[QUADRINHOS] LENNON – Imagine 9 Mind Games: O amor é a resposta

Não vim falar dos Beatles, embora eu os adore e eles estejam necessariamente atados a essa história.

Todo esse post é sobre a biografia em quadrinhos do mais importante (talvez mais problemático e complicado) Beatle: John Lennon.

No último dia 8 de dezembro de 2017, relembramos os fúnebres 37 anos do assassinato do homem que teve a ousadia – mais ingênua do que muitos julgam – de dizer que havia se tornado mais conhecido que Jesus Cristo.

Mas de todas as declarações e atos, felizes ou infelizes, sagrados ou imbecis, inteligentes ou estúpidos, é mesmo por essa marca que Lennon merece permanecer na mente das pessoas?

Acho que não, né?

Mas realmente é necessário revirar o lixo emocional, ao falar da vida de John, como faz a maravilhosa HQ trazida pela editora Nemo. É preciso ir do início, de sua base bagunçada até o fim confuso de sua vida meteórica de apenas 40 anos estrondosos.

É só compreendendo as questões do passado de Lennon que somos completamente capazes de compreender o Lennon do fim da década de 70, lutando pela paz como se nada mais fosse importante. E talvez nada mais seja.

Helter Skelter – Uma mente em espirais. 

A HQ relata a vida de John Lennon pela voz do próprio artista, como numa sessão com sua psicanalista de identidade desconhecida, à qual ele “pode ir de chinelos” sem ser incomodado.

Apenas John fala, e é só o seu ponto de vista que podemos visualizar. Mesmo assim, não existe uma romantização, ou aparente amenização de todas as besteiras protagonizadas por nosso mito.

Conforme os capítulos – divididos como se fossem sessões com a analista – vão passando, Lennon vai contando a série de suas desventuras causadas em maior parte por si mesmo. Seus problemas, confusões, brigas, revoltas, desgostos e mágoas são contados sem que haja uma relação de linearidade com o tempo. Dessa forma, você, leitor, verá John Jovem, mais velho, rapazinho, bebê e criança em diversos momentos da história, à medida que ele faz digressões, organizando sua vida por dores sofridas e não pela contagem de tempo.

Talvez John quisesse mesmo deixar claro, de uma forma que os seus biógrafos conseguiram captar, que o mais importante não era o tempo que passava mas o que se fazia dele, e o que ele fazia de cada um de nós. John Lennon viveu uma eternidade de solidão em 40 anos. Também viveu uma eternidade de glórias.

Mas ressalto que foram apenas 40 anos. Estou perto dos 30, e nem consigo imaginar como alguém poderia ter feito tantas coisas em tão pouco tempo.

Mother, you had me, but I’ve never had you – Som e fúria.

Contam em sua biografia (poeticamente narrada por ele mesmo) que os pais de Lennon o deixaram assim, à francesa, como quem nada quer. Só à francesa mesmo para um ser abandonado: Seus pais se conheceram por amor à música, tocando e cantando na noite. Sua mãe tocava bandolim, enquanto seu pai cantava. Os dois se apaixonaram e dessa paixão incerta, decorada de acordes, nasceu um dos nossos maiores gênios musicais – um dos maiores que o mundo já viu, e isso independe de gosto.

Mas quem é da noite, normalmente não é do lar (nem recatado, nem belo). O pai de John era marinheiro e, a cada viagem, demorava mais tempo para retornar ao lar. A mãe do futuro Beatle, alheia à responsabilidade materna, simplesmente deixava o rebento abandonado, chorando, e ia aproveitar as noitadas.

Com o tempo e a situação insuportável, John acabou sendo criando por seus tios, embora mais tarde tenha recobrado contato com a mãe.

É curioso como Lennon mantém o ódio pelo pai, mas consegue perdoar a mãe, e até compõe para ela uma canção. Infelizmente, porém, o contato dos dois é fugidio: a mãe do futuro astro acaba sendo atropelada por um policial bêbado, deixando o menino verdadeiramente órfão.

Mas as consequências do abandono dos pais de John Lennon foram mais profundas do que pode parecer àqueles que conhecem apenas as músicas e não vão mais fundo, em busca de alguns detalhes da vida do Beatle.

John Lennon era a encarnação do ódio em sua adolescência. Em tudo o que fazia, colocava ódio. Em tudo que queria, queria com ódio e queria o ódio.

Não o ódio adolescente, banhado nos hormônios da puberdade e da realização humana que grita: “Tu serás homem feito”. O ódio de John era a revolta que borbulhava em seu coração de um pequeno menino abandonado, que apenas tentava ou queria tentar dizer ao mundo o tempo todo que havia nele algo que poderia valer a pena. No fundo, Lennon queria apenas mostrar que valia alguma coisa.

You say you want a Revolution, well, you know… – Começando mal…

É interessante como os Beatles começaram do mais absoluto nada, como todas as bandas que jamais tiveram futuro, e como todas as bandas que jamais terão futuro.

E como todas essas bandas de fundo de garagem, com instrumentos velhos e de segunda mão, Os Beatles tiveram diferentes formações, tendo apenas UM membro fixo todo o tempo: O protagonista da HQ e desta resenha.

E sabe o que é realmente legal na parte em que ele fala de todas as reviravoltas dos Beatles com o decorrer do tempo? Bom, ele FODE completamente a sua visão fofinha (se é que você tinha uma) de que “The Beatles” era apenas os inocentes garotos de Liverpool tentando um lugar ao sol. A biografia de Lennon fala da gênese e da morte de sua própria violência, de crimes que não imaginávamos haver manchado os belos ternos dos meninos de rosto inocente, das passadas de perna que alguns membros levaram e que se tornaram uma espécie de “Instant Karma”. É delicioso ver a jornada do demônio que luta para se transformar no caçador da paz.

Nenhum demônio foi escondido dentro de armário algum. Ao ler essa biografia, talvez você até tenha vontade de virar a cara para alguns demônios que irão gritar mais alto. Mas, relaxe… No fim das contas, você vai adorar conhecer o lado Bad Guy do nosso querido John;

All you need is Love – Love is all you need… really?

Dentre os muitos aspectos ressaltados na HQ, que faziam transparecer a confusão mental de John Lennon, talvez um dos mais fortes fosse a constante busca pela felicidade. Muito dessa procura era conseguida pela transpiração musical. Mas havia a necessidade de cobrir um vazio que, como já dito acima, seus pais deixaram.

Lennon foi um filho sem mãe que jamais se conformou com isso. Não sou psicóloga, mas acho sábio concluir que isso gerou nele alguns problemas com mulheres. John gostava de mulheres. Mas talvez buscasse excessivamente por alguma que caracterizasse, em algum ponto, sua inalcançável mãe.Assim, mesmo namorando, John era de todas as fãs histéricas. Mesmo casado, John pertencia a todas às mulheres que olhassem para ele. Mesmo achando o amor de sua vida, Yoko Ono, aquela que melhor despertava nele algum sentimento de segurança maternal, John era infiel.

Freud teria muito o que falar de seu colega genial de óculos redondos.

Give the Peace a Chance – O apanhador no campo de Centeio. 

Foi apenas quando Lennon se estabilizou com Yoko, e seu filho Sean nasceu, que o gênio da música finalmente encontrou a paz, não só para si, mas também uma paz que ele quis dividir com todo o mundo. Lennon aprendeu, apenas com Sean e Yoko, a ser homem fiel e pai – como jamais fora para seu primogênito Sean. Lennon queria mudar o mundo com “Imagine” e seus versos sobre um mundo utópico vindos da cabeça de um sonhador, mas que poderia ser uma grande irmandade de homens. Era um homem em paz, mesmo com o fim dos Beatles. Estava bem, estava feliz. Finalmente estava disposto a ser melhor para si e para o mundo.

Sem mais drogas.

Sem mais traições.

Sem mais explosões de demônios contidos e expulsos em surtos de agressividade.

John só queria ser feliz, cantar a paz, ser pai, ser marido, voltar a Liverpool para fazer uma visita.

Mas foi no dia 8 de dezembro de 1980 que confirmamos que pacifistas têm fins violentos. 

Quando Lennon dava entrada em sua residência, o Edifício Dakota em New York, um homem de 25 anos chamado Mark David Chapman, que no fim da tarde do mesmo dia havia se encontrado com Lennon junto a fãs e conseguido um autógrafo de Lennon em uma capa do álbum do cantor chamado Double Fantasysacou um revólver e efetuou cinco disparos contra Lennon. Várias fontes afirmam que, antes de efetuar os disparos, Chapman gritou: Mister Lennon! (Senhor Lennon!), mas Chapman afirma não se lembrar de tê-lo feito. O primeiro tiro se perdeu atingindo uma janela do prédio, porém os quatro seguintes atingiram em cheio o corpo de Lennon, três deles atravessando o corpo e um deles destruindo a artéria aorta do cantor, causando severa perda de sangue. Ele caiu na entrada do edifício. O porteiro do edifício desarmou Chapman e chutou a arma para longe, perguntando a ele: “Você sabe o que fez?”. Mark Chapman respondeu calmamente: “Sim, eu atirei em John Lennon.” Chapman não tentou escapar, sentando-se na calçada e esperando a chegada da polícia. John Lennon foi levado em um carro policial até o hospital nova-iorquino St. Luke’s-Roosevelt.

Lennon foi declarado morto ao chegar no hospital.

Chapman, curiosamente, carregava no bolso uma edição de O Apanhador no Campo de Centeio. Por quê?

Não se sabe. Não há explicação. Ele matou seu ídolo…

Para mais, bem, leia a HQ que vale muito a pena.

Falo como fã do John Lennon, mas também como uma admiradora de música e de biografias; é maravilhoso conhecer a outra face daqueles que se nos mostram por meio da arte.

Fica a dica.


Editora Nemo

Brochura

Tradução: ‎Fernando Scheibe

24 x 16,8 x 1 cm

160 páginas

Onde comprar:

Amazon

Livraria Cultura


Da redatora

Raquel Pinheiro (Raposinha) é míope profissional, CANCERIANA, redatora, revisora, tradutora, escritora, professora de língua inglesa, viciada em café e artista plástica. Além disso é troll nas horas vagas e é viciada em cheirar livros. 

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