feliz Páscoa a todos. E segue abaixo a trilha sonora completa do filme para matar a saudade dessa produção linda.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=wtteBRZ6csg]

Até a próxima, nerds.

One thought on “[ANIMAÇÃO] O Príncipe do Egito: When You Believe (análise)

  1. Eu imaginando que seria uma análise da música When You Believe e quando vi é uma análise aprofundada do filme abordando também seu contexto histórico. Meus parabéns, texto riquíssimo e bastante interessante (principalmente a parte das fases de luto).

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