[A.Lice] Sarah Cruz – Sangue quente e cores. (Prólogo)

940967_1129005537111615_2317646258986259254_nUm fim de tarde qualquer para uma andarilha…

Coloquei mais dois comprimidos sob a língua e guardei cuidadosamente os restantes.

Não haveria mais daqueles tão cedo, e com o pouco dinheiro de que dispunha, realmente não fazia ideia de quando poderia comprar mais.

Deitei no gramado do parque do centro da cidade sem me incomodar com os olhares reprovadores das pessoas ao redor. Talvez a impressão de estar sendo sempre observada fosse coisa da minha mente. Na verdade, era provável que os transeuntes sequer me vissem. Não era tão incomum que eu me sentisse invisível. Talvez eu fosse mesmo.

James-Jean-Psychedelic-Art-Gallery-ShroomsAcomodei minha cabeça sobre a mochila jeans velha que carregava comigo como o único pertence, ou melhor, o único suporte para meus derradeiros pertences: Um baralho de tarot Universal, algumas tintas e pincéis, papel telado, dois volumes de livros antigos – que jamais comprava, mas trocava pelos sebos da vida assim que terminava de ler -, uma muda de roupas limpas, cigarros, óleo de mirra, uma caixa com meus “comprimidos mágicos” e uma foto antiga de meus pais, dentro de uma carteira surrada com o resto de dinheiro que ganhava pintando.

Embora o sol estivesse fraco, fiquei grata pela sombra da enorme figueira que me cobria com sua sombra reconfortante, como fosse ela um gigante protetor com suas folhas verdes sendo sacudidas pelo vento calmo. Pequeno fachos de luz atravessavam as folhagens que pareciam valsar ao sabor da brisa de fim de tarde, formando uma dança de luzes alaranjadas, azuladas, arroxeadas que caminhava por todo meu corpo como se acompanhassem o ritmo do meu estado de espírito.

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Fechei os olhos… provavelmente a substância já começava a fazer efeito em meu sangue, me proporcionando uma tranquilidade muito familiar.

Como numa espécie de transe, tudo o que eu podia sentir era uma espécie de tranquilidade; meu coração, sempre rápido demais para meu corpo magro, passou a pulsar bem lentamente. Repentinamente, os acordes da música tocados pelo desconhecido com um violão a alguns metros de mim, ganhava cores de diferentes tons e intensidades a cada mudança na melodia.

Acordes azulados… Escuros, celestes, brilhosos, discretos, vivos, exageradamente azuis… mas todos belíssimos, todos se movendo em um ritmo delicioso. As cores azuladas moviam-se como luzes diante de meus olhos cerrados. Era uma visão unicamente minha. E isso ninguém no mundo poderia tomar de mim.

No fundo a música continuava a ditar o ritmo de cada luz azul e seus movimentos harmônicos:

“But I Won’t cry for yesterday… There’s an ordinary world somehow I have to find”

O ciano escuro se intensificava, formando um túnel que parecia me puxar. Tudo era o túnel. Meu mundo, minha vida, meu ser, meu espírito e muito além dele… Era o caminho da minha paz, ainda que artificial e temporária.

vortex_by_ghost_of_razgrizTudo parecia perfeito. Era o mesmo túnel de antes. Mas, uma vez mais a figura apareceu, conspurcando de vermelho sangue minha passagem para um momento de tranquilidade. Em completo contraste com a cor fria e calmante, o espectro vermelho movia-se lentamente ao fim do túnel. Seu olhar era profundo e convidativo, mas eu conhecia aquela figura de longa data. Ir com ela seria o caminho para uma viagem desagradável… e eu pretendia sair dali andando normalmente, e não alucinando. Abri os olhos para não ver mais aquele fantasma rubro. Quando olhei de volta para o mundo ao redor, tudo parecia retorcido.

O céu tornara-se roxo, típico do fim de tarde, mas potencializado pela onda do veneno que ainda viajava pelo meu corpo.

Senti meu nariz sangrar. O fio grosso e salgado desceu até meus lábios. Limpei o rosto com a manga da camisa.

Sempre que havia a figura, havia o sangue.

Cada acorde do violão anônimo, no entanto, parecia roubado dos dedos do artista para minha mente como se eu, em minha cabeça, estivesse compondo toda a canção. Aquilo me acalmou momentaneamente.

Levantei lentamente. Dessa vez o efeito passara rápido demais. Precisava achar algo mais forte e não tão caro.

“Puta que pariu” xinguei em voz baixa, pensando na droga que, aos poucos, deixava de fazer efeito.

Ainda estava lenta quando fui abordada por um sujeito vestido em roupas sociais, com pinta de playboy de academia e com um sorriso malicioso nos lábios.

“Vem sempre aqui, gata?” perguntou o rapaz, aproximando-se mais do que eu permitiria que um estranho fizesse.

“Desculpe, mas já passei da idade de cair nessas cantadas. Tente uma de quinze anos” respondi rigidamente e, colocando a mochila nas costas, e me preparando para ir embora, quando o desconhecido me agarrou pelo braço de forma agressiva.

“Calma aí, lindinha. Vamos conversar um pouco…” Disse ele ainda agarrado ao meu pulso. O sujeito tinha as mãos fortes e com certeza, aquilo não era um convite educado para tomar um drink. Eu estava, obviamente em um problema.

“O que você quer?” Minha pergunta soou idiota aos meus próprios ouvidos. Minha voz ainda estava arrastada e minhas pernas bambas. Seria difícil me livrar daquele molestador. Senti novamente o sangue escorrer, dessa vez indo parar no meu queixo.

ggggO agressor se aproximou. Usava um perfume caro. Viu o sangue escorrer e, espirituoso, respondeu, apertando mais meu pulso e colando o corpo ao meu.

“Sei lá… deu uma vontade incrível de cuidar de você.”

Embora seu tom fosse educado, o homem falava trancando os dentes. O recado estava mais do que dado. Ele queria me estuprar. Provavelmente, se eu tivesse sorte, me largaria em algum local deserto, sem roupas e completamente ferida.

SE eu tivesse sorte…

Não havia outro jeito…

Sorri para ele, que soltou meu pulso, dando-me um beijo repulsivo no pescoço, e desabotoei a jaqueta jeans lentamente. Ainda sorrindo tirei o cinto. Mantive os olhos nele o tempo. Sorria com meu melhor sorriso, e o olhava com todo o desejo de uma mulher por um homem.

O sujeito mexeu nas calças, entre as pernas, olhou para os lados e ficou observando um grupo de jovens que se reunira em volta do tocador de violão.

“Aqui mesmo, gostosa? Você é bem safad…” o comentário dele foi interrompido pelo enlace do meu cinto em seu pescoço, seguido de um puxão forte. Ainda via cores por toda parte, mas algo aconteceu. Quando o sangue subiu e a raiva tomou conta de mim, vi de relance, em formas coloridas, o lobo que me seguia desde pequena em sonhos e visões. Tomei do lobo a raiva e sem prestar atenção aos efeitos colaterais da droga, projetei o palhaço que queria me violentar ao tronco da árvore, através do cinto. Puxei com força tamanha já na primeira pancada que o rapaz ficou completamente desnorteado.

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Afrouxei o cinto quando o vi cair de joelhos. Não queria matá-lo. Queria surrá-lo.

Antes que ele pudesse reagir, segurei-o pela gola da camisa social, rasgando-lhe o ombro do tecido. Coloquei-o de frente para mim e desferi tantos socos quanto pude. Só parei de bater quando as cores passaram a se intensificar demais. Eu poderia desmaiar.

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O “agressor”, por outro lado, estava estirado no chão, xingando palavrões e cuspindo sangue. Sem perder tempo, puxei o canivete do meu bolso, montei em cima dele e coloquei-lhe a lâmina na garganta.

“Eu não te mato porque vai contra meu código de honra e o código de honra do meu povo.” disse, apertando a lâmina contra a pele fina do pescoço do rapaz. “Aposto que você me queria por cima, não é, seu verme?”.

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Ainda com o canivete em riste, apalpei os bolsos dele e tomei sua carteira.

“Uhmmm… Felipe… Luiz Felipe. Prazer. Sarah Cruz. Cigana. Essa carteira vai comigo porque, ao contrário de matar, isso não vai contra a conduta do meu povo. “

Sem mais delongas e ainda vendo o mundo em uma aquarela de cores, levantei-me, peguei minhas coisas e fui embora com a carteira.

Ao menos teria dinheiro para algo mais forte. Algo que me fizesse transcender de verdade.

O sangue continuou a escorrer…

“Nunca mexa com uma cigana” gritei de longe, para provocá-lo. E sumi na escuridão.

Por Raquel Pinheiro.

Uma cigana ( que não rouba!)