[A.Lice] Karasu (Capítulo 1: Perseguição, Retaliação)

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Asemic Graffiti

LAKE

Aglomerados estelares e sombras de destroços flutuantes refletiam na superfície de um lago, abraçando e circundando uma figura alada que boiava nas águas. Havia voado por um turbilhão caótico de sensações e consciências descartadas. Caiu aleatoriamente. Inconsciente. Um velho com traços semíticos passava por ali. Avistou aquela figura negra e estranhou sua aparência. Caminhou até a margem do lago e gritou:

– Zindah ay? Sdaym ra myshnwy?

Não obteve resposta. Então nadou até a criatura humanoide. Arrastou-a para a margem e tentou reanimá-la, estapeando seu rosto oriental.

– Bidär šo! bidär šo!

Os tapas que recebia desencadeavam lembranças de combate. Cada impacto culminava em sons de lâminas confundidas com o rosnar de monstruosidades inomináveis. Aos poucos, recobrava sua consciência, e as palavras do velho, antes incompreensíveis, começaram a fazer sentido em seus ouvidos:

– Acorde! Acorde!

Despertou. Viu o firmamento, o mesmo que refletia no lago, repleto de estrelas e com rochas e pedaços de ruínas antigas flutuando por todos os lados. Estranho. Nunca havia perdido sua lucidez. Nunca havia desmaiado. Nunca havia adormecido. Nunca havia acordado.

– Beba… – Ofereceu-lhe a água que estava guardada dentro de um frasco adornado com caracteres cúficos cursivos pintados porém desgastados.

Cuspiu aquele líquido. Seu organismo rejeitava qualquer nutriente. Não precisava disso. Levantou-se, sentou-se e observou aquele oásis…

– Calculei mal minha minha aterrissagem. – Disse.
– Qual é o seu nome, jovem corvo? – Perguntou, muito curioso por causa de suas asas.
– Meu nome é Omamori. – Retraiu suas asas negras, que desapareceram dentro de seu traje surrado e sujo de sangue.

Verificou sua bainha, e viu que o velho apontou para o lado. Ela descansava entre as dunas ali perto.

– Você é nativo. Posso sentir isso.
– E o senhor não é daqui.
– Tem razão. Não sou. Mas estou onde quero estar. Esse lugar me faz lembrar de casa.
– Entendo.

O ninja se ergueu para buscar sua espada.

– Já vai partir?
– Não, ainda não sei onde estou. Não sei qual direção tomar. – Verificou a lâmina que dormia na bainha, e viu que estava suja de sangue e areia. Usou sua roupa e seu lenço para limpá-la.

O velho também se levantou, e começou a caminhar numa direção, chamando o ninja para acompanhá-lo.

– Como se chama, velho?
– Me chamo Umar. Ajale kon! Minha casa fica aqui perto. Lá poderá descansar.
– Não estou cansado.
– Sem sede… Sem fome… Sem fadiga. Como presumi, você realmente é um nativo.

O ninja observava panzers, bigas romanas, petroleiros furados e muitas outras coisas enferrujadas que rodopiavam como bússolas birutas lá em cima.

– Muitas eras distintas se encontram aqui, jovem corvo…
– Estou vendo.

Ao final dos mantos arenosos havia terra firme. Caminharam por mais algumas horas e chegaram em um leito.

Passando por ele, avistaram uma vegetação rasteira. E uma casa simples. Muitos vasos preenchidos com substâncias desconhecidas para ele, porém com aromas agradáveis.

O velho surgiu por entre as cortinas, fez uma reverência e o convidou para se sentar no chão coberto por tapetes bordados com flores. Haviam livros e papéis dispersos por todo o ambiente.

– Você escreve bastante.
– De vez em quando. Desse lado, poesia. Desse outro, matemática. Pode ler, se quiser.
– Acho que não entenderia.
– Eu não teria tanta certeza disso. Se fosse assim, não entenderia o que estou dizendo.
– Preciso seguir meu caminho. Talvez, numa outra ocasião, possamos conversar sobre isso.
– Como quiser. Agora me diga como veio parar aqui.
– Perdi o controle e não consegui voltar para onde deveria. Fui perseguido.
– Perseguido?
– Sim.
– Hmm… – O velho passou seus dedos em sua barba longa e desgrenhada, se aproximou do ninja e tocou sua fronte, fechando seus olhos.

– Vejamos…

Entrou em sua mente e vasculhou sua memória.

MOUNTAIN

Uma montanha vagando pelas nuvens era cercada por névoas densas e esbranquiçadas. Um pequeno templo demolido jazia no topo dela. Um ninja meditava em seu interior, após uma longa viagem.

Criaturas voadoras, grotescas, pousaram na entrada do templo. Adentraram no portal, fazendo muito barulho. Alguns carregavam lanças, outros espadas e adagas, metralhadoras e bazucas, granadas e cartucheiras. Usavam pinturas avermelhadas em suas asas, faces, chifres e narizes. Aliás, seus narizes eram longos e engraçados, e recobertos por pequenas baionetas. Vestiam armaduras leves muito antigas, ornamentadas com ideogramas flamejantes.

– Sabojo sabe que estão aqui? – Perguntou o ninja, ainda de olhos fechados, de costas para os monstros armados.
– Você já deve saber essa resposta, Karasu. – O líder deles respondeu num tom jocoso, batendo levemente a ponta de sua lança no assoalho de pedra irregular, causando ecos ao redor deles.

Foram se aproximando com passos pesados, preparando suas armas. Alguns arqueiros ficaram empoleirados nas vigas do telhado quebrado, esperando reações agressivas. Mas o ninja não se moveu. Estava cercado.

– Venha conosco, Karasu…
– E por que eu faria isso?
– Porque preferimos levá-lo vivo e intacto até a Cabeça do Dragão…
– Assim lucrarão mais…

O ninja ficou de pé e se voltou para o líder, e os arqueiros prepararam suas flechas. Mas o ninja não esboçou qualquer movimento brusco. Ao invés disso, caminhou lentamente em direção ao líder, que amarrou suas mãos e confiscou sua katana. Ao deixarem o templo, chegaram até a borda da montanha. Nesse momento, o ninja novamente se voltou para eles e sorriu, mergulhando de costas dentro da névoa.

– Atrás dele! – Ordenou o líder entre dentes, fervendo de raiva.

A descida vertiginosa encontrava obstáculos imagináveis. Eles manobravam como aviões entre resquícios de pagodes queimados, longos navios mongóis partidos e outras quinquilharias que atrapalhavam suas visibilidades.

– Muito esperto, muito esperto… – Disse um deles, antes de ser alvejado por dardos no tórax, se espatifando violentamente no capô de um conversível sem rodas, que por sua vez estilhaçou um obelisco helênico enfraquecido.

– Veio daquele lado!

Arremeteram para outra direção, metralhando locomotivas e trilhos retorcidos. Um deles acabou se perdendo, deixando pra trás o seu arco. Foi agarrado pelo nariz por uma garra e depois decepado por um bico gigante. Em seguida, o corvo gigante sumiu novamente. Atiraram para todos os lados sem ter a mais remota noção de onde deveriam concentrar seus esforços.

– Cuidado!

Uma roda gigante se embrenhou entre menires, coretos e estátuas quebradas, e eles se dispersaram, desviando de uma chuva de adagas perseguidoras.

– Maldito! – Praguejou, enquanto rebatia as adagas com suas duas espadas.

Acabou por perder seu senso de direção, encontrando uma janela gótica, enfiando seus chifres no vitral. A catedral flutuava e sacudia. Os outros entraram dentro dela, amedrontados. O líder veio logo em seguida, vociferando:

– O que estão fazendo aqui? Ele ainda está lá fora! Temos que pegá-lo, seus inúteis!
– Nossa munição acabou.
– Não conseguiremos pegá-lo vivo. Nossos poderes não irão funcionar.

O líder suava como se estivesse numa sauna, e estava ficando cada vez mais impaciente e frustrado. Caminhou de um lado para o outro, até que olhou para o altar e tomou um susto. Na enorme cruz invertida estava pregado um dos seus companheiros, com seu cinturão de granadas. Os pinos estavam amarrados em fios que subiam até o alto da claraboia. Do lado de fora, o ninja puxou os fios, explodindo toda a catedral. Os sobreviventes se reagruparam, mas já era tarde demais. O ninja recuperou sua katana arremessada entre os escombros e desapareceu de novo.

CROW UKIYO-E

– Ele está ali! Vamos!

Se esgueiraram por entre as ferragens que orbitavam uma pequena pirâmide, até que encontraram um grande heliporto entortado logo abaixo dela.

– Já estou cheio disso! Vamos embora! Não quero morrer aqui!

Um dos arqueiros mirou para o lado, mas sua velocidade foi insuficiente. Um escudo comprido de madeira o partiu na cintura, encontrando o solo da plataforma de pouso. Um deles, vestido com uma armadura samurai, havia arremessado o escudo. Estava disfarçado entre eles. O impostor então saltou até o topo da pirâmide e ficou observando. Todos tremiam. Os outros arqueiros reagiram com uma saraivada de flechas, mas ele desceu veloz, passando entre eles, usando suas carcaças como proteção, retalhando pescoços, braços e pernas.

ARROWS

O último tentou correr. Ele se transformou novamente, deixando a armadura para trás. Abriu suas asas e prendeu suas três garras gigantes nas costas do covarde, imobilizando-o no chão.

– Quem contratou vocês?…

– E então? O que ele disse? – Perguntou o velho, afastando sua mão da testa do ninja.
– É mais complicado do que isso. A pergunta é: quem ordenou o contratante?

CORREDOR

A segurança apertava os corredores em todos os andares. No último deles, havia um corredor que servia como pinacoteca. No final dessa senda havia uma porta dupla de madeira maciça, com um grande dragão vermelho esculpido. A aldrava mostrava um triângulo formado por três espadas em alto relevo.

– O chefe comprou alguns quadros novos nessa última semana. – Apontou.
– São muito bonitos mesmo. Quem os pintou?
– Uma tal de Ildiz. Uma branquela européia. Hoje de manhã estive dentro da sala dele, e vi outro no mesmo estilo. Deve ser dela também. Gostei muito daquele corvo.
– Corvo?
– Sim, um corvo. Era um corvo em cima do telhado de uma mesquita. Não viu?
– Acho que vi. Mas não reparei no corvo. Tem certeza de que ele estava em cima do telhado?
– Você precisa prestar atenção nos detalhes. É o que sempre digo.

De repente, escutaram um ruído vindo de trás da porta. Foram até lá para verificar. Quando entraram na sala, viram o chefe sentado em sua poltrona, atrás de sua grande mesa, com um olhar vazio e um shuriken cravado na testa.

– Por favor! Respondam! A Cabeça do Dragão foi atingida! Repito! A Cabeça do Dragão foi atingida!

Numa das paredes ao lado deles havia um quadro, uma linda pintura a óleo, o detalhe de uma mesquita. No primeiro plano da pintura havia um telhado. Não havia corvo algum. Porém, o cadáver segurava um origami, um pequeno cisne, na palma de sua mão inerte.

RAVEN