[A.Lice] Rodrigo – O primeiro passo rumo ao Infinito (Prólogo)

a.lice-capa-temporada-1

Anteriormente em A.Lice:
Sarah Cruz: PrólogoCapítulo 1
Gessica: Prólogo
Karasu: Prólogo


Uma coisa que eu quero que você entenda é que este diário está sendo escrito com o intuito de servir como base para uma sistematização melhor estruturada, e menos trivial das ideias aqui expostas. Se o texto final não chegou em suas mãos, é porque eu morri antes de concluí-lo, ou porque me perdi em uma de minhas incursões pelo Fluxo (o que, em muitos casos, são sinônimos).

Meu nome é Rodrigo, e é só disto que precisa saber. No momento em que escrevo este texto sou um homem na casa dos 33 anos, proprietário de um sebo numa cidade de médio porte que, por enquanto, é irrelevante.

Desde que aprendi a ler sou fascinado por histórias em quadrinhos. Possivelmente eu não admitiria isto uns anos atrás, mas agora posso dizer com segurança que eles foram a base das crenças que hoje são o cerne de minhas investigações.

Não sou especializado em nada. Sou apenas um curioso, que gosta de entender profundamente aquilo que mais me fascina. No meu caso, falo de nada menos que a infraestrutura da realidade.

Desde que a humanidade começou sua busca para compreender o funcionamento do mundo, há aqueles que tentam ir além do que é mensurável por nossos sentidos e instrumentos de medição. Xamãs, filósofos, monges, médiuns… Eu poderia dar mais exemplos além destes, mas deixo por sua conta pesquisar a respeito, caso tenha interesse na história dos precursores. Falo dos primeiros a explorarem o Fluxo.

Nesta altura creio que você esteja se perguntando o que diabos é o Fluxo. Por enquanto direi apenas que ele é o nexo de todas as realidades. E quando digo todas, quero dizer todas mesmo. Mas estou me adiantando aqui. Antes devo contar sobre a origem de tudo isto: a Crise nas Infinitas Terras.

a.lice-rodrigo-prologo-crise-nas-infinitas-terras

Se você lê quadrinhos de super-heróis como eu, talvez já tenha lido, ou pelo menos ouvido falar desta história. Caso não saiba do que se trata, ela é, resumidamente, uma saga cósmica de 1985 estrelada por praticamente todos os super-heróis e vilões da DC Comics, na qual enfrentam uma ameaça capaz de destruir o Multiverso, a soma de todos os universos existentes.

Na primeira vez que li Crise nas Infinitas Terras eu sequer cogitava a possibilidade de existir um Multiverso. Leve em conta que eu tinha 14 anos na época. Portanto, aquela foi uma história que expandiu meus horizontes. Quando terminei a leitura daquele épico em 12 partes escrito por Marv Wolfman, com os desenhos espetaculares de George Pérez, fiquei tão fascinado pela ideia, que comecei a ir atrás de outras histórias que abordassem essa hipótese do Multiverso.

Anos mais tarde, por influência da minha família, entrei em contato com a Doutrina Espírita de Allan Kardec, que defende a continuidade da vida após a morte, numa dimensão adjacente à nossa onde nós, como espíritos, sobrevivemos à morte de nossos corpos. Eis outro possível desdobramento da hipótese da existência de outras realidades além da nossa.

Como eu disse antes, sou um sujeito curioso, e não parei por aí. Continuei lendo livros e quadrinhos, e também assistindo filmes, séries e desenhos animados que abordassem ideias semelhantes. Há uns 13 anos eu era fascinado por animações japonesas, que por sua vez despertaram meu interesse por filosofia oriental.

Perdão se meu relato é cheio de lacunas. Algumas delas serão preenchidas mais adiante. Não quero tomar muito do seu tempo neste texto introdutório. Creio que basta dizer que meus estudos sobre filosofia oriental me levaram a aprender técnicas de interiorização. Foi graças a elas que experimentei meu primeiro contato consciência com o Fluxo…

Lembro-me com nitidez daquele dia – pois é assim que nos lembramos de nossos contatos diretos e conscientes com o Fluxo – eu estava em meu quarto, com a janela fechada e as luzes apagadas. Sentava-me com as pernas cruzadas em lótus sobre uma almofada de meditação. A coluna ao mesmo tempo ereta e relaxada, conforme meu professor de ioga me instruíra, a respiração profunda e compassada. Olhos fechados para o mundo exterior, mas abertos para as impressões que meu interior trouxessem à tona.

Já havia feito aquilo diversas vezes, mas minha concentração era errática demais, sempre quebrada por algum som ambiente, ou um pensamento desgarrado que me distraia. Mas aquele dia foi especial. De alguma forma eu alcancei o equilíbrio necessário para chegar àquele local. O meu próprio Lago da Quietude.

Foram 10 minutos inspirando e expirando, sempre me lembrando de expirar mais do que inspirar. Limpando o corpo e a mente…

Prendi o fôlego por alguns segundos quando ouvi o barulho da água…

Abri os olhos, não meus olhos de carne, mas meus olhos mentais, e estava diante de um lago. Girei a cabeça, e logo descobri que estava no centro do lago, numa espécie de pedestal cônico que nascia de seu fundo. A superfície era fria. “Vidro”, logo concluí, assim como as paredes da estrutura em forma de abóbada translúcida e cristalina que cobria todo aquele amplo globo, no centro do qual eu estava. Do lado de fora vi um mar de árvores que se espalhava ao redor. Eu estava acima de suas copas, dotadas do verde mais intenso que eu jamais vislumbrei. E o azul do céu era… indescritível. Nuvens, muito brancas, volitavam lentamente no firmamento.

a.lice rodrigo prologo esfera celeste sobre floresta sem fim

Era tudo tão calmo ali… Eu me sentia leve como uma pluma…

“Seja bem vindo”, disse uma voz, vinda de dentro de mim.

“Onde estou?”, quis saber.

“Você sabe onde está. Basta sentir.”

E eu senti… Como um pulsar muito distante, vindo de todas as direções. E um calor que acolhia mais do que aquecia.

“Sinta o Fluxo.”, disse outra voz em meu interior. Mais distante que a primeira. Mais alheia.

“Você estava certo, meu caro”, e não pude conter um sorriso de satisfação infantil.

Aquela primeira incursão durou menos de 5 minutos, segundo o relógio do meu celular, mas pareceu estender-se por um tempo maior do que o medido por ele. Desde então, eu me empenhei mais em meus estudos.

Para complementá-los, entrei em grupos de discussão na internet, onde trocava ideias e experiências sobre ioga e outras técnicas de interiorização. Recebi novas dicas de cursos, livros, e técnicas pouco conhecidas.

Um dia recebi um pedido de amizade de um homem chamado Tarim. Não o conhecia, mas ele era conhecido de alguns amigos meus. Aceitei seu pedido.

No dia seguinte, Tarim enviou uma mensagem em particular:

“Droboy tume Romale.”

“Perdão, mas não entendi o que você disse.”

“Oi. Ne rakesa tu Romanes?”

“Continuo sem entender, cara.”

“Perdão, amigo. Só quis confirmar uma coisa.”

Achei estranho aquele início de conversa, mas em seguida ele começou a dizer que sabia de minhas pesquisas, e que tinha algo que poderia me ajudar.

Perguntei o que seria, e ele me respondeu que era uma droga experimental que aumentava a concentração, e estimulava as conexões necessárias para acessar o Fluxo.

“Como sabe sobre o Fluxo?”, não pude evitar a pergunta.

“Eu já estive lá.”

“Não tenho interesse em drogas.”, enfatizei.

“A.Lice vai ajudá-lo a aprofundar-se em suas pesquisas.”

“Como sabe sobre elas?”

“Eu não sei. O Bispo sabe. O Bispo ajuda.”

“Bispo? Quem é Bispo?”

“Alguém que quer presenteá-lo. Basta me informar seu endereço.”, desconversou.

Como eu disse anteriormente, sou um cara curioso. Claro que achei aquela conversa muito estranha, mas minha curiosidade foi maior. Passei o meu endereço

No dia seguinte recebi uma caixa.

“Sem remetente….”

Dentro dela havia uma ampola, uma seringa descartável e um bilhete:

“Eis a chave. Pronto para usá-la?”

Fiquei uns minutos encarando aquilo. Claro que não usei na primeira oportunidade.

Pesquisei a respeito da tal A.Lice, e pra minha surpresa não encontrei nada a respeito.

Deixei uma pergunta num dos grupos do qual fazia parte:

“Alguém já usou A.Lice?”

5 dias se passaram. A maioria das “respostas” que recebi eram perguntas, piadas envolvendo Alice no País das Maravilhas, e uma insinuação de que eu era pedófilo.

Não havia notícias sobre a droga, o que significava que ela ainda não estava “no mercado”. Pelo menos não ao ponto de render matérias e reportagens nos jornais. A.Lice era uma incógnita. Assim como o tal Bispo. Um apelido genérico demais pra eu começar uma investigação sobre o sujeito.

Por isto tentei falar de novo com o tal Tarim:

“Por que enviou uma dose?”

“Você me passou seu endereço.”

“Foi um teste.”

“Encare o presente como um teste também.”

“Quanto vai custar as próximas doses, caso eu queira mais?”

“Sem custos. Basta me pedir que eu te consigo mais.”

“Você não daria uma droga a troco de nada. Quem está ganhando com isto? O Bispo?”

“Ele só quer ajudar.”

“E o que ele ganha com isto?”

“A satisfação de ajudá-lo em sua busca.”

“Como ele sabe sobre ela?”

“Isto não é importante.”

“Claro que é! Estamos falando de algo que vai mexer com a química do meu corpo e ferrar com a minha cabeça!”

“Mexer com sua química sim. Ferrar com sua cabeça não. Vai ajudá-lo a expandir sua consciência. Não é isto que procura?”

“Eu não acredito em você.”

“Não precisa acreditar. Basta sentir.”

Aquela última frase ressonou em mim de tal forma que fui incapaz de continuar a conversa. Diante do meu silêncio, Tarim disse mais uma de suas frases enigmáticas:

“Latcho Drom!”

Nos dias seguintes tentei várias vezes chegar ao Lago da Quietude, sem sucesso. Minha dificuldade de concentração aumentava. A caixa sobre a escrivaninha parecia pulsar, me atraindo…

“Siga o Fluxo.”, dizia a voz dentro de mim.

Saí pra espairecer. Dei uma volta no quarteirão. Tudo ao meu redor passava num borrão disforme. Tudo parecia convergir praquela caixa.

Chegando em casa, fui direto pro meu quarto. Abri a caixa, peguei a ampola, tirei a seringa da embalagem de plástico, penetrei a agulha na tampa de borracha. Enquanto sugava todo o líquido por ela, reparei numa marca d’água na embalagem, bem fraca, branca sobre o azul celeste que coloria o fundo da etiqueta. O perfil de um coelho.

“Claro!”, aquilo me divertiu.

Dei três tapas com o indicador e o médio na veia entre braço e o antebraço, fechei o punho…

Hesitei por alguns segundos, olhando o líquido dentro da seringa.

“Ah, foda-se!”

Espetei. Injetei.

Em um minuto meu coração acelerou. Comecei a fazer exercícios respiratórios para normalizar os batimentos. Sentei em posição de lótus sobre a almofada. Fechei os olhos.

A escuridão logo assumiu a forma de um túnel de luzes multicoloridas. Senti todo o meu ser sendo sugado através dele. Em seguida veio a sensação de parada súbita, como uma “freada metafísica.”

Diante de mim, em torno de mim, estava a cúpula envidraçada. Além dela, a floresta sem fim.

“Bem vindo de volta.” disse a voz em meu interior.

“Já estive aqui. Quero ir lá fora. Sei que há mais.”

“Que assim seja.”

O que aconteceu a seguir é difícil de descrever. É como se a realidade estilhaçasse em torno de mim, a partir da superfície da esfera de vidro onde eu estava, revelando uma nova dimensão atrás dela.

Os fragmentos se dissolveram em pleno ar.

Em poucos instantes, eu estava diante do que parecia uma imensa árvore de luz, cujo tronco partia dos meus pés. De alguma forma ela parecia ao mesmo tempo deitada e de pé, abrindo-se para todas as direções.

a.lice rodrigo prologo tree of light by tang yau hoong

“O Fluxo…”, foi tudo o que eu consegui dizer.

“Escolha em qual direção você o dará.”, instruiu a voz.

“Darei o quê?”

“Seu primeiro passo rumo ao Infinito.”

Continua…