[A.Lice] Rodrigo – Conheça a ti mesmo (Capítulo 1)

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Se você chegou até aqui, é porque consegui despertar seu interesse, o que significa que sou um escritor razoável. Lamento se a qualidade da minha escrita não te agrada, mas estou fazendo o melhor que posso.

Onde eu parei mesmo? Ah sim! Na “árvore de luz”…

a.lice rodrigo capitulo 1 tree of light de pumpkin22

Tree of Light de Andrey Oliveira

Eu estava diante daquela estrutura luminosa, e tudo que consegui dizer depois daquele convite da voz que vinha do meu interior foi:

“Isto é mesmo o que eu penso ser?”

“Depende do que você acredita que seja.”

“É o Fluxo, não é?”

“Descreva o que está diante de ti.”

“Você não está vendo? Afinal, sua voz está vindo de dentro de mim… Você é minha consciência?

“Não. Estou apenas usando este canal de comunicação.”

“Quem é você?”

“Isto não é importante agora.”

“E o que seria mais importante que isto?”

“Você saber o que é que está diante de ti.”

“Uma árvore de luz.”

“Interessante. Fale mais sobre ela.”

“Ela… Seu tronco… Ele parte dos meus pés… Como uma… sombra de luz?! Não sei bem como descrever isto.”

“Palavras são limitadas em suas capacidades de traduzir verbalmente aquilo que os olhos vêem. E suas limitações aumentam quando o desafio é usá-las para descrever o que os olhos da mente testemunham.”

“Mente… É isto, não? Esta árvore… É uma metáfora…”

Neste ponto os olhos de minha mente perderam-se na paisagem mental que me cercava. Antes tudo ao redor parecia escuro, sendo a árvore de luz a única coisa visível. Mas, quando os desviei para o cenário em torno de mim, notei que ele emitia um brilho fraco. Uma luz própria, avermelhada. Ela pulsava…a.lice rodrigo capitulo 1 womb

“Algum problema? Já está quieto há mais de um minuto.”

“Você não está ouvindo?”

“Ouvindo o quê?”

“Um som baixo… Parece vir de… Todos os lugares…”

Tudo ali pulsava…

“Como batidas de um coração.”

Novamente silenciei. Girei meus olhos, tentando discernir o que eu via e ouvia. Levei a mão ao peito quase por reflexo.

“Está pulsando na mesma frequência que meu coração…”

“Prossiga. O que mais pode dizer sobre este lugar?”

Voltei a olhar para a árvore de luz. Ela parecia…

a.lice rodrigo capitulo 1 tree of life light

“…pulsar. Não reparei nisto da primeira vez, porque é bem sutil. Mas ela também está pulsando. Só que mais rápido. Como… uma TV… Meus olhos não conseguem acompanhar a velocidade.”

“E a árvore parte de seus pés, certo?”

“Sim, ela… Porra! Como eu pude deixar isto passar por mim! É tão óbvio agora!”

“O que é óbvio?”

“Ela não é o Fluxo. É a minha mente! Ou a representação visual dela, certo?”

“Continue…”

“Antes de vir pra cá eu estava num salão em forma de esfera. Numa ‘bolha de pensamento’. E quando eu pedi pra ir além dela, fui transportado pra cá.”

“Transportado? Tem certeza disto?”

“Não… Não, tem razão! Eu me impulsionei até aqui. Até esta… Interface. Isto! Esta é a palavra: interface! Esta é a interface gráfica da minha mente.”

“Dedução interessante.”

“Cara, que loucura! É como… enxergar meu interior do lado de fora, e ao mesmo tempo pelo lado de dentro… É…”

“Paradoxal.”

“Exato!”

“Meus parabéns. Você acaba de dar seu primeiro passo.”

“Como assim? Eu nem saí do lugar.”

“Antes de partir em qualquer jornada, você precisa saber onde estava, e definir para onde vai. E agora, você encontrou seu mapa.”

“…”

“Escolha um caminho, Rodrigo.”

“Ei, como sabe o meu nome?! Se você não é minha consciência, como descobriu meu nome?”

“Tais respostas não são necessárias agora. Nos encontraremos em breve. No momento, você deve concentrar-se no que tem diante de ti.”

“Certo… Escolher um caminho…”

Então, voltei a olhar atentamente praquela árvore. Praquela representação de mim mesmo. Minha… infraestrutura cerebral. E foi aí que eu me dei conta de uma coisa:

“Eu a criei. Isto não estava aqui antes de eu chegar. É apenas uma forma possível, certo?”

“Você aprende rápido, Rodrigo. Creio que nosso encontro não demorará a ocorrer.”

“E você é o pior professor que eu já tive.”

“Não sou um professor. Sou apenas um guia. Mas quem escolhe o caminho é você.”

“Ok. Deixa eu ver… Tá, já decidi. Vou praquele ramo lá em cima.”, disse apontando pra um “galho” da árvore.

“Vá em frente.”

“Ceeerto…” e respirei fundo, dando o primeiro passo adiante.

Em seguida, a árvore brilhou com uma intensidade crescente, até me cegar por completo. Uma cegueira branca que durou o mesmo tempo em que senti minha essência ser sugada por um túnel de luz, e de alguma forma “encolhida” (na falta de um verbo que melhor descreva a sensação).

A brancura foi aos poucos se tornando leitosa, e um cenário foi emergindo dela, como uma foto se revelando. Só que aquela “foto” era holográfica, viva, como…

“Chuta logo essa bola pra cá, Rodrigo!”

Uma bola de borracha, daquelas bem vagabundas, compradas em qualquer loja de brinquedos barata, repousava em dois pés calçando chinelos de dedo sobre um piso cimentado. Duas mãos pequenas pegaram a bola, soltaram-na no ar, e no segundo seguinte um dos pés a chutou.

“Pléeeein!” foi o som que a bola fez.

Saí correndo atrás dela, meus chinelos de dedo estapeando o chão de cimento. Alguns passos adiante, cinco moleques de alturas variadas disputavam a bola. Meus amigos dos tempos de Alfenas. Eu tinha nove anos mais uma vez…

Continua…