[A.Lice] Sarah Cruz – Para além das causas estão os mistérios (Capítulo 1)

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Anteriormente em A.Lice:
Sarah Cruz: Prólogo
Gessica: (Prólogo)


“Debaixo de um arbusto, um pão e uma garrafa, um pão. E tu…” Recitava Sarah, caminhando pela noite que começava a tornar-se fresca, quase fria. A jaqueta protegia seu corpo, mas a jovem cigana podia sentir a brisa ressecar-lhe os lábios. Ter o céu como teto, o firmamento e as estrelas, nem sempre era um grande privilégio.

Cansada, suada pelo ataque de mais cedo e ainda com manchas de sangue nas roupas e pelo rosto, a jovem buscou uma Rodoviária Intermunicipal, não muito longe de onde estava, um lugar para tomar um banho. Era sempre lá que, pelo preço de cinco reais e alguns olhares desconfiados, Sarah tomava banho, limpava da pele os pêlos ralos que eventualmente cobriam-lhe as pernas, o sexo, as axilas, deitava mirra nos cabelos e lavava como podia a roupa que usara durante o dia, secando-as ao sol, pela manhã, enquanto pintava.

Após banhar-se e trocar as roupas (uma calça jeans rasgada nos joelhos e uma bata leve), a menina andarilha precisava de um lugar seguro onde dormir. Pensou nos inúmeros bancos de praças espalhados pela cidade. Algum banco que estivesse mais oculto, sob a sombra de algum telhado ou árvore serviria.

Após andar por algum tempo, achou o lugar ideal, atrás de um cercado, em um parquinho destinado a crianças. Ali, certamente não seria perturbada. Só ao deitar no banquinho sentiu as cores irem embora. Agora, só o que a cobria era mesmo o azul infinito do céu límpido.

“Viemos girando do nada, espalhando estrelas como pó”, sussurrou para si mesma, acendendo um cigarro.

NicholasBuerAstrophotography18Fitava as estrelas fumando distraidamente quando ouviu um ruído.

Passos…

Alguém se aproximava.

Imediatamente sentou-se e puxou seu canivete. Duas tentativas de estupro em um mesmo dia seria demais para um dia.

Posicionou o canivete sob a manga da jaqueta, esperando o pior. Do meio da vegetação bem cortada do parquinho, surgiu um homem muito grande, de barba espessa e um aspecto familiar. Suas roupas, a barba crescida, os colares e anéis. Seria ele também…?

“Droboy tume Romale! Bartai Sastimos…” disse o homem com porte de estivador e de floreios cavalheirescos, contrastando com a aparência rústica.

12421621_1134679429877559_1195664533_nk“Droboy tume Romale…” Respondeu Sarah ao cumprimento cigano, olhando o homem com desvelada curiosidade.

“Sabia que era dos nossos. Prazer… Como posso chamá-lo?”

“Sandro Tarim”, disse o cigano de voz grossa, segurando delicadamente as mãos da moça, num aperto de mão respeitoso. “Segui o teu perfume, murri shukar. Usa mirra… Delicioso o cheiro que você exala. Com todo respeito.”

“Sim… mas bastou isso para que me reconhecesse?” Sarah sentiu pulsar qualquer desejo ao olhar do misterioso homem.

O homem sentou-se ao lado de Sarah. Tinha um cheiro que parecia misturar vinho com alguma erva muito amadeirada. Seu aroma era envolvente.  Sem palavras, Tarim apontou para seus anéis, pulseiras, cordões. Cada um carregando um diferente símbolo.

12421375_1134585139886988_1980246156_n“Muitas mulheres se vestem conforme dita a moda, mas só uma andarilha se veste como uma cigana, dorme ao luar, anda perfumada e com adornos tão belos… e tem o olhar de nossa gente.”, disse o estranho, chegando cada vez mais perto de Sarah, que de forma alguma chegava a se irritar com a ínfima distância entre os dois.

“Veio conversar…?”, perguntou Sarah, olhando nos olhos cor de mel de Tarim.

“Vim pelo que o vento me trouxe… e para o que quisermos, murri shukar”, um sorriso decorava o rosto rude de Tarim. Sarah sentiu-se desarmada.

O cigano puxou do bolso um frasco e entregou à menina.

“Que é isso? Presente de Natal?”, perguntou, espirituosa. Já não sabia esconder o sorriso e o olhar que estudava cada detalhe do enigmático Sandro Tarim.

“Uma belo agrado para uma bela mulher.”

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“Gestena… O que é?”, perguntou Sarah analisando o frasco de vidro translúcido de cor amarelada.

“Experimente e saberás… É quase como sonhar com todas as coisas ao mesmo tempo… E esquenta o sangue.”, sorriu Tarim, com um sorriso pueril, puxando de leve a jaqueta da jovem cigana, expondo-lhe os ombros delicados.

“E se me envenenas? Não faz nem quinze minutos que te conheço.”

Sem cerimônia, Tarim pegou das mãos de Sarah o vidro e bebeu metade do conteúdo, oferecendo à moça o resto.

“Morreremos juntos, Julieta” respondeu, ajoelhando-se diante dela. Segurando suas coxas já com força, Sarah estremeceu.

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Sarah olhou relutante para o rapaz, mas diante do clima envolvente, e pela curiosidade de experimentar algo novo, virou o líquido de sabor adocicado e quente de uma só vez. Sabia que em breve estaria drogada ao lado de completo desconhecido. Mas o corpo de uma mulher clama por muito mais do que o simples uso de uma droga, da alegria da dança, ou do bom sabor da comida. Ao beber, olhou Tarim, que desabotoava o colete surrado que lhe cobria o torso.

“És pura?”, perguntou o homem, já com o torso nu e os olhos mais sonolentos.

“Sequer de alma.”, Sarah respondeu.

Com um olhar de soslaio rápido, Tarim agarrou a moça pelos quadris. Sarah não fez objeção alguma o toque firme daquele homem surgido do nada. Ela o queria também.

Sarah não teve certeza de quando ou como ficara despida, mas de repente, sentia apenas o pulsar de Tarim dentro dela. Seu aroma de ervas misturava-se à mirra, unindo ainda mais uma sensação ao gosto do sexo intenso entre os dois corpos e o prazer da droga intensificando cada movimento. Sarah via os olhos de Tarim de relance, sentia seus dedos, a boca úmida nos locais certos. Provou do homem também. Ele tinha o gosto da droga…. adocicado, quente.

hqdefaultSarah alternava contudo a delícia dos carinhos firmes e quase dolorosos do corpo enorme de Tarim com a sensação de estar em outro lugar. A cada vez que o cigano a agarrava com mais fome, Sarah podia sentir o clímax crescer dentro de seu corpo e, ao mesmo tempo, sentia-se correr em prados multicoloridos… Em sua cabeça, em sua viagem estática, movimentada apenas pelo vai e vem dos mais intensos impulsos carnais, a jovem corria por campos de cores mil, pintados por ela mesma, sujava-se de tinta. 12434148_1134586563220179_1856445372_nNão sabia quanto tempo havia passado, mas sabia que estava ali havia muito tempo. O cigano de corpo forte e mãos firmes parecia não estar satisfeito jamais. Sentiu seu calor dentro dela uma, duas, inúmeras vezes. Os gemidos graves vinham em ondas de som longínquas.

“Morro volá, morro volá…”, gemia, o cigano, movimentando-se com mais e mais violência… Sarah o agarrava, puxava-o… Já não sabia quem era, ou onde estava. Apenas saboreava o paraíso com aquele homem de seu povo, cujo nome já não lembrava, mas cujo cheiro, suor, gosto, conhecia em detalhes. De novo, viu seus olhos felinos cor de mel sob a luz quase nenhuma que os iluminava.

Ao fim das forças de Tarim, ambos deitaram no gramado lado a lado…

“Que sensação maravilhosa… você e essa delícia que me trouxe. O que é isso?” Perguntou a jovem, tomando fôlego. Seu corpo estava mole.

Tarim deitou-se por cima da garota, as calças vestidas, mas abertas. Com as duas mãos, separou-lhe as pernas. Recomeçou com mais força. Berrou, gemeu… Berraram os dois.

Cães latiam ao redor da cena proibida.

Ao fim do último derramar do desejo, Tarim, sentou-se. Vestiu-se. Deu tempo para a menina se vestir. Quando os dois estavam recompostos, tanto quanto possível, Tarim levantou-se.

“Morro volá”, disse ele, beijando-a e sabendo que Sarah conhecia dos ciganos que amam profundamente por um momento fugidio.

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“Voltaremos a nos ver. Sentirei seu cheiro…” Murmurou o cigano ao pé do ouvido de Sarah. Ao dizer isto, o rapaz fez menção de partir. O alvorecer já chegava…

“Espere… Mas e a droga? Onde consigo mais? Qual nome?”

Tarim olhou para Sarah como se quisesse voltar e fazer tudo de novo. Mas precisava ir. Sorriu, entregou-lhe mais 4 vidros da substância e apenas respondeu:

“O nome é A.lice. ” Fez uma pausa para abotoar o colete, e completou em um tom mais alto, como quem dá um conselho vital: “O Bispo sabe. O Bispo ajuda…”

pessoa fechada_thumb[1]A manhã chegou rosada… Sarah precisava banhar-se novamente. Mas tudo o que queria era aproveitar mais e mais tempo com as indescritíveis sensações do misterioso líquido.

Estendeu o pulso já sem pulseiras – todas arrancadas durante o sexo – e, sem saber se era real ou não, viu uma borboleta. Sorriu.

“A.lice…” Sussurrou… “O bispo sabe… O bispo ajuda…”

Tarim sumiu com o chegar do sol.