[ANIMAÇÃO] Da Colina Kokuriko (Crítica)


É sério, nunca vou me cansar dos slice of life da Ghibli. Com um enredo recheado de reviravoltas e de amores juvenis açucarados (na medida certa, não se preocupe) Da Colina Kokuriko nos mostra a importância das tradições e, mais ainda, dos laços que nos unem.

Com direção de Goro Miyazaki, lançado em 2011, a animação nos apresenta Umi, uma colegial que ajuda sua família enquanto sua mãe estuda medicina nos EUA (a família, que nesse momento é composto apenas por mulheres, possui como fonte de sustento uma pensão. Umi trabalha duro lá). É uma garota muito responsável e trabalhadora.Aliás, ela possui mais responsabilidades do que uma garotinha deveria ter (mas isso não vem ao caso, já que Umi é forte e doce). Seu pai foi um marinheiro cujo navio de carga esbarrou em uma mina durante a Guerra da Coreia. Como tinham uma boa relação, ele ensinou à Umi a comunicação por bandeiras náuticas, para que ela se sentisse mais aliviada quando partisse ao mar. Todo dia Umi hasteava as bandeiras, para que seu pai encontrasse o caminho para casa, mas agora, em honra/homenagem à sua memória.

Na escola, Umi conhece Shun Kazama, responsável pelo jornal literário da insituição. O prédio onde se situa o jornal e os demais clubes estudantis está ameaçado de demolição. O responsável pela Academia Konan quer construir um prédio mais moderno, inspirado nos ideais modernistas que vieram junto com as Olimpíadas. Todos os garotos estão empenhados em salvar o clube e o prédio que tanto amam, e Umi tentará ajudar a salvar o prédio e, com isso, descobrirá que está apaixonada por Shun.

O impressionante na trama são as reviravoltas que ela possui e, contando com isso, Umi e Shun possuem uma história em comum que nem mesmo eles sabem. Seu amor parece não poder crescer, e se torna potencialmente proibido. Poderá isso atrapalhar o sentimento que eles têm um pelo outro? Ou pior, esse passado poderá afasta-los?


Nos surpreendemos com a riqueza de detalhes da produção. Conseguimos perceber isso na passagem das nuvens pelo céu, nas folhas que fazem sombras no chão quando Umi segue para a escola, ou na movimentação de diferentes personagens pelo cenário. A trilha sonora é de Satoshi Takebe e remete bastante à vida do marinheiro. É uma trilha sonora de partir o coração, com muitas notas tristes e melancólicas.

Uma temática que fica subentendida são as consequências da guerra, as famílias que perderam seus entes queridos sofrem com a ausência e têm de tocar a vida. A animação toca também no fato de os japoneses quererem apagar o passado para se voltar para um futuro de glórias, que viria com o evento esportivo mais falado, as Olimpíadas. São os alunos que ajudarão os adultos a perceberem a importância de se manter a memória da cidade, no caso o próprio prédio do clube faz parte da memória e tradição da cidade, e sua demolição torna-se injustificável. Até porque não se pode, simplesmente, apagar a memória.

E abordando o tema memória, podemos voltar ao passado de Shun e Umi. Descobrir e trazer à tona os segredos do pai de Umi, bem como o paradeiro do pai biológico de Shun. Nada adiantaria se, principalmente ele, continuasse a esconder ou negar suas lembranças, manter sua mente fechada para a vida que se seguia torna suas emoções complicadas e confusas.

A abordagem de Goro a respeito destes temas acontece de forma brilhante. Ele consegue entrelaça-los e os personagens, bem como os momentos que eles vivem nos emocionam. Mesmo com um enredo simples, Goro Miyazaki apresentou uma animação cativante.