[QUADRINHOS] Justin – Como é ser um Menino em um Corpo de Menina.

Que me perdoem os leitores, pois sei que as minhas impressões desta HQ poderão causar desconforto, decepção, irritabilidade, mas alguém tem que dizer o que passa na mente da grande maioria; alguém precisa dar a cara a tapa.
Saliente-se que, antes de dar a cara a tapa, levei tapas involuntários.

Pouco tempo antes de ler Justin, havia lido uma HQ já resenhada aqui no site, chamada “O enterro das minhas ex“.

A temática é parecida e a autoria é a mesma.

Em O enterro, temos uma protagonista que, desde bem jovem, sente que não consegue gostar de meninos e, naturalmente, sente atração por meninas.

Justin tem uma história mais complexa do que a contada em “Enterro“. Não desmerecendo todo o sentimento ruim de preconceito que uma pessoa pode passar ao lidar com pessoas que não entendem o que é homossexualidade e afins. Mas em Justin temos um “problema” mais delicado: Justin não nasceu homem.

Justin é uma menina chamada Justine, contudo, sua mente, suas experimentações, seus desejos, suas ideias e atitudes são, desde o início de sua vida, aquelas correspondentes a meninos.

“Bang bang não é brincadeira para meninas, Justine.”

O peso dos dois casos é diferente, na medida em que assumir uma sexualidade diversa daquela aceita pela sociedade mais “tradicional” é um fator complicado, mas a maior parte dos casos de gays ou lésbicas envolve tão somente a sua sexualidade.

Contudo, Justin é quem hoje denominamos um Transgênero, ou seja, uma pessoa nascida com um sexo biológico, mas com toda a psiquê do sexo oposto. Desta forma, um transgênero não é gay. Um transgênero não é lésbica. Não é bi. Ao menos não em primeira instância.
Entenda, caro leitor: Um transgênero é alguém que nasceu em um corpo errado, e precisará lidar com todas as consequências de uma mudança completa de identidade até que se sinta feliz e normal.

Anos atrás assisti a um filme chamado “A pele que habito“. Li também o livro que deu origem ao filme, chamado “Tarântula“. Na história aproveitada para duas diferentes mídias, uma série de tragédias leva um rapaz a ser submetido à mudança de sexo contra sua vontade.

O filme é arrasador no sentido de que a ideia de personalidade é COMPLETAMENTE desconstruída.

Junto com a leitura de Justin, também tive a oportunidade de ler um livro fantástico, que deveria ser um livro de cabeceira para qualquer ser humano. Li “The Art of Being Normal“, um livro complexo, denso, acerca de um adolescente chamado David que deseja ser menina. E no meio de todos os problemas que David vivencia, ele encontra um amigo chamado Leo, que poderia muito bem ser o pior tipo de companhia para alguém tão fragilizado. Mas acaba sendo seu Norte.

Ler The Art of Being Normal (A arte de ser normal) não só me fez compreender “Justin” por inteiro, como fez com que eu passasse a ver com outros olhos a ideia de uma pessoa mudar de gênero.
Voltando, então, a Justin, nosso foco, devo dizer que, com a mente mais clara, eu pude fazer uma leitura limpa e completa, até mesmo das entrelinhas da HQ.

Ninguém compreenderá, em hipótese alguma, o que passa uma pessoa que precisa mudar de sexo para sentir que encontrou sua identidade. Mas existem cinema, literatura e arte para nos levar por caminhos sem cálculos, sem equações, sem leis parciais, pelos quais só uma grande arte pode conduzir onde poucos conseguem ir além do primeiro olhar.

Justin nos traz, de forma objetiva, quase tão agressiva quanto as desventuras da vida de uma pessoa que precisa mudar de sexo, todas os pequenos episódios, situações, mágoas, frustrações, ofensas e dores que estão incluídos no processo de se aceitar como uma pessoa cuja identidade não está ali, de todo construída, e que necessita mostrar e firmar esse “novo eu” perante os olhos dos outros.

O problema não é a casa da avó. Ficar dependurada assim não é para meninas

Não é como se a opinião dos outros deva contar tanto, porque a opinião alheia, se demasiadamente avaliada, nos leva ao eterno marasmo e ao mesmo.

Mas somos seres sociais.

Um ponto do livro, em especial, chamou minha atenção:

Tendo ido a diversos médicos, Justine achou em quase todos o mesmo nível de compreensão que via em sua mãe, ou em seus colegas de classe da época de escola: Justine é vista como doente mental.

A longa saga de transformação inicia-se com a descoberta de um médico preparado para lidar com esse tipo de condição psicológica ou mental (não estou apta para utilizar termos técnicos). A partir disso, e só neste momento, Justine passa a ser quem realmente sempre fora: O homem Justin.

Muda de vida e de sexo. Socialmente, identitariamente, psicologicamente, fisicamente, tudo é novo. E eis a verdadeira vida que se inicia.

Justin foi escrito, assim como “A arte de ser normal“, como uma lição de vida, ou ao menos uma forma de nos tornarmos menos ignorantes.

Ao final de tudo isso você pode estar se perguntando porque eu pedi desculpas aos leitores logo no início da matéria.

Explico: fui criada em uma família tradicional e muito complicada no quesito compreensão. A diversidade nunca adentrou a mente deles, assim como de muitas formas, devo admitir, nunca adentrou a minha mente. Tento progredir.

Mas fico feliz em haver lido Justin e “The art of being normal“.

Ler algo de que você “discorda” faz de você o portador de uma opinião só sua, jamais pré-moldada.

Tente você também, compreender.

E se você entrou aqui com 6 pedras nas mãos, acha absurdo que um site fale de transgêneros ou sexualidade, apenas acorde, caro leitor.

Um comentário azedo não mudará perspectivas.

Mas, claro, seu direito à discordância deverá ser defendido sempre.

Somos livres. Ou não?

Editora Nemo – Tradução: Fernando Scheibe – Brochura – 23,8 x 16,8 x 0,8 cm – 104 páginas

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