[CINEMA] Her, Brilho Eterno… e o que mais?

O ser humano pode achar que seu medo mais significativo é o medo da morte. Contudo, nosso medo mais absurdo, revoltante e talvez mais silencioso seja o medo do esquecimento.

Enquanto estamos vivos, o esquecimento vem em formas muito diversas; Não temos tempo o suficiente para dar atenção a todos; Nem todos têm tempo para nós; Passamos a priorizar coisas novas; Deixamos de ser prioridade daqueles que amamos porque eles também passaram a priorizar coisas o novas…

Difícil dizer. As situações podem ser infinitas.

Quando o esquecimento vem pela morte, ele se torna quase tanto uma fatalidade quanto a morte em si; Em nome do amor e da lealdade, lembramos de cada palavra, gesto, olhar daqueles que amamos e que já não estão entre nós. Mas, assim como é a ordem natural das coisas, nossas memórias irão embora com nossos corpos, ainda que tentemos deixar vestígios dela por aqui e ali. Ainda que ela seja reproduzida em palavras, fotos, gravuras, músicas, serão apenas construtos desiguais daquilo que um dia foi um complexo de pensamentos feitos de um tempo passado, armazenado em uma mente humana, atada a sentimentos e com cores e nuances únicas.

O esquecimento virá, ainda que remontemos todos os pedaços daquilo que passou como num quebra-cabeças. Não há um antídoto contra esse implacável inimigo dos amores eternos e dos sorrisos que jamais deveriam se perder como um líquido volátil no firmamento.

O tempo pode até não destruir todas as coisas, mas constrói outras no lugar. 

Aliás, lembre-se da frase acima. Retomaremos esse conceito mais adiante.

Talvez, com algum esforço, consigamos compreender porque esquecemos pessoas que passam por nós e porque somos esquecidos.

Lá pelos idos de 2014, assisti pela terceira ou quarta vez ao filme “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças (2004).”

Naquela época,eu apenas buscava qualquer expressão artística que me ajudasse a esquecer (já que esquecida eu já havia sido havia muito tempo). Como certos sentimentos (tanto os bons quanto os ruins) cegam nossa percepção, tudo o que consegui, ao ver o longa metragem, foi uma bela dose de depressão.

O mesmo aconteceu pouco tempo mais tarde, quando assisti a Her (2013). O lindo filme, banhado de luz e cores róseas e avermelhadas, jogadas aqui e ali de forma delicada, me fez sentir de tal forma sozinha com a ideia de que, no fim das contas, não somos e nem seremos nada quando a lembrança dos outros terminar.

Não é isso?

Não…

Eu apenas não compreendi nenhum dos dois filmes, assim como a maior parte das pessoas que acha que compreendeu mas não faz ideia do quanto se enganou.

Como eu disse acima, o Tempo pode até não destruir todas as coisas (enunciado que lemos em Irreversível, 2002).

Não, ele não destrói.

Mas constrói coisas novas por cima daquilo que já não tem mais ‘função’.

Ao pensar nos dois filmes citados (HER e “Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças‘) podemos ter a impressão cretina (sim, é a palavra aplicável aqui) de que assistimos a um filme que fala de inteligência artificial e seus limites humanos, e de outro filme que trata de uma desilusão amorosa terrível que, de alguma forma, oferece uma “solução”.

Na verdade ambos os longas vão muito além disso, e têm um ponto de convergência muito valioso, que consiste na ideia de que, independente do relacionamento que você (é, você) tem com uma pessoa, dificilmente haverá uma evolução que ande na mesma velocidade, respeitando os mesmos parâmetros.

Somos seres em constante evolução. Mas, feitos de carne e osso, somos dotados de sentimentos fortes, capazes de nos arrebatar.

Precisamos viver paixões, amizades fortíssimas, relações familiares intensas, ainda que esses contatos estejam delimitados a um pequeno período de tempo.

E quando tudo termina, ainda temos grandes dificuldades de conceber a ideia de que o outro se foi. Mas não era para sempre?

Sim, era… Todo amor é infinito enquanto dura!

Mas, lembrando: estamos em diferentes estágios de evolução intelectual, etária, emocional e até espiritual. Aquela paixão, aquela amizade intensa que parecia eterna, aquela pessoa que parecia que estaria contigo incondicionalmente, pode simplesmente achar que não há mais espaço para aquilo. E isso realmente vale pra qualquer tipo de amor. Ou você, por acaso, não lembra o momento em que mostram à dona inconsolável de um cãozinho na espera da clínica de apagamento de memórias?
Em “O Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças“, Joel e Clementine se amaram muito, mas em algum momento, seus interesses foram para lados diversos. Do Mesmo modo, em Her, a inteligência artificial, tão fissurada em se sentir humana (quase que num Pinóquio moderno), dá-se conta de que a vida é muito maior que aquilo (mesmo que do ponto de vista eletrônico). Uma abertura mental, aliás, que Theodore jamais tenha tido. Lembra que ele trabalhava escrevendo cartas para outras pessoas? Não seria essa uma forma de compactuar (ainda que sem querer) com uma forma de infantilidade covarde?

Fins, términos, despedidas, não são sobre drama… não são sobre o mundo ser cruel. Evoluímos ao passo que algumas pessoas jamais alcançarão. Ou nunca alcançaremos a evolução de outrem.

A vida é dura vista desse ponto? Sim.

Mas é mais fácil também.

Porque em algum momento somos obrigados a construir novas coisas, projetos, pontes, relações, razões para sorrir em cima daquilo que o tempo apagou.

Uma dica final: Reveja os filmes com esse olhar.

Talvez você discorde completamente de mim. Mas venha até aqui e refute. Essa discussão talvez valha a pena.

Ou não.

P.S: Se me é permitido, dedico este post a meu amado e falecido pai. Foi justamente quando descobri que lidar com perdas é parte de nosso fortalecimento, que perdi o homem que me ensinou tudo o que sei. 

May we Meet Again.

 


Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros.

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