[MANGÁ] Innocent – Como uma bela estátua de rocha fria (resenha)

Eu estou longe de ser um especialista em mangás e animes, mas do pouco que sei, teria muito para comentar sobre Innocent. O lançamento foi publicado pelo selo Planet Mangá da Panini Comics, foi escrito e desenhado por Shin’ichi Sakamoto. A começar pelo material, impressão e acabamento impecáveis, mantendo padrão de longa data da editora.

Quanto à arte de Shin’ichi, considerei um espetáculo visual. Os traços são elegantes e delicados. As medidas humanas passam longe de desproporções. (Com exceção de algumas nuvens de paisagens, que parecem fotocópias), a reprodução da arquitetura das cidades francesas e os campos, os detalhes de objetos e reprodução de animais são impecáveis. Ressalto que as cenas de ação deste volume são limpas e claras. Afirmo isso porque acho bastante comum encontrar artistas que desenham esse tipo de cena de modo bastante confuso, não raras vezes ininteligíveis. O leitor poderá esperar em cada linha a presença de constante capricho, mas sem tender ao mero formalismo de um desenhista de retratos.

É evidente a originalidade no traço de Sakamoto. Todavia, não se engane. A ambientação é absolutamente fria e cortante. Creio que o leitor irá perceber o contraste de uma sociedade supersticiosa e líderes corruptos entregues aos excessos, ao mesmo tempo em que encara elevado grau de suntuosidade e prepotência visível na própria arte. Pessoalmente, ao longo da leitura, tive uma sensação parecida com as vezes que li textos do Marquês de Sade. Sade, ao mesmo tempo que tem uma dialética e retórica sofisticada, exterioriza notável inclemência e apatia pela condição humana.

O quadrinho é inspirado na obra do historiador japonês Adachi Masakatsu, sobre a vida de Charles Henri-Sanson, um rapaz de quatorze anos pertencente a uma linhagem de carrascos reais condecorados como “Mounsier de Paris”. Inicialmente, ele resiste à sucessão obrigatória ao cargo. Todavia, submetido a toda sorte de sofrimento, acaba por se ver obrigado a executar Jean de Chartois, filho adotado de um conde, a quem amava.

A princípio imaginei que seria um mangá que desenrolasse em dramas homossexuais de amores impossíveis de um herói apaixonado, resultando no antagonismo frívolo entre sujeito e sociedade. Mas, no fim, a crudelidade e frieza prevaleceram sobre qualquer insinuação aos moldes do romantismo.

A princípio, Innocent é realmente uma bela obra, e creio transmitir aquilo que pretende, todavia, ainda temos muito a analisar. Esse é o primeiro capítulo da coleção. Há um longo caminho de leitura para que possamos ter nossa conclusão. Por enquanto não imagino outra forma de descrever Innocent, além de uma leitura seca e bela, assim como uma folha solitária que cai do alto de uma árvore. Como uma bela estátua de mármore frio. Algo assim.


Panini Comics

Brochura

19,6 x 13,8 x 1,6 cm

208 páginas

281 g

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